O plástico é um dos produtos criados pelo homem que mais demora a se decompor na natureza. Produzido em massa desde meados do século XX, pode levar mais de 400 anos para se degradar e, nesse intervalo, atravessar oceanos e fronteiras. Foi essa persistência que transformou uma ação comum de limpeza em um achado inesperado nas Ilhas Orkney, na Escócia.
Voluntários encontraram garrafas e fragmentos plásticos das décadas de 1960 e 1970, com indícios de origem no Canadá, espalhados pela praia de Howar Sands, na ilha de Sanday. O material, trazido pelo mar nas últimas semanas, surpreendeu tanto pela idade quanto pela quantidade, e especialistas apontam que condições climáticas incomuns, com ventos mais intensos e mudanças nas correntes, podem ter sido decisivas para que esse lixo reaparecesse na costa escocesa, há quilômetros de distância do Canadá.
Limpeza de rotina nas praias de Escócia revela centenas de garrafas antigas e mais de 300 mil fragmentos espalhados pela areia
Se deparar com lixo nas praias é uma realidade comum em todos os lugares do mundo, mesmo com a realização de limpeza frequente. Afinal, grande parte dos resíduos descartados em centros urbanos acaba sendo levada por rios, sistemas de drenagem e correntes marítimas até o oceano, onde pode circular por anos antes de atingir novamente a costa.
Em Sanday, quem percebeu que algo estava fora do normal foi David Warner, coordenador de mutirões de limpeza na região. Em 2025, ele havia recolhido 42 garrafas plásticas ao longo do ano. Em 2026, porém, o número já chegou à casa das centenas. Além desse aumento significativo, o que mais chamou atenção de David é que muitas das garrafas encontradas são de marcas que deixaram de existir há anos, com rótulos associados a Newfoundland e Labrador, no Canadá.
Ou seja, a diferença não está apenas na quantidade, mas no perfil do lixo. Em entrevista para o BBC, David compartilhou um outro detalhe curioso: não apareceram resíduos típicos das décadas de 1990 ou 2000, o que sugere que um volume ainda maior de plástico antigo pode estar por vir.
E para piorar o que já está ruim, além das garrafas inteiras, também foram encontrados fragmentos quase invisíveis que preocupam os especialistas. Com base na concentração de partículas de poliestireno por metro quadrado, David estimou que mais de 300 mil pedaços estavam espalhados em uma área de cerca de 70 metros quadrados. Pequenos demais para serem totalmente removidos, o grande problema desses fragmentos é que eles representam risco direto à vida dos animais.
A praia é classificada como área de especial interesse científico por ser local de nidificação de aves marinhas. Fragmentos pequenos de plástico, como os pedaços de poliestireno encontrados, podem ser facilmente confundidos com alimento. Quando ingeridos, podem causar obstruções no sistema digestivo, desnutrição e até morte. Além disso, pedaços maiores podem prender em patas, asas ou pescoços de aves e outros animais.
Especialistas apontam clima incomum como responsável por levar plástico do Canadá a Escócia
Voluntários locais que limpam Howar Sands encontraram garrafas plásticas que possivelmente são do Canadá. Creditos: Sanday Community Craft Hub
Você provavelmente deve estar se perguntando: como centenas de garrafas e fragmentos plásticos originários do Canadá foram parar na Escócia? O fenômeno não é interpretado como um descarte recente, mas como o retorno de resíduos antigos que permanecem no ambiente marinho durante anos.
A Sociedade de Conservação Marinha afirma que tempestades sazonais costumam trazer esse tipo de material de volta às praias nesta época do ano. Desta vez, fortes ventos de sudeste e condições climáticas consideradas incomuns podem ter deslocado detritos que estavam submersos ou enterrados no fundo do mar.
Além disso, a erosão de antigos aterros costeiros também pode estar liberando esses lixos antigos novamente no oceano. Vale lembrar que o plástico não desaparece facilmente na natureza, ele apenas se fragmenta e continua circulando pelos mares.
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