O Brasil está se consolidando como uma das maiores potências mundiais para o estudo da longevidade humana extrema. Um novo artigo publicado na revista Genomic Psychiatry pela renomada geneticista Mayana Zatz e sua equipe do Centro de Pesquisa do Genoma Humano da USP revela que a população brasileira abriga variantes genéticas únicas — invisíveis em populações mais homogêneas — que podem redefinir o que sabemos sobre o envelhecimento.
Diferente de países da Europa ou do Japão, o Brasil possui a mais rica diversidade genética do mundo, fruto de séculos de miscigenação entre indígenas, europeus, africanos e asiáticos. Já foram identificadas mais de 8 milhões de variantes genéticas inéditas apenas em brasileiros idosos.
Resiliência biológica acima de tudo
O estudo acompanha uma coorte rara de mais de 160 centenários, incluindo 20 supercentenários (pessoas com mais de 110 anos). O que mais impressiona os pesquisadores é que muitos desses indivíduos viveram a maior parte de suas vidas com pouco acesso à medicina moderna e em áreas carentes, sugerindo que sua longevidade é fruto de uma resiliência biológica natural e não apenas de cuidados médicos.
- Mentes lúcidas: vários participantes mantêm a mente afiada e realizam tarefas diárias por conta própria aos 110 anos.
- Famílias de ferro: o estudo documentou casos como o de uma mulher de 110 anos cujas sobrinhas têm 100, 104 e 106 anos, evidenciando uma herança poderosa de resistência.
- Imunidade imbatível: três supercentenários brasileiros sobreviveram à COVID-19 em 2020, antes das vacinas, desenvolvendo anticorpos eficazes contra um vírus que foi fatal para milhões de jovens.
O que o sangue deles revela?
A análise das células desses supercentenários mostra que seus corpos funcionam de forma diferente. Enquanto o envelhecimento comum é visto como um declínio, neles parece ser uma adaptação:
- Limpeza celular: suas células mantêm sistemas de "reciclagem de proteínas" tão eficientes quanto os de pessoas jovens, evitando o acúmulo de danos celulares.
- Células T "especiais": eles possuem uma expansão incomum de células de defesa (T CD4+ citotóxicas) que raramente são vistas em perfis imunológicos de jovens, conferindo-lhes uma proteção extra contra infecções e tumores.
- DNA protetor: o sequenciamento identificou variantes raras em genes de imunidade e estabilidade genômica que podem ser a chave para barrar doenças como o Alzheimer e o câncer.
Brasil no topo do ranking
As estatísticas comprovam o fenômeno: três dos dez homens mais velhos do mundo com longevidade comprovada são brasileiros. Além disso, o número de brasileiras entre as 15 pessoas mais longevas do planeta supera o de nações muito mais ricas.
O próximo passo da equipe da USP é criar modelos celulares a partir dessas pessoas para testar medicamentos e tratamentos que possam mimetizar essa proteção natural.
O objetivo final não é apenas viver mais, mas entender como o DNA brasileiro pode ensinar o mundo a envelhecer com saúde e vigor.
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