Em 1963, os EUA lançaram cerca de 500 milhões de agulhas no espaço para vencer uma guerra; 63 anos depois, algumas continuam girando ao redor da Terra

Testemunho de um dos experimentos mais insólitos da Guerra Fria

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Bárbara Castro

Redatora

Em plena Guerra Fria, os Estados Unidos tiveram uma ideia que parecia ter saído de uma obra de ficção: rodear a Terra com centenas de milhões de agulhas de cobre para blindar suas comunicações militares contra a União Soviética. O experimento de fato funcionou, mas deixou um legado bastante inesperado. Mais de seis décadas depois, parte daquele gigantesco anel artificial continua girando ao redor do planeta.

Uma guerra travada também nas comunicações

No final dos anos 1950, Washington enfrentava um problema estratégico crucial. Suas comunicações de longa distância dependiam de cabos submarinos e da ionosfera — camada da atmosfera que reflete determinadas ondas de rádio. O problema? Os cabos podiam ser sabotados pelos soviéticos, e a ionosfera sofria frequentes interferências causadas por tempestades solares ou eventuais ações inimigas.

Em caso de conflito nuclear, perder o contato com as tropas mobilizadas pelo mundo seria catastrófico. O Pentágono precisava com urgência de um sistema confiável, que operasse mesmo que toda a infraestrutura terrestre fosse destruída.

A solução estava a 3.600 quilômetros de altitude

Em 1958, o engenheiro Walter Morrow, do Laboratório Lincoln do MIT, sugeriu erguer uma espécie de ionosfera artificial a partir de milhões de filamentos metálicos minúsculos. A proposta, batizada a princípio de Project Needles e mais tarde renomeada para Project West Ford, tinha a meta de formar um colossal refletor de rádio sem depender de cabos vulneráveis ou repetidoras terrestres.

Em vez de concentrar as transmissões em alvos fáceis na superfície, os Estados Unidos espalhariam centenas de milhões de minúsculas antenas passivas pelo espaço — impossíveis de serem neutralizadas todas de uma só vez.

Agulhas do projeto West Ford comparadas a um selo postal Agulhas do projeto West Ford comparadas a um selo postal

480 milhões de agulhas para cercar o planeta

No dia 9 de maio de 1963, os Estados Unidos lançaram uma carga com aproximadamente 480 milhões de filamentos de cobre, cada um com 1,78 centímetro de comprimento e menos de 0,02 milímetro de espessura. Pesando juntos cerca de 20 quilos, os fios estavam acondicionados em um composto criado para evaporar sob a radiação solar, liberando as peças a cerca de 3.600 quilômetros de altitude.

Ao longo de cerca de 40 dias, os filamentos se dispersaram até criar um anel ao redor da Terra. Cada agulha operava como uma minúscula antena apta a rebater sinais de micro-ondas próximos a 8 gigahertz, viabilizando o envio de mensagens entre bases em solo distantes milhares de quilômetros umas das outras.

Exibição do dispensador de dipolos Westford no Steven F. Udvar-Hazy Center Exibição do dispensador de dipolos Westford no Steven F. Udvar-Hazy Center

E a ideia funcionou

A primeira tentativa, realizada em outubro de 1961, tinha fracassado porque as agulhas não conseguiram se espalhar direito. Já a segunda missão obteve êxito ao estabelecer transmissões entre Massachusetts e a Califórnia, transportando voz, dados digitais e mensagens de teletipo. Os testes iniciais atingiram taxas de 20.000 bits por segundo, ainda que essa capacidade tenha caído gradualmente para cerca de 100 bits por segundo à medida que a nuvem se dispersava.

Após aproximadamente 50 dias, a nuvem metálica já estava rala demais para sustentar o fluxo original de dados. Washington havia comprovado que era viável transformar o espaço em uma gigantesca antena, mas também constatou que o método apresentava limitações severas.

O radiotelescópio Westford, de 18,3 metros, construído em 1961 pelo Lincoln Laboratory para o Projeto West Ford como antena de radar na banda X O radiotelescópio Westford, de 18,3 metros, construído em 1961 pelo Lincoln Laboratory para o Projeto West Ford como antena de radar na banda X

Um escândalo que foi parar na ONU

A comunidade astronômica já vinha alertando há anos que milhões de fragmentos metálicos poderiam prejudicar as observações do céu e gerar poluição orbital. Em 1961, a União Astronômica Internacional apresentou um protesto formal, e o jornal soviético Pravda acusou os norte-americanos de estarem poluindo o espaço. A crise escalou a ponto de o presidente Kennedy intervir para garantir a duração limitada do experimento, enquanto o embaixador Adlai Stevenson foi obrigado a se defender perante a ONU.

A polêmica acabou servindo de faísca para impulsionar discussões internacionais sobre a responsabilidade dos países no cosmos, debates que culminaram no histórico Tratado do Espaço Sideral de 1967.

Representação gráfica de 46 agrupamentos de agulhas do projeto West Ford confirmados em órbita no final de 2013

O problema: milhões de agulhas nunca se soltaram

Os responsáveis pelo projeto estimavam que a pressão da radiação solar alteraria gradativamente a trajetória das agulhas até forçar sua reentrada na atmosfera. Com os filamentos individuais, o cálculo funcionou: no final de 1965, o anel artificial praticamente havia sumido.

Contudo, uma análise posterior da NASA revelou que apenas entre 25% e 45% dos 480 milhões de filamentos tinham se separado como deveriam. O restante acabou aglomerado em pequenos blocos compactos, muito mais resistentes ao desgaste orbital. Os cientistas previam que a maioria cairia em menos de dez anos, mas muitos fragmentos superaram amplamente essa estimativa.

63 anos depois, os restos ainda orbitam a Terra

Um levantamento divulgado em outubro de 2026, com dados dos catálogos orbitais CelesTrak e GCAT, apontou que ainda existem entre 36 e 39 agrupamentos de agulhas catalogados em órbita, embora as duas fontes apresentem pequenas divergências. A confirmação mais consistente aponta para 23 objetos rastreados em ambos os bancos com dados orbitais atualizados.

A reentrada atmosférica mais recente registrada ocorreu em abril de 2024, passadas mais de seis décadas do lançamento original. Embora nenhuma colisão provocada por esses resíduos tenha sido confirmada, a permanência deles ilustra com clareza o desafio histórico do lixo espacial. A chegada dos satélites de comunicação ativos logo tornou o West Ford obsoleto, mas partes daquela pioneira antena cósmica continuam circulando a Terra — marco definitivo de uma das experiências mais insólitas da Guerra Fria.

Matéria traduzida de Xataka*

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