Eles viveram há 160 mil anos e eram parentes do ser humano: cientistas revelam a verdadeira aparência dos denisovanos no passado

Crânios robustos e rostos achatados ajudam a reconstruir a aparência de nossos parentes pré-históricos

representação denisovanos
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Uma das linhagens humanas mais misteriosas da pré-história começa a ganhar um rosto. Pesquisadores identificaram características físicas dos denisovanos, grupo de humanos antigos que viveu na Ásia há centenas de milhares de anos e compartilhou ancestrais com os humanos modernos e os neandertais. A descoberta foi publicada na revista Nature e se baseia na análise de proteínas preservadas em fósseis encontrados em Xujiayao, no norte da China. Com pelo menos 138 mil anos, os restos revelaram traços que ajudam a reconstruir a aparência desses nossos parentes distantes. Além disso, também podem ajudar a identificar outros fósseis em que a origem ainda é motivo de debate entre cientistas.

Denisovanos eram parentes dos humanos modernos, mas permaneceram um mistério por anos

Os denisovanos fazem parte de um ramo da árvore evolutiva humana que, apesar de ter deixado marcas no DNA de populações atuais, ainda é pouco conhecido. Sua existência foi identificada em 2010, quando pesquisadores analisaram o material genético de um pequeno fragmento de dedo encontrado na Caverna Denisova, na Sibéria, e perceberam que ele pertencia a um grupo diferente dos humanos modernos e dos neandertais.

A descoberta mudou o entendimento sobre a diversidade de espécies humanas que habitaram o planeta. Os denisovanos não apenas conviveram com outros grupos de hominíneos, grupo reúne tanto os seres humanos, seus ancestrais extintos quanto os grandes macacos antropóides, como também cruzaram com eles. Parte de seu material genético, inclusive, permanece presente em populações atuais do Sudeste Asiático e da Oceania.

O problema é que encontrar fósseis atribuídos a esse grupo não tem sido uma tarefa fácil. Diferentemente dos neandertais, conhecidos por uma quantidade considerável de esqueletos e crânios, os denisovanos foram identificados inicialmente a partir de fragmentos bastante limitados. Isso dificultava estabelecer quais eram suas características físicas e como diferenciá-los de outros humanos antigos.

É por isso que os fósseis de Xujiayao ganharam tanta importância. Encontrada no norte da China entre 1976 e 1979, a coleção reúne 20 fragmentos de crânios, mandíbulas e dentes, além de restos de animais e ferramentas de pedra. Inicialmente, os pesquisadores não chegaram a um consenso sobre a classificação dos materiais, que chegaram a ser associados a uma espécie chamada Homo juluensis. Agora, a análise de proteínas antigas permitiu relacionar os fósseis à linhagem denisovana e avançar na identificação de características anatômicas compartilhadas por esses humanos.

Crânios largos, sobrancelhas robustas e rosto achatado são características atribuídas aos denisovanos

A identificação dos denisovanos sempre esbarrou em um obstáculo: a escassez de fósseis bem preservados e a dificuldade de recuperar seu material genético. Para contornar essa questão, os pesquisadores buscaram pistas em outro tipo de material que também pode resistir à passagem do tempo: as proteínas. A equipe liderada pela geneticista Qiaomei Fu, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia de Pequim, recorreu à paleoproteômica, técnica que analisa proteínas preservadas em materiais antigos. 

O método foi importante porque o DNA tende a se degradar com o passar do tempo, dificultando sua recuperação em fósseis muito antigos. Algumas proteínas, por outro lado, conseguem permanecer preservadas por períodos maiores e ainda carregam informações que ajudam a estabelecer relações evolutivas entre diferentes grupos.

Nos fósseis de Xujiayao, os pesquisadores identificaram uma alteração específica na cadeia de colágeno, chamada COL1A2-996 R>K. Essa variante funciona como um marcador molecular dos denisovanos e não foi encontrada nas amostras de humanos modernos e neandertais utilizadas na comparação. Depois da identificação molecular, a equipe comparou a anatomia dos fósseis com a de outros hominíneos do Leste Asiático. Com isso, eles conseguiram reunir algumas características que ajudam a formar uma imagem mais clara desses antigos parentes humanos. Entre os principais traços identificados estão:

representação dos denisovanos
  • Crânio baixo e largo: a parte superior da cabeça apresentava um perfil achatado e paredes laterais quase paralelas;
  • Arcada supraorbital robusta: a região óssea acima dos olhos era bastante espessa e saliente;
  • Rosto achatado: a região das maçãs do rosto e da mandíbula superior apresentava pouca projeção para a frente;
  • Prognatismo discreto: a face tinha menor projeção em comparação com outras espécies humanas antigas;
  • Calota craniana espessa: uma característica que também aparece em grupos mais antigos, como o Homo erectus.

A combinação desses traços mostra que os denisovanos reuniam características encontradas em diferentes linhagens humanas. Alguns aspectos lembram os neandertais, enquanto outros se aproximam dos humanos modernos e de espécies mais antigas. A descoberta também abre a novas possibilidades de identificação de fósseis que já foram encontrados, mas que a classificação permanece incerta. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que semelhanças anatômicas, isoladamente, não são suficientes para confirmar que todos esses materiais pertencem à mesma linhagem. Novas evidências moleculares e genéticas serão importantes para esclarecer essas relações.


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