Pássaros são dinossauros (literalmente): novas descobertas mostram que a evolução das aves foi muito mais estranha do que você imagina

Novas evidências científicas revelam que as primeiras aves surgiram em múltiplas linhagens, misturando traços “primitivos” e modernos, e que os dinossauros nunca desapareceram de fato

Simulação 3D do Archaeopteryx. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Quando um pardal pousa na natureza ou um pombo atravessa a cidade voando, o que está ali não é apenas uma ave comum, mas o último capítulo de uma história que começou lá na era dos dinossauros, muito antes de qualquer ser humano existir. Um artigo publicado na Nature, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo, mostra que as primeiras aves surgiram há cerca de 150 milhões de anos, no período Jurássico, em ambientes que hoje correspondem à Europa e ao leste da Ásia. 

Fósseis encontrados na Alemanha e na China indicam que esses animais combinavam características curiosas, como penas com dentes, garras nas asas e caudas longas, além de capacidades de voo mais desenvolvidas. Essas descobertas, somadas a análises reunidas pelo Museu de História Natural de Londres, indicam que a evolução das aves não ocorreu em uma sequência única e previsível, mas foi um processo com ramificações, no qual diferentes espécies testaram soluções evolutivas variadas para voar e sobreviver.

A evolução das aves virou um quebra-cabeça porque espécies muito diferentes coexistiram ao mesmo tempo

Archaeopteryx. À esquerda, a reconstrução artística do Archaeopteryx, feita por Maurice Wilson. À direita, um fóssil do mesmo animal, considerado a ave mais antiga conhecida, hoje no acervo do Museu de História Natural. Créditos: Natural History Museum

Por muito tempo, a evolução das aves foi explicada como uma transição relativamente simples, onde pequenos dinossauros terrestres teriam desenvolvido asas aos poucos e aprendido a voar. O problema é que os fósseis mais recentes mostram que, no final do Jurássico, espécies muito distintas já coexistiam.

O Archaeopteryx, encontrado na Alemanha e considerado o elo entre dinossauros e aves, tinha penas, mas também exibia dentes, garras nas asas e uma cauda longa, típica de dinossauros predadores. Durante décadas, ele foi considerado a “primeira ave” existente. Agora, a descoberta do Baminornis, na China, mudou totalmente essa ideia. Descrito em 2025 a partir de fósseis encontrados na província de Fujian, o animal é uma ave do período Jurássico, com cerca de 150 milhões de anos, com tamanho semelhante ao de um pequeno pássaro de hoje em dia. O que surpreendeu os pesquisadores foi o fato de ele já apresentar um pigóstilo, uma estrutura óssea formada pela fusão das vértebras finais da cauda, típica das aves modernas e fundamental para a estabilidade e o controle do voo.

Essa característica aparece em aves muito mais recentes no registro fóssil e não está presente no Archaeopteryx, que viveu na mesma época. Isso indica que traços considerados “avançados” surgiram mais cedo do que se imaginava, enquanto formas com anatomia mais primitiva continuaram existindo em paralelo

As primeiras aves aprenderam a voar sem ter a anatomia das aves modernas

Outro ponto que torna essa história estranha é que muitas aves primitivas não tinham a anatomia ideal para voar, pelo menos segundo os padrões conhecidos hoje O Archaeopteryx, por exemplo, provavelmente não possuía um esterno ossificado, o osso do peito onde se fixam os músculos das asas e facilita o voo. Ainda assim, ele voava, mesmo que de forma limitada, de uma forma bem parecida com galinhas. Isso sugere que o voo não surgiu de uma vez, pelo contrário: ele pode ter sido desenvolvido em etapas, com diferentes espécies testando soluções aerodinâmicas distintas.

Atavismo: entenda o que é e por que traços de dinossauros ainda reaparecem nas aves de hoje 

A ligação entre aves e dinossauros não está apenas nos fósseis. Ela também aparece, ocasionalmente, nos próprios animais modernos, por meio de um fenômeno chamado atavismo. Trata-se do reaparecimento de características ancestrais que estavam “desligadas” no código genético.

Há registros super raros de aves que desenvolvem estruturas semelhantes a dentes, caudas mais longas ou garras sobressalentes. Esses traços não são novidades evolutivas, mas resquícios do passado, quando essas características eram comuns entre os ancestrais dinossauros.

Isso ajuda a explicar por que a evolução das aves foi tão estranha: muitas mudanças não apagaram completamente o que veio antes. Em vez disso, antigas instruções genéticas ficaram adormecidas, prontas para reaparecer em condições específicas. É mais uma prova de que as aves modernas não deixaram de ser dinossauros, apenas se tornaram uma versão altamente “especializada” deles. Ou seja, os dinossauros não desapareceram totalmente. Eles encolheram, ganharam penas mais refinadas, perderam dentes e aprenderam a voar longas distâncias, mas continuam entre nós.


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