Quando o assunto é chocolate, é quase inevitável pensar em países como a Suíça e a Bélgica, conhecidos mundialmente por produzir chocolates de alta qualidade. Mas o Brasil pode estar prestes a entrar nessa conversa por um motivo bem diferente. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas desenvolveram um tipo de mel com sabor de chocolate que funciona como adoçante natural e ainda concentra compostos benéficos à saúde.
O estudo, publicado na revista científica ACS Sustainable Chemistry & Engineering, mostrou que é possível extrair substâncias do cacau diretamente para o mel usando tecnologia ultrassônica. Como resultado, eles desenvolveram um ingrediente que combina doçura natural, sabor de chocolate e propriedades antioxidantes, além de reaproveitar partes do cacau que normalmente seriam descartadas na produção de chocolate.
Cientistas brasileiros transformaram resíduos do cacau em um novo tipo de adoçante
A ideia por trás da pesquisa nasceu de algo que normalmente é tratado como lixo na indústria do chocolate, que são as cascas da amêndoa de cacau. Durante a produção de chocolate, essa camada externa costuma ser descartada. No entanto, ela ainda contém diversos compostos bioativos importantes. Os pesquisadores da Unicamp decidiram então testar uma forma de extrair essas substâncias utilizando um ingrediente inesperado: mel de abelhas nativas brasileiras sem ferrão.
Para isso, foi utilizado um método conhecido como extração assistida por ultrassom. Uma sonda emite ondas sonoras dentro de um recipiente contendo o mel e as cascas de cacau. Essas ondas criam microbolhas que se rompem rapidamente, quebrando estruturas do material vegetal e liberando os compostos presentes nele. Entre as substâncias transferidas para o mel estão:
- Teobromina: um estimulante suave associado à saúde cardiovascular;
- Cafeína: em pequenas quantidades, que pode fornecer leve estímulo energético;
- Compostos fenólicos, antioxidantes: conhecidos por ajudar a combater o estresse oxidativo.
Dependendo da proporção utilizada na mistura, o resultado final apresenta um sabor bastante próximo ao chocolate, segundo os pesquisadores que participaram das análises sensoriais preliminares.
Tecnologia transformou cascas de cacau em um adoçante natural e sustentável
Cientistas brasileiros testaram o mel de cinco espécies de abelhas nativas brasileiras diferentes.
Um dos detalhes mais interessantes da pesquisa está no tipo de mel escolhido pelos cientistas. Ao invés do mel tradicional produzido pela abelha europeia, os cientistas testaram o mel de cinco espécies de abelhas nativas brasileiras sem ferrão, entre elas jataí, mandaçaia e mandaguari. O mel dessas abelhas possuem características que ajudam no processo de extração, como maior teor de água e menor viscosidade, o que facilita a dissolução dos compostos presentes nas cascas do cacau.
Além disso, o projeto segue princípios da química verde, uma abordagem que busca processos industriais mais sustentáveis. Nesse caso, o mel funciona como solvente natural e comestível, dispensando produtos químicos normalmente usados em processos de extração. A pesquisa também propõe uma solução para um problema comum na indústria alimentícia, que é o desperdício de subprodutos agrícolas. Ao transformar as cascas do cacau em um ingrediente de valor nutricional e comercial, a pesquisa mostra como resíduos da produção de chocolate podem ganhar uma nova utilidade por meio do reaproveitamento.
Por enquanto, o “mel sabor chocolate” ainda está em fase experimental, então Infelizmente, ainda não é possível encontrá-lo para comprar. Mas os pesquisadores trabalham em análises adicionais de sabor, estabilidade e aplicação industrial, além de registrar uma patente do processo.
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