Caso inédito na medicina: ela recebeu o útero da mãe e deu à luz pelo mesmo órgão do qual nasceu

Primeiro transplante de útero da Austrália permitiu que uma mulher gestasse um bebê no órgão doado pela própria mãe

Kirsty Bryant e Michelle Hayton no hospital. Créditos: UNSW Sydney
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Gerar uma vida costuma ser descrito por muitas pessoas como um milagre. Mas para a australiana Kirsty Bryant, esse milagre só se tornou possível graças a um feito médico inédito no país e uma decisão dentro da própria família. Em janeiro de 2023, no Royal Hospital for Women, em Sydney, Kirsty se tornou a primeira mulher da Austrália a receber um transplante de útero. O órgão, no entanto, não foi doado por qualquer um, mas por sua mãe, Michelle Hayton. Quase dois anos depois, esse mesmo útero, no qual a própria Kirsty havia sido gerada, permitiu o nascimento de um menino, em 15 de dezembro de 2024. 

Além da história surpreendente, o caso marcou a medicina australiana duas vezes: o primeiro transplante de útero realizado na Austrália e o nascimento do primeiro bebê no país a partir desse procedimento, como parte de um ensaio clínico liderado por pesquisadores da UNSW Sydney em parceria com o Royal Hospital for Women.

Mãe decide doar útero para que a filha gerasse um neto 

Aos 31 anos, Kirsty Bryant já era mãe de Violet quando recebeu uma notícia que não esperava. Em 2021, durante o parto da filha, ela sofreu uma hemorragia grave e precisou passar por uma histerectomia de emergência, uma cirurgia que salvou sua vida, mas eliminou qualquer possibilidade de engravidar novamente

Meses depois, ainda em recuperação, Kirsty começou a buscar alternativas para que realizasse o sonho de ser mãe novamente. Adoção e barriga de aluguel foram considerados, mas nenhuma delas atendia ao desejo de Kirsty de gerar o próprio bebê. Foi nessa busca que ela encontrou um ensaio clínico inédito na Austrália, que estudava o transplante de útero como tratamento para mulheres sem um órgão funcional.

Ao compartilhar a descoberta com a mãe, Kirsty perguntou se Michelle consideraria doar o útero. A resposta, para sua surpresa, foi positiva. Aos 53 anos e sem desejo de ter mais filhos, Michelle decidiu que doaria o órgão à filha. Para ela, não se tratava de um sacrifício, mas de uma extensão do papel materno.

A cirurgia dupla aconteceu em janeiro de 2023 e durou cerca de 16 horas, envolvendo mais de 20 profissionais de saúde. Em maio de 2024, Kirsty engravidou por fertilização in vitro, e em dezembro de 2024, nasceu Henry.

Como funciona um transplante de útero e por que ele não é para sempre?

Mãe e filha se abraçando. Mãe e filha se abraçando antes de cirurgia. Créditos: UNSW Sydney

Apesar de ser uma cirurgia que transforma sonhos em realidade, o transplante de útero está longe de ser um procedimento simples ou rotineiro. Diferentemente de outros transplantes, ele não tem como objetivo salvar uma vida, mas possibilitar uma gestação. Por isso, é considerado temporário. O útero transplantado permanece no corpo da receptora por até cinco anos ou após dois partos, período em que ela faz uso controlado de medicamentos imunossupressores para evitar rejeição.

Antes mesmo da cirurgia, a paciente precisa passar por etapas da fertilização in vitro e congelar embriões, já que a gravidez só ocorre depois que o corpo se adapta ao novo órgão. No dia do procedimento, doadora e receptora são operadas simultaneamente, em salas diferentes. A retirada do útero exige extrema precisão, pois envolve vasos sanguíneos delicados e estruturas próximas, como ureteres e bexiga. O ensaio clínico recebeu autorização para realizar seis transplantes ao longo de três anos, com financiamento obtido por doações. 

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