Na América Latina, o desenvolvimento de tanques próprios tem sido mais a exceção do que a regra. A maioria dos países historicamente optou por importar plataformas já consolidadas, o que deixa em segundo plano qualquer tentativa de construir uma indústria blindada local. Nesse contexto, a Argentina ocupa um lugar singular: não apenas projetou seu próprio carro de combate, o Tanque Argentino Médio (TAM), como também conseguiu produzi-lo e incorporá-lo ao seu Exército. Décadas depois, esse mesmo sistema segue em serviço e, AGORA, atravessa uma nova etapa de modernização.
O Tanque Argentino Médio surgiu no final da década de 1970 como resposta à necessidade de contar com um sistema próprio que estivesse à altura dos padrões internacionais da época. Seu design representou, naquele momento, um salto para o Exército, alinhado aos meios utilizados por outras forças militares. Com o passar do tempo e a evolução tecnológica, esse ponto de partida ficou defasado, o que impulsionou o desenvolvimento da versão 2C-A2, apresentada em maio de 2023, para adaptá-lo às exigências do combate atual.
O salto para o padrão 2C-A2 não se limita a uma atualização superficial, mas responde a uma revisão profunda do sistema. O processo incluiu melhorias na torre, no canhão, na visão noturna e nos sistemas computadorizados de controle de tiro, com o objetivo de aumentar a precisão e a eficácia em combate. A isso se soma a incorporação de tecnologia que permite operar em condições adversas, como fumaça, neblina ou cenários noturnos, junto com trabalhos no chassi para manter a coerência do conjunto.
A versão modernizada mantém a base do veículo, mas incorpora melhorias relevantes em seu desempenho e sistemas. De acordo com a ficha da Expo Ejército, conta com um motor a diesel de 720 cavalos de potência, capaz de alcançar 75 km/h e uma autonomia de 550 quilômetros. Seu armamento principal continua sendo um canhão de 105 mm, acompanhado por uma metralhadora FN MAG de 7,62 mm, com uma tripulação de quatro membros.
O primeiro esquadrão completo
Em 20 de dezembro de 2024, foram entregues as primeiras 10 unidades do TAM modernizadas ao padrão 2C-A2. Segundo o governo argentino, esses veículos foram alocados em instalações do Exército em Boulogne, na província de Buenos Aires, o que permitiu completar o primeiro esquadrão equipado com essa versão. Com esse passo, o sistema deixou de ser apenas um projeto em desenvolvimento para se tornar uma capacidade operacional dentro da força. Por enquanto, esta é a única entrega confirmada oficialmente.
Além desse marco, as fontes mais recentes apontam para uma fase de continuidade do programa ao longo de 2026. Segundo o site Zona Militar, o Exército Argentino mantém o TAM 2C-A2 como uma de suas principais linhas de modernização, com trabalhos em andamento e planejamento para sustentar o ritmo de avanço. Não se trata de novos anúncios, mas de consolidar o que já foi iniciado. Entre os elementos que definem essa etapa, destacam-se:
- O programa continua em desenvolvimento e conta com orçamento alocado, segundo indicou o diretor da Direção Geral de Material em março de 2026
- Já existe um esquadrão completo operacional e trabalha-se para completar um segundo
- A modernização combina a atualização da torre com a recuperação do chassi
- Projeta-se estender a vida útil do sistema entre 20 e 30 anos
- A abordagem se baseia em “núcleos de modernidade” que depois podem ser ampliados progressivamente
O programa não se limita a atualizar o veículo, mas envolve um trabalho mais amplo em termos de sustentação e autonomia. Segundo uma entrevista citada pelo Zona Militar, um dos objetivos é dominar todo o ciclo logístico e de manutenção, reduzindo a dependência externa. Isso inclui trabalhos em instalações do próprio Exército, onde são realizadas tanto as modernizações quanto o suporte posterior.
Outros projetos
O caso argentino não é a única tentativa na região, mas é um dos poucos que chegaram até o fim. O Brasil, por exemplo, desenvolveu o EE-T1 Osório por meio da empresa Engesa, um carro de combate que se destacou em testes e chegou a competir com modelos ocidentais. No entanto, o projeto não conseguiu avançar para a produção em massa e acabou sendo cancelado. Essa diferença é fundamental para entender o cenário regional: não basta projetar um tanque — o verdadeiro ponto de inflexão está em conseguir produzi-lo em série e integrá-lo a uma força operacional.
Em um contexto em que poucos países conseguiram sustentar projetos próprios desse tipo, manter um sistema em serviço e levá-lo a uma nova fase de modernização representa uma diferença clara. O TAM 2C-A2 não é apenas uma atualização técnica, mas a continuidade de um projeto industrial e militar que conseguiu se manter operacional por décadas — algo pouco comum na região.
Imagens | Exército Argentino
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
Ver 0 Comentários