A guerra no Irã confirma o que a Ucrânia já havia mostrado: as batalhas são vencidas muito antes de se lançar o primeiro míssil

É uma fase silenciosa, mas absolutamente crítica

Caças militares
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Na Segunda Guerra Mundial, os exércitos começaram a descobrir que interceptar um sinal de rádio podia ser tão decisivo quanto afundar um navio. Décadas depois, essa lógica se multiplicou: hoje, um conflito moderno pode envolver satélites, algoritmos que processam milhões de dados por segundo e ataques que acontecem em redes invisíveis muito antes de que apareça o primeiro avião ou o primeiro míssil no céu.

No passado, as guerras começavam com o primeiro disparo visível: uma carga de cavalaria, um bombardeio de artilharia ou o lançamento de um míssil. Mas os conflitos do século 21 mudaram radicalmente essa lógica.

Antes de que o primeiro projétil cruze o céu, já foi travada uma batalha decisiva em outro lugar muito menos visível: redes informáticas infiltradas durante anos, satélites observando movimentos, radares cegados eletronicamente e algoritmos que analisam montanhas de dados para antecipar cada movimento do inimigo. A guerra no Irã voltou a demonstrar isso. Assim como ocorreu na Ucrânia, o enfrentamento real começa muito antes de que o público veja as explosões.

Um assassinato planejado por anos

O Financial Times aponta, em uma extensa reportagem, como foi tramado o ataque que acabou com a vida do aiatolá Ali Khamenei, um dos exemplos mais extremos dessa nova forma de combater. Quando os caças israelenses lançaram suas bombas sobre o complexo da Pasteur Street, em Teerã, a operação já vinha, na realidade, sendo desenvolvida em silêncio havia anos. Israel havia hackeado grande parte das câmeras de trânsito da capital iraniana e transmitia as imagens criptografadas para servidores em seu território.

Esses dados eram combinados com algoritmos capazes de reconstruir padrões de vida: a que horas chegavam os guarda-costas, onde estacionavam seus carros, que rotas seguiam e com quais funcionários trabalhavam. Essa informação era integrada a dados de inteligência humana, interceptações de comunicações e análises de redes sociais que identificavam centros de poder dentro do sistema iraniano. O resultado era uma cadeia de produção de alvos: uma maquinaria de inteligência projetada para transformar dados em alvos militares.

Inteligência

Cegar primeiro, atacar depois

Quando chegou o momento de executar a operação, os mísseis e as bombas foram, na verdade, a última fase do plano. Antes que os caças entrassem em ação, os EUA lançaram ataques cibernéticos destinados a degradar os sistemas iranianos de comunicação e defesa aérea.

O objetivo era simples: cegar o inimigo. Radares inutilizados, redes de comando confundidas e torres de telefonia incapazes de transmitir alertas criaram um vazio temporário no qual as forças atacantes podiam se mover com vantagem. Essa lógica (tirar primeiro os olhos do adversário) já havia aparecido em conflitos anteriores, mas agora se torna uma peça central da estratégia militar moderna.

Esse combate prévio acontece no que os militares chamam de espectro eletromagnético: o domínio onde operam radares, comunicações, satélites e sistemas de navegação. Controlar esse espaço significa poder detectar ameaças antes do inimigo, guiar armas de precisão e bloquear sinais que permitem coordenar uma defesa. Perdê-lo pode ter consequências imediatas.

Sem comunicações seguras, as unidades não podem se coordenar; sem navegação por satélite, as armas guiadas perdem precisão; e sem radar, os sistemas antiaéreos deixam de ver os alvos que devem interceptar. Por isso os estrategistas militares repetem um alerta cada vez mais claro: se a batalha do espectro eletromagnético for perdida, a guerra provavelmente já estará perdida.

A lição que veio da Ucrânia

A guerra na Ucrânia foi o laboratório que demonstrou até que ponto esse combate invisível é decisivo. Ali, tanto Rússia quanto Ucrânia empregam sistemas de guerra eletrônica para bloquear drones, interferir em mísseis guiados por GPS ou inutilizar comunicações inimigas.

Em alguns momentos, armas ocidentais de precisão, como os foguetes HIMARS e as bombas JDAM, perderam parte de sua eficácia devido às interferências eletrônicas russas. O resultado foi um campo de batalha em que o controle do espectro (e não apenas o número de mísseis ou tanques) determina quem tinha vantagem.

A operação contra o Irã confirma que essa tendência não é uma anomalia ucraniana, mas sim a norma nas guerras contemporâneas. Hoje, os primeiros movimentos em um conflito geralmente não são visíveis, porque envolvem hackers infiltrando redes, satélites detectando sinais, algoritmos processando dados e sistemas eletrônicos bloqueando comunicações.

É uma fase silenciosa, mas absolutamente crítica. Somente quando essa batalha é vencida os mísseis decolam, os aviões cruzam a fronteira e as bombas caem sobre seus alvos. Quando isso acontece, porém, grande parte do resultado já está decidida. Porque, nas guerras do século 21, o combate mais importante não acontece no ar nem no solo, mas em um domínio invisível no qual enxergar antes do inimigo é tão decisivo quanto atirar primeiro.

Imagem | US Navy, Nara

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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