Não era só carne: dieta dos humanos caçadores de 8 mil anos atrás consistia em guisados meticulosos com peixes e vegetais, mostra estudo

A história aponta que a dieta de nossos antepassados não é como imaginamos

Caçadores europeus de 8 mil anos atrás
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Durante anos, a cultura popular nos vendeu a imagem de um homem pré-histórico cuja alimentação se baseava quase exclusivamente em devorar grandes quantidades de carne assada. No entanto, a ciência vem desmontando esse mito há anos e, agora, um estudo analisou os restos incrustados em vasos milenares. E os resultados indicam que nossos antepassados eram, na verdade, cozinheiros extremamente criativos.

A ciência demonstrou que os caçadores europeus de quase 8.000 anos atrás combinavam peixe de água doce com uma grande variedade de vegetais, utilizando técnicas culinárias avançadas para melhorar sabores e neutralizar toxinas. Algo semelhante ao que fazemos hoje na cozinha, como relata o jornal El País.

O estudo, com participação espanhola, chegou a essa conclusão sem precisar buscar em ossos fossilizados, mas em algo muito mais sutil: as crostas de comida carbonizadas aderidas a 85 fragmentos de cerâmica provenientes de 13 sítios arqueológicos do norte e do leste da Europa.

Depois que esses restos foram localizados, optou-se por aplicar tecnologia de ponta, como a microscopia eletrônica de varredura combinada com a análise molecular desses resíduos.

Até agora, os restos vegetais na arqueologia costumavam ser subestimados porque se degradam muito mais rápido que os ossos de animais. Mas o microscópio eletrônico revelou um nível de detalhe impressionante, detectando tecidos celulares de plantas e escamas microscópicas de peixes que conseguiram sobreviver por milênios graças ao fato de terem sido queimadas e aderido à argila.

Os resultados

Com todas essas técnicas, foi possível responder o que era cozinhado nessas panelas de argila. E os resultados mostram que esses humanos realizavam receitas que misturavam proteínas e carboidratos de forma meticulosa.

Os pesquisadores conseguiram identificar restos de peixes de água doce, com destaque para a carpa e os barbos, vegetais de folha como o espinafre, raízes e bulbos como a beterraba e também bagas de Viburnum opulus.

Talvez a descoberta mais fascinante da equipe de González Carretero seja a sofisticação das técnicas culinárias, já que as bagas de Viburnum opulus são conhecidas por serem levemente tóxicas quando cruas e por terem um sabor extremamente ácido e amargo.

No entanto, os habitantes pré-históricos descobriram que, ao cozinhá-las em fogo baixo em um caldo junto com peixes ricos em gordura, o amargor era neutralizado, tornando-as digestivas e seguras para o consumo humano. E essa mistura não era acidental, mas sim uma receita transmitida que buscava sempre melhorar o sabor.

Esse trabalho se soma a uma crescente onda de estudos que estão reescrevendo a história da nossa alimentação. Já em 2018, foi publicado na PNAS o descobrimento do “pão” mais antigo do mundo na Jordânia, assado há 14.400 anos, muito antes de que a agricultura fosse inventada. Mas agora esses restos de comida indicam que a mal chamada dieta paleo não existiu da forma como quiseram nos vender.

Concluímos que nossos antepassados conheciam perfeitamente seu ambiente, dominavam o processamento de plantas tóxicas e dedicavam tempo a preparar guisados complexos em que as verduras e os tubérculos eram pratos principais, e não uma simples guarnição.

Imagem | Gerada con Nano Banana 2

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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