Ao sobrevoar a China, os Estados Unidos descobriram uma instalação que os preocupou profundamente

  • Imagens de satélite revelam a construção de um enorme complexo de fusão a laser na China, que supera em muito a Instalação Nacional de Fusão a Laser (NIF) dos EUA;

  • Essa infraestrutura, localizada em Mianyang, levanta questões sobre seu potencial duplo: energia limpa ilimitada ou avanços em armas nucleares?

  • Esse desenvolvimento está sendo acompanhado de perto pelos Estados Unidos

Ao sobrevoar a China, os Estados Unidos descobriram uma instalação que os preocupou profundamente.
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Fabrício Mainenti

Redator

Imagens de satélite alarmantes

A sombra da corrida armamentista nuclear paira novamente, não na forma de testes subterrâneos, mas através das lentes da pesquisa de fusão nuclear. Imagens de satélite recentes revelam que a China está construindo um complexo de fusão a laser sem precedentes, um desenvolvimento acompanhado de perto pelos serviços de inteligência dos EUA.

Essa instalação, localizada perto da cidade de Mianyang, no sudoeste da China, levanta questões sobre suas potenciais implicações, tanto para a produção de energia limpa quanto para o avanço do arsenal nuclear chinês.

A existência desse projeto, denominado "Laboratório de Dispositivos Principais de Fusão a Laser", foi revelada graças à análise meticulosa de imagens de satélite por especialistas da CNA Corp, uma organização de pesquisa independente dos EUA, em colaboração com o Centro James Martin de Estudos de Não Proliferação (CNS).

Essas imagens mostram uma estrutura imponente com quatro braços externos projetados para abrigar conjuntos de lasers de alta potência, convergindo para um compartimento experimental central. É nessa câmara que os experimentos de fusão ocorrerão, concentrando a energia do laser em isótopos de hidrogênio para desencadear uma reação de fusão nuclear.

A comparação com a Instalação Nacional de Ignição (NIF) dos EUA, na Califórnia, é inevitável. A NIF, que custou US$ 3,5 bilhões (cerca de R$ 18,8 bilhões), alcançou um marco histórico em 2022 ao produzir mais energia a partir de uma reação de fusão do que a energia injetada pelos lasers, atingindo o chamado "limiar de equilíbrio científico".

No entanto, de acordo com estimativas de Decker Eveleth, pesquisador da CNA Corp, o compartimento experimental do complexo chinês é aproximadamente 50% maior que o da NIF, sugerindo uma ambição ainda maior.

Esse desenvolvimento tecnológico levanta questões complexas. A fusão nuclear, em teoria, oferece uma fonte de energia limpa, abundante e praticamente ilimitada, utilizando hidrogênio, o elemento mais abundante do universo. Contudo, dominar essa tecnologia está se mostrando extremamente difícil e caro. 

O interesse da China na fusão nuclear, assim como o de outras potências mundiais, faz parte de uma busca global por uma alternativa aos combustíveis fósseis e pela garantia de sua independência energética.

Mas e se o objetivo fosse mais amplo?

Além do aspecto energético, a pesquisa sobre a chamada fusão por confinamento inercial é de importância estratégica no campo das armas nucleares. O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT), assinado pela China e pelos Estados Unidos, proíbe explosões nucleares em todos os ambientes.

Nesse contexto, os experimentos de fusão a laser possibilitam o estudo dos mecanismos fundamentais da detonação nuclear, o aumento da confiabilidade dos modelos de simulação e o desenvolvimento de novas armas sem a necessidade de testes reais.

William Alberque, analista de política nuclear do Centro Henry L. Stimson, destaca que qualquer nação com uma instalação do tipo NIF pode aumentar sua confiança e aprimorar seus projetos de armas existentes, além de facilitar o desenvolvimento de modelos futuros sem a realização de testes físicos. Essa afirmação ressalta a área cinzenta entre a pesquisa básica e as aplicações militares.

Embora as autoridades chinesas não tenham respondido aos pedidos de comentários, a cautela permanece necessária. A escala da instalação de Mianyang, a maior do mundo em seu tipo, demonstra um investimento significativo e o desejo de se posicionar na vanguarda da pesquisa em fusão.

Não há motivo para preocupação

Siegfried Hecker, ex-diretor do Laboratório Nacional de Los Alamos, outro importante centro de pesquisa nuclear nos Estados Unidos, modera as preocupações. Segundo ele, para países que já realizaram inúmeros testes nucleares, como os Estados Unidos, os experimentos de fusão a laser servem principalmente para manter a segurança e a confiabilidade do arsenal existente

Para a China, que realizou um número relativamente limitado de testes, a contribuição desses experimentos seria menos significativa devido à falta de uma base de dados empírica tão extensa.

Omar Hurricane, cientista-chefe do renomado programa de fusão por confinamento inercial do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, também oferece uma perspectiva mais matizada. Ele destaca que outros países, como França, Reino Unido e Rússia, também operam instalações de fusão a laser. Ele enfatiza que o progresso científico é difícil de ser impedido e que o conhecimento adquirido pode ser usado para diversos fins.

Em última análise, a construção dessa gigantesca instalação de fusão na China não constitui, por si só, uma ameaça iminente. Em vez disso, reflete uma ambição científica e tecnológica.

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