Segundo psicólogos, pessoas que cresceram nas décadas de 80 e 90 desenvolveram a falácia da chegada devido aos finais felizes

  • Um professor de Harvard especializado em psicologia positiva acredita que finais felizes são um veneno cultural;

  • Nós nos acostumamos com essa ideia, mas nossos cérebros funcionam de maneira diferente

Segundo psicólogos, pessoas que cresceram nas décadas de 80 e 90 desenvolveram a falácia da chegada devido aos finais felizes.
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Fabrício Mainenti

Redator

Seja na forma de filmes da Disney, histórias infantis ou comédias românticas, a ideia de "felizes para sempre" permeou nosso imaginário coletivo como o objetivo final da vida. Não se tratava apenas de crescer, formar uma família e alcançar a felicidade plena. Era uma filosofia que influenciou todos os aspectos da nossa psicologia desde a infância.

O Dr. Tal Ben-Shahar, professor de Harvard e especialista em psicologia positiva, cunhou um termo usando essa mesma perspectiva de "felizes para sempre", que continua a nos afetar até hoje. Ele o chama de falácia da chegada e, ao relacioná-lo ao clímax emocional dos filmes das décadas de 80 e 90, demonstrou o quanto esses finais se tornaram um veneno cultural.

A falácia da chegada segundo a psicologia

O que a psicologia identifica como falácia da chegada baseia-se na crença equivocada de que alcançar um objetivo nos trará felicidade duradoura. "Se eu me casar com essa pessoa, serei feliz"; "se eu conseguir esse emprego, não precisarei mais me preocupar com nada"; "se eu ganhar X por mês, tudo estará resolvido". O problema é que essa filosofia implica que a felicidade é um destino, quando, na realidade, é um estado transitório governado pelo próprio cérebro.

O melhor exemplo disso encontra-se em estudos psicológicos com ganhadores da loteria. Na grande maioria dos casos, alguns meses após ganharem o prêmio, eles relatam ter um nível de felicidade equivalente ao que tinham antes dessa mudança radical em suas vidas. Não é que as coisas tenham piorado; é que o cérebro se adaptou ao novo normal através do que os especialistas chamam de adaptação hedônica.

A queda de ânimo que muitos de nós experimentamos após atingirmos certos marcos decorre precisamente dessa premissa. Aliás, costuma-se dizer que somos mais felizes antes de conquistar algo do que depois, simplesmente devido à antecipação: a sala de espera da felicidade. Ao atingirmos esse objetivo e descobrirmos que não era tão bom assim ou que está longe de resolver todos os nossos problemas, a magia do momento desaparece e rapidamente voltamos ao normal.

O que o mundo da psicologia nos incentiva a fazer — uma tendência que a Geração Z abraçou melhor do que qualquer outra geração atualmente — é abandonar a ideia de que alcançar objetivos é a chave para a felicidade e, em vez disso, aprender a valorizar o processo e a jornada que esse desafio representa.

Abandonar expectativas irreais e encarar nossas vidas como um processo contínuo e repleto de mudanças nos afasta do cenário de "felizes para sempre", mas também nos impede de dar importância indevida a um vazio que, muitas vezes, confundimos com infelicidade ou fracasso.

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