O "Códice H" era um dos últimos elos perdidos do Novo Testamento: agora encontramos 42 novas páginas

Com a ajuda da ciência, um grupo de pesquisadores resgatou conteúdo perdido do 'Códice H'

Imagens | University of Glasgow
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Fabrício Mainenti

Redator

A história do Códice H é irônica. Apesar de seu enorme valor, no século XIII, os monges do Mosteiro de Grande Laura (Grécia) decidiram desmontá-lo para reutilizar seus materiais em outras obras. O pergaminho era escasso e a reciclagem era necessária, mesmo que isso significasse destruir um manuscrito com mais de 400 anos.

Os historiadores sempre consideraram seu conteúdo perdido. Agora, com o auxílio da ciência, mais de 40 páginas foram recuperadas.

E são um verdadeiro tesouro.

O que é o Códice H?

Um manuscrito do século VI especialmente valioso por seu conteúdo. Além de sua antiguidade, seu valor histórico ou como curiosidade, a obra é interessante porque nos oferece uma cópia das Epístolas de São Paulo, feita apenas alguns séculos depois de o próprio apóstolo tê-las escrito.

Em outras palavras, o códice foi escrito em grego alguns séculos (século VI) depois de Paulo de Tarso ter escrito suas epístolas no século I d.C. Isso pode parecer muito tempo, mas para os estudiosos do Novo Testamento, oferece um tesouro valioso: uma pista sobre como essas epístolas eram organizadas na Alta Idade Média.

O "Códice H" também tem outra peculiaridade: é o exemplo mais antigo do que é conhecido como "Aparelho Eutaliano", um sistema de divisões e anotações para o Novo Testamento.

Imagens | University of Glasgow

E o que aconteceu com ele?

A obra acabou sendo desmantelada. Literalmente. No século XIII, o pergaminho era um produto escasso, então, no Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Atos (Grécia), decidiram sacrificar o manuscrito para reutilizar seus materiais. A ideia era usar o pergaminho para encadernar e criar guardas para outras obras, então reentintaram suas páginas.

Isso explica por que pesquisadores encontraram fragmentos da obra espalhados em bibliotecas na Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França. Outras páginas nunca foram encontradas e presumidas perdidas para sempre.

Mas não foi esse o caso?

Não exatamente. Os monges do século XIII podem ter reciclado o pergaminho para fazer guardas e encadernar outros manuscritos, mas isso não significa que as páginas originais (e seu conteúdo) tenham se perdido. Pelo menos não quando examinadas com a ajuda da ciência do século XXI.

"Sabíamos que, em algum momento, o manuscrito foi reentido. Os produtos químicos da nova tinta causaram danos por 'deslocamento' nas páginas opostas, criando uma imagem espelhada do texto na folha oposta, às vezes deixando vestígios de várias páginas, quase invisíveis, mas muito nítidos com a ajuda das mais recentes técnicas de imagem", explica Garrick Allen, professor da Universidade de Glasgow e um dos especialistas que estudaram o códice.

O que exatamente eles fizeram?

Com ​​a colaboração da Biblioteca Eletrônica de Manuscritos Antigos (EMEL), os pesquisadores usaram imagens multiespectrais e processaram as páginas sobreviventes em busca de "textos fantasmas". O termo pode soar estranho, mas essencialmente permite que os especialistas aproveitem ao máximo um fólio, procurando vestígios que lhes permitam reconstruir outras páginas que não estão mais fisicamente preservadas.

Para garantir a precisão histórica, a equipe liderada pelo Professor Allen colaborou com especialistas em Paris que, graças à datação por radiocarbono, confirmaram que o material com o qual estavam trabalhando era um pergaminho do século VI.

O que eles encontraram?

Nada menos que 42 páginas anteriormente perdidas do Códice H. E isso é muito mais importante do que pode parecer à primeira vista. Os textos recuperados são fragmentos das Cartas de São Paulo, escritos que já eram conhecidos e não representam nenhuma novidade histórica em si mesmos. O que é realmente interessante não são tanto as frases em si, mas tudo o que as envolve.

O que isso significa? Essas 42 páginas fornecem aos pesquisadores uma riqueza de informações sobre tópicos como os métodos de trabalho dos escribas, como eles interagiam com os escritos de Paulo, como os organizavam e (é claro) como reutilizavam materiais à medida que os códices envelheciam.

Será que realmente oferece tanta informação assim?

A Universidade de Glasgow enfatiza como as 42 páginas do códice nos ajudam a compreender melhor as mudanças pelas quais o Novo Testamento passou.

"Elas oferecem uma perspectiva única sobre como o texto evoluiu e foi interpretado ao longo dos séculos", observa a instituição, antes de se concentrar especificamente nas "listas de capítulos".
"Essas páginas contêm os exemplos mais antigos conhecidos de listas de capítulos das Epístolas de Paulo, que diferem drasticamente da forma como dividimos essas epístolas hoje", explicam em Glasgow.

O códice grego também fornece informações sobre como os escribas do século VI corrigiam, anotavam e interagiam com as epístolas de São Paulo com as quais trabalhavam.

Imagens | University of Glasgow


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