A dipirona é um medicamento que todo brasileiro conhece. Indicada para aliviar dores e reduzir a febre, ela está entre os remédios mais consumidos no país. Mas, enquanto no Brasil o uso é comum e liberado sem receita, em países como Estados Unidos, Japão e outros da Europa a situação é completamente diferente: o medicamento foi proibido por possíveis riscos à saúde.
Criada em 1920 pela indústria farmacêutica alemã e logo espalhada pelo mundo, a dipirona passou a ser alvo de controvérsias a partir dos anos 1960, quando estudos levantaram a suspeita de um efeito colateral raro, porém grave. Desde então, decisões regulatórias divergentes transformaram o remédio em um caso totalmente confuso para a medicina: enquanto segue como um dos mais utilizados em países como o Brasil, permanece proibido em outras partes do mundo por precaução.
Por que a dipirona passou a ser proibida ao redor do mundo?
Se a polêmica parece confusa, a resposta começa dentro do próprio organismo. A dipirona atua principalmente inibindo mecanismos ligados à dor e à inflamação, além de interferir na produção de substâncias responsáveis pela febre. Por isso, o medicamento é utilizado para tratar desde dores simples até quadros mais intensos.
O grande problema começou quando pesquisadores associaram o uso do medicamento a um possível risco de agranulocitose, uma condição rara que reduz violentamente os glóbulos brancos, comprometendo o sistema imunológico. Um estudo publicado na revista científica JAMA, na década de 1960, apontou uma incidência considerada alta desse efeito: segundo os dados, um a cada 127 indivíduos expostos à aminopirina, substância com estrutura química semelhante à dipirona, desenvolveu agranulocitose.
O dado foi suficiente para que autoridades de saúde optassem por proibir o medicamento nos anos 1970, começando pelos Estados Unidos. A partir daí, vários países seguiram o mesmo caminho com medo das reações ao medicamento. Afinal, mesmo sendo raro, o efeito adverso poderia ser grave o suficiente para não compensar os benefícios do uso.
Mas a história não parou por aí. Estudos com bases muito maiores, como o “Estudo de Boston”, que analisou milhões de pacientes, reduziram essa estimativa para algo próximo de 1 caso por milhão. Mas a inconsistência entre os dados nunca foi totalmente resolvida e é justamente isso que explica por que o remédio é tratado de forma tão diferente ao redor do mundo.
O caso brasileiro: estudos apontam baixo risco e explicam por que o remédio continua liberado
A decisão brasileira se baseia em evidências de baixo risco e no uso seguro do medicamento quando respeitadas as doses recomendadas
Enquanto parte do mundo optou pela proibição, o Brasil decidiu seguir outro caminho. Estudos realizados na América Latina identificaram uma incidência extremamente baixa de agranulocitose, o que reforçou a percepção de que o medicamento é seguro quando utilizado da forma correta. Além disso, especialistas e autoridades sanitárias concluíram que os benefícios da dipirona superam os riscos para a população brasileira.
Mais recentemente, um estudo com participação de pesquisadores da USP trouxe um novo elemento para essa discussão: a hipótese de que diferenças genéticas poderiam explicar por que o risco varia entre países. No entanto, a análise não encontrou evidências suficientes para sustentar uma relação clara entre genética e maior incidência da doença.
Isso indica que o assunto pode ser mais complexo do que se pensava, e que a proibição em alguns países pode não ter uma base tão sólida quanto parecia anos atrás. Hoje, a dipirona continua sendo uma das principais opções para tratar dor e febre no Brasil. Mesmo assim, como qualquer medicamento, ela pode ter riscos e deve ser usada com responsabilidade, respeitando doses e indicações.
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