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Nem usinas nucleares, nem hospitais: estudo de Harvard revela que pilotos e comissários lideram mortes por câncer por radiação

Tripulações de voo apresentaram as maiores proporções de mortes por cânceres associados à radiação entre mais de 500 profissões avaliadas por pesquisadores de Harvard

Comissario De Bordo
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Natália P. Martins

Redatora

Ao falar sobre profissões expostas à radiação, é comum imaginar pessoas que trabalham em usinas nucleares, hospitais ou laboratórios. Apesar disso, um novo estudo conduzido por pesquisadores de Harvard descobriu que pilotos e comissários de bordo apresentaram as maiores proporções de mortes por cânceres relacionados à radiação entre mais de 500 profissões analisadas nos Estados Unidos

Comissários e pilotos aparecem no topo da lista

O trabalho publicado em 17 de agosto de 2026 no JAMA Internal Medicine foi liderado por Vishal R. Patel, da Harvard Medical School e do Brigham and Women’s Hospital, com participação de Anupam Jena e Michael Liu. Os pesquisadores analisaram 12.710.517 mortes registradas nos EUA entre 2020 e 2024, distribuídas em 503 ocupações. Entre elas estavam 14.190 pilotos e 7.170 comissários de bordo.  

A pesquisa encontrou taxas significativamente maiores entre pilotos e comissários para alguns tipos específicos de câncer, incluindo câncer de mama, sistema nervoso central, próstata e melanoma. Entre os pilotos, também foi observada uma taxa maior de mortes por leucemia. 

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Na análise, 6,9% das mortes entre comissários de bordo foram atribuídas a cânceres relacionados à radiação. Entre os pilotos, a proporção foi de 6,7%. Os números ficaram acima dos observados na população ocupada em geral, na qual esses cânceres representaram cerca de 5% das mortes

Os pesquisadores também descobriram que os comissários tinham aproximadamente 50% mais chances de morrer de um câncer relacionado à radiação, enquanto os pilotos tinham cerca de 36% a mais.

Os profissionais da aviação ficaram, respectivamente, em primeiro e segundo lugar entre as 503 ocupações avaliadas. Até os técnicos nucleares, que trabalham diretamente com fontes de radiação não cósmica, apareceram mais abaixo, na 12ª posição.  

Por que quem trabalha em avião recebe mais radiação?

A Terra é constantemente atingida por partículas de alta energia vindas do espaço, conhecidas como radiação cósmica. A atmosfera funciona como uma espécie de escudo natural e reduz consideravelmente a quantidade dessa radiação que chega à superfície.

Quando uma aeronave sobe para a altitude de cruzeiro (entre 9.100 e 12.400 metros acima do mar), entretanto, a camada de atmosfera acima dela é menor. Com isso, a exposição à radiação ionizante aumenta.

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A exposição também varia de acordo com a latitude da rota. Voos próximos aos polos recebem mais radiação cósmica do que aqueles realizados em regiões próximas ao equador. A duração e a frequência dos voos também influenciam a dose acumulada.

Tripulação pode receber até 15 vezes mais radiação que um passageiro frequente

Segundo estimativas citadas pelo estudo a partir de dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças), pilotos e comissários de bordo acumulam aproximadamente 3 a 6 milisieverts (mSv) de radiação cósmica por ano, dependendo das rotas que percorrem.

Para comparação, um passageiro que faz dez viagens de ida e volta entre diferentes pontos dos Estados Unidos ao longo de um ano recebe uma dose estimada de cerca de 0,4 mSv.

Ou seja, a exposição anual estimada de um profissional que passa boa parte do ano voando pode ser aproximadamente 7,5 a 15 vezes maior que a de um passageiro frequente considerado nessa comparação. 

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Estudo tentou descobrir se a radiação realmente explica o resultado

Para o estudo, os pesquisadores procuraram observar um padrão que pudesse ajudar a avaliar a hipótese de que a radiação cósmica ocupacional estivesse relacionada aos resultados. Para isso, compararam cânceres considerados relacionados à exposição à radiação com outros tipos de câncer.

Entre os primeiros estavam cânceres de mama, sistema nervoso central, tireoide e próstata, melanoma, câncer de pele, linfoma, mieloma múltiplo e determinados tipos de leucemia. O câncer de pulmão foi excluído da análise para reduzir a influência do tabagismo como fator de confusão.  

O resultado chamou atenção porque pilotos e comissários apresentaram aumento nos cânceres classificados pelos pesquisadores como relacionados à radiação. Já os cânceres não relacionados à radiação não apareceram elevados da mesma maneira.

O estudo também comparou os resultados dos comissários e pilotos com o de outros profissionais da indústria aeronáutica. Mecânicos e montadores de aeronaves, que trabalham em terra e não passam longos períodos expostos à radiação cósmica em altitude, não apresentaram o mesmo padrão.  

Esse conjunto de resultados fortalece a hipótese de que a exposição ocupacional à radiação possa ter participação no fenômeno, embora não prove que ela seja a causa dos cânceres.

Passageiros precisam se preocupar?

Não. O estudo não indica que viajar de avião ocasionalmente represente um risco relevante de câncer. Um passageiro pode fazer algumas viagens por ano, enquanto um piloto ou comissário passa parte considerável da vida profissional dentro de aeronaves, acumulando exposição durante anos ou décadas.

Os próprios autores destacam que os resultados devem ser interpretados no contexto de uma carreira na aviação, e não de uma viagem isolada ou mesmo de algumas férias por ano.  

Imagens: Shutterstock

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