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Um velho aliado: tomar café pela manhã tem consequências muito positivas para a microbiota do corpo

O café e a microbiota têm mais relação do que podemos imaginar

Café e microbiota / Imagem: Nathan Dumlao, CDC
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Para milhões de pessoas, o dia não começa até que a primeira xícara de café chegue à mesa. Isso faz bastante sentido por causa de como o café afeta o nosso cérebro, ajudando a despertar e melhorar a concentração. Mas a realidade é que a bebida tem efeitos também em outras áreas. Estamos falando do intestino, por onde o café passa e onde exerce grande influência sobre a microbiota.

Cada vez mais pesquisas estão focadas na microbiota, as bactérias que vivem no nosso sistema digestivo e que desempenham um papel cada vez mais relevante no nosso dia a dia. Nesse contexto, cuidar dessas bactérias internas é algo prioritário para manter uma boa saúde, inclusive para evitar doenças importantes.

Agora, a ciência começa a perceber que o café é muito mais do que um simples veículo para a cafeína e que tem uma participação importante na modulação da microbiota intestinal.

Além da cafeína

A ciência vem mostrando que o café é fundamental pelo seu impacto intestinal graças a dois de seus componentes: os polifenóis e a fibra alimentar.

Isso está sendo analisado atualmente em estudos de laboratório e em modelos animais, nos quais se observou que grande parte desses compostos chega intacta ao cólon, sem ser digerida. Ali, eles atuam como “alimento” para as bactérias presentes, como, por exemplo, o ácido di-hidroferúlico, que tem efeitos locais anti-inflamatórios. Ou seja, age de forma semelhante a um probiótico.

Se pensarmos o intestino como um jardim, o café parece funcionar como um fertilizante seletivo. Embora a evidência em humanos ainda seja heterogênea, vários padrões se repetem na literatura científica, como em um estudo de intervenção que mostrou que três xícaras de café por dia, durante três semanas, aumentaram a abundância de Bifidobacterium, um gênero classicamente associado à saúde intestinal.

E não para por aí: outro grande estudo metagenômico populacional associou o consumo de bebidas ricas em polifenóis, como café, chá e vinho tinto, a uma maior diversidade alfa — algo que, nesse campo, está ligado a maior resiliência e saúde da microbiota.

A descoberta recente

Uma nova pesquisa, publicada na Nature em 2024, encontrou uma associação muito específica: quem consome café habitualmente apresenta uma presença muito maior da bactéria Lawsonibacter asaccharolyticu.

Essa bactéria ajuda na digestão e também fornece ao cólon os elementos necessários para que provenha mais energia, além de prevenir inflamações. Por isso, ter essa bactéria em grande quantidade no intestino é, de fato, muito benéfico.

Saúde metabólica

Manter as bactérias do nosso intestino “contentes” é fundamental, como vimos. A principal hipótese que sustenta tudo isso se concentra na capacidade dessas bactérias de fermentar a fibra e os polifenóis do café, produzindo ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato.

Esses compostos são o combustível preferido das células do cólon e têm propriedades anti-inflamatórias sistêmicas. Isso pode explicar, ao menos em parte, por que os estudos epidemiológicos costumam associar o consumo moderado de café a uma melhor saúde metabólica e cardiovascular.

Mas, antes de correr para a quinta xícara, é preciso observar as limitações dos estudos atuais, já que nem tudo são flores. A ciência, apesar de apontar esses benefícios, também indica que ainda falta evidência clínica robusta.

É preciso considerar que nem todos os cafés são iguais, pois não é a mesma coisa consumir café solúvel, um espresso ou preparar com filtro. Além disso, nem todas as pessoas respondem da mesma forma, porque cada microbiota é literalmente um mundo diferente em cada organismo.

Embora, no laboratório e na teoria, tudo possa soar muito bem, é preciso ter em mente que ainda faltam muitos estudos que demonstrem que o café causa uma melhora direta em doenças por meio da microbiota. Afinal, mesmo que o café alimente suas Bifidobacterium, isso não muda o fato de que o excesso de cafeína provoca insônia, ansiedade e taquicardia em pessoas sensíveis.

Além disso, os benefícios observados na microbiota estão associados ao café preto ou com pouca quantidade de leite. Se o seu “café” é um milk-shake carregado de açúcar, cremes e xaropes, o impacto negativo dos ultraprocessados sobre o intestino provavelmente anulará qualquer benefício dos polifenóis.

Imagens | Nathan Dumlao, CDC

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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