Uma cidade de areia preta que, aparentemente, não parece ser a mais bonita do mundo, mas que esconde segredos incríveis que provavelmente você não faz ideia. Guarapari, no litoral do Espírito Santo, carrega desde a década de 1960 o título de “cidade saúde” - e isso não é por acaso. Há anos o município atrai pessoas de diferentes partes do Brasil em busca de alívio para dores crônicas, problemas respiratórios e outras doenças.
A explicação está em faixas específicas das praias, onde a areia escura concentra minerais raros e níveis naturais de radioatividade. Chamadas de areias monazíticas, elas se formaram ao longo de milhões de anos e são encontradas em pouquíssimos lugares do mundo. Mas o que exatamente torna essa areia tão especial?
Durante muitos anos, os possíveis efeitos benéficos dessas areias foram associados apenas à tradição popular e ao turismo da cidade. Mas isso começou a mudar quando pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) decidiram investigar as propriedades da areia monazítica.
Após uma década de estudos, os cientistas identificaram indícios de benefícios à saúde, além de um dado impressionante: Guarapari apresenta a menor incidência de câncer de mama per capita no Espírito Santo, segundo registros do Sistema Único de Saúde (SUS).
Uma areia rara, formada pela própria natureza, que concentra minerais pesados e radiação em níveis incomuns
A areia monazítica não é uma areia comum. Considerada rara, ela se forma a partir do acúmulo natural de minerais pesados ao longo de milhões de anos e aparece em poucos lugares do mundo, como China, Índia e Austrália. No Brasil, a maior concentração está justamente no litoral do Espírito Santo, especialmente em praias de Guarapari, como Areia Preta e Meaípe.
Essas areias são compostas por elementos químicos raros, como cério, samário, fósforo, ferro e tório, um elemento naturalmente radioativo. Diferentemente do urânio, associado a riscos mais elevados, o tório presente na areia de Guarapari emite radiação em níveis baixos, resultado de um processo totalmente natural, sem qualquer interferência humana. Isso significa que a radioatividade ali encontrada não está ligada a acidentes, resíduos industriais ou ações provocadas pelo homem, mas a uma formação geológica moldada pela própria natureza ao longo de milhões de anos.
Essa singularidade fez da areia monazítica de Guarapari um objeto de interesse científico. Estudos conduzidos na Universidade Federal do Espírito Santos (Ufes) passaram a analisar a areia não apenas pela sua composição química, mas como parte de um ecossistema natural complexo. Fatores como a temperatura elevada da areia, o magnetismo natural, a ação dos ventos e a interação com o ambiente marinho contribuem para criar condições específicas de exposição, impossíveis de serem reproduzidas fora das praias. Por isso, especialistas ressaltam que os possíveis efeitos associados à areia monazítica dependem diretamente do ambiente em que ela está inserida e não se mantêm quando o material é removido do local.
Estudo indica benefícios à saúde associados à exposição natural da areia e a relação com a prevenção de doenças — inclusive o câncer
Pode soar contraditório uma relação benéfica entre radioatividade e saúde, mas essa combinação é observada na areia monazítica de algumas praias do Espírito Santo. De acordo com os pesquisadores da Ufes, a exposição ocorre de forma indireta e controlada, combinando fatores como o calor da areia, o spray de água do mar, o magnetismo natural e a liberação de gases entre os grãos, como o radônio.
A hipótese central é que baixas doses de radiação podem estimular os mecanismos de defesa do organismo, aumentando a imunidade e a resistência a determinadas doenças. Ou seja, não se trata de cura direta, mas de prevenção e fortalecimento do corpo, uma lógica que funciona como uma espécie de “treino” para o sistema imunológico.
Os números analisados chamam atenção. Segundo dados do SUS, Guarapari apresenta a menor incidência de câncer maligno de mama por 100 mil mulheres em todo o Espírito Santo: apenas dois casos. Em cidades como Colatina e Linhares, esse número ultrapassa 140 casos por 100 mil mulheres. O estudo não afirma causalidade direta, mas aponta uma associação consistente entre o ambiente local e esses índices.
Além disso, há registros de benefícios relatados por pessoas com dores crônicas, problemas respiratórios, reumatismo, artrites, nevralgias e enfermidades musculares. Para parte dos pesquisadores envolvidos, exposições curtas, cerca de 20 minutos por dia, durante algumas semanas, já seriam suficientes para que esses efeitos sejam percebidos.
Outros estudos seguem em andamento, inclusive investigações sobre o potencial da areia monazítica na prevenção do câncer de pele. Resultados preliminares em testes com animais indicaram regressão de tumores mais agressivos após contato contínuo com a areia, embora os próprios cientistas reforcem que essas descobertas ainda exigem validação em humanos.
Por isso, os especialistas são cautelosos: a areia não é milagrosa, não substitui tratamentos médicos e não deve ser retirada do ambiente natural. Seus possíveis efeitos dependem do conjunto de condições específicas do local, algo que é impossível de ser reproduzido fora dali.
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