Se seu filho tem dificuldade em matemática, a ciência tem algo a lhe dizer: o verdadeiro culpado foi descoberto dentro do cérebro

Cientistas descobriram que diferenças na atividade cerebral podem explicar por que algumas crianças têm mais dificuldade para aprender matemática

Criança contando números matemáticos
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Para muita gente, a matemática parece um “bicho de sete cabeças” desde cedo. Muitas crianças crescem acreditando que simplesmente não são boas com números, enquanto outras parecem aprender conceitos matemáticos com muito mais facilidade. O que explica essa diferença? Um novo estudo científico sugere que a resposta pode estar menos nos números e mais na forma como o cérebro reage aos erros.

Pesquisadores da Stanford University analisaram o funcionamento do cérebro de crianças com e sem dificuldades em matemática e identificaram diferenças importantes na forma como elas processam problemas e ajustam seu raciocínio. O estudo, publicado em fevereiro na revista científica The Journal of Neuroscience, utilizou exames de ressonância magnética para observar a atividade cerebral durante tarefas matemáticas simples. Os resultados indicam que crianças com dificuldades na disciplina não necessariamente têm problemas para compreender quantidades. O que muda é a forma como elas monitoram erros e adaptam suas estratégias enquanto tentam resolver um problema.

A dificuldade pode não estar nos números, mas na forma como o cérebro aprende com os erros

A matemática é considerada uma das disciplinas acadêmicas mais difíceis, principalmente devido à sua natureza abstrata, base cumulativa e foco excessivo em decorar fórmulas. Contudo, para algumas crianças resolver problemas matemáticos parece mais simples do que para outras. Para investigar essa diferença, a equipe liderada pela neurocientista cognitiva Hyesang Chang pediu que alunos do segundo e terceiro ano do ensino fundamental realizassem tarefas simples de comparação numérica. Em cada rodada, duas quantidades eram apresentadas e as crianças precisavam decidir qual era maior.

Em alguns casos, os valores apareciam como números escritos, como por exemplo 4 e 7. Em outros, eram mostrados como conjuntos de pontos na tela, semelhantes aos lados de um dado ou a pequenos agrupamentos de bolinhas. Por exemplo, um grupo podia ter quatro pontos e outro sete, distribuídos de forma aleatória. Nesses casos, as crianças precisavam olhar rapidamente para os dois grupos e estimar qual deles tinha mais itens, sem necessariamente contar um por um.

Os pesquisadores não estavam interessados apenas em saber quem acertava ou errava. O foco era entender como cada criança chegava à resposta e se ela conseguia ajustar sua estratégia depois de cometer um erro. O resultado, contudo, surpreendeu a equipe. Crianças com dificuldades em matemática eram menos propensas a mudar o raciocínio depois de errar. Mesmo quando percebiam que haviam cometido um erro, tendiam a continuar respondendo da mesma forma nas tentativas seguintes.

Exames de ressonância magnética mostraram que esse comportamento estava associado a uma menor atividade em duas áreas importantes do cérebro: o giro frontal médio, ligado ao controle cognitivo e ao processamento numérico, e o córtex cingulado anterior, uma região responsável por detectar erros e monitorar o desempenho. Essa diferença ajuda a explicar por que algumas crianças parecem ficar “presas” em estratégias que não funcionam, mesmo quando se esforçam para resolver o problema.

Experimento revela que retirar os números reduz a diferença de desempenho entre as crianças

A descoberta mais interessante do estudo apareceu quando os pesquisadores trocaram os números por representações visuais. Quando as quantidades foram mostradas como grupos de pontos, em vez de símbolos numéricos, as diferenças entre os dois grupos praticamente desapareceram. As crianças com dificuldades em matemática passaram a apresentar padrões de atividade cerebral semelhantes aos das outras.

Isso sugere que o problema pode não estar na compreensão básica de quantidades, mas sim na forma como o cérebro acessa e manipula símbolos numéricos, como os números que aprendemos na escola. Segundo os pesquisadores, esses resultados reforçam a ideia de que as dificuldades em matemática podem envolver processos cognitivos mais complexos, como a capacidade de avaliar erros, ajustar estratégias e adaptar o comportamento ao longo do aprendizado. Isso significa que aprender matemática não depende apenas de entender números, mas também de saber reconhecer quando algo deu errado e tentar uma nova abordagem.


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