O desastre no Nepal não foi um terremoto, mas uma massa de gelo de 5 mil metros — e existem 47 outras com um potencial de destruição gigantesca

Inicialmente achava-se que era um terremoto, mas estudos apontam que uma geleira se deslocou

(Reprodução)
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Bárbara Castro

Redatora

A catástrofe que atingiu o Nepal parecia, a princípio, um terremoto. No entanto, análises de cientistas e imagens de satélite começam a desenhar um cenário bem diferente — e possivelmente mais perturbador: uma enorme massa de gelo e rocha se desprendeu de uma geleira a cerca de 5.000 metros de altitude e despencou por mais de um quilômetro antes de se transformar em uma avalanche capaz de desencadear uma enchente devastadora. O episódio também colocou o foco sobre um problema muito maior no Himalaia: existem 47 lagos glaciais classificados como potencialmente perigosos.

Os primeiros sinais sísmicos levaram os especialistas a pensar inicialmente em um terremoto, mas as análises posteriores apontam para algo completamente diferente. Uma seção de geleira com cerca de 600 metros de largura se desprendeu a pouco mais de 5.000 metros e caiu quase 1.200 metros em direção ao fundo do vale.

Daniel Shugar, geólogo da Universidade de Calgary que estudou as imagens de satélite, disse ao The New York Times que o local do impacto parecia como se "uma bomba tivesse explodido": a colossal energia potencial daquela massa pulverizou o gelo e o transformou, junto com rochas e água, em uma torrente extremamente violenta.

Por volta das 8h40 da manhã, os sensores registraram o movimento repentino de uma enorme massa montanha abaixo e, logo em seguida, um sinal correspondente a uma inundação. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) chegou a registrar inicialmente um terremoto de magnitude 4,4, mas posteriormente determinou que não se tratava de um sismo convencional: foi o próprio deslizamento de terra que produziu o sinal sísmico, cuja força chegou a equivaler a uma magnitude 5,2.

Cientistas apontam que se tratou de uma avalanche de gelo e rocha que, ao descer pelo vale, se transformou em uma enxurrada de água e detritos. Ao mesmo tempo, eles alertam que a quantidade extraordinária de água observada sugere que ainda pode haver outros fatores a serem descobertos.

A violência da catástrofe foi especialmente difícil de prever porque nenhuma chuva havia sido registrada na área afetada. Com isso, as populações ribeirinhas não tiveram o aviso natural que costuma acompanhar uma grande enchente. A avalanche teria bloqueado o Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi, até que a água acumulada rompeu a barreira, liberando uma onda colossal que atingiu Timure, Rasuwagadhi e, mais adiante, a bacia do Trishuli.

Em um dos momentos mais críticos, as medições hidrológicas indicaram que o nível do Trishuli subiu até nove metros em apenas trinta minutos. A enxurrada monumental deixou ao menos 165 mortos, centenas de desaparecidos e destruiu pelo menos 19 pontes, além de rodovias, usinas hidrelétricas e prédios públicos.

Os lagos glaciais se formam quando a água do degelo se acumula ao lado de uma geleira ou nas depressões deixadas por ela ao recuar. Muitos desses lagos ficam represados por morenas — diques naturais formados por rochas, sedimentos e gelo transportados pela própria geleira, que funcionam como uma barragem, mas que são infinitamente mais frágeis que uma represa artificial.

O perigo real surge quando o nível da água aumenta ou uma avalanche de gelo e rocha despenca sobre o lago: a onda gerada pode transbordar ou romper essa barreira natural e liberar de repente volumes colossais de água e detritos vale abaixo. Esse fenômeno é conhecido como GLOF (sigla em inglês para inundação por rompimento de represa de lago glacial) e pode se propagar por dezenas ou até centenas de quilômetros.

desastre no Bhote Koshi não foi provocado pelo colapso de um desses lagos — uma distinção técnica importante —, mas demonstrou o que pode acontecer quando uma massa gigantesca armazenada nas alturas do Himalaia se solta subitamente sobre corredores fluviais estreitos. O fato de uma massa colossal de gelo poder despencar em queda praticamente vertical por mais de um quilômetro torna tudo ainda mais assustador.

De fato, um inventário realizado pelo ICIMOD e pelo PNUD identificou 47 lagos glaciais potencialmente perigosos nas bacias dos rios Koshi, Gandaki e Karnali. Eles foram classificados com base em critérios como a estabilidade de suas represas naturais, o dinamismo das geleiras que os alimentam e as características do relevo. A concentração é impressionante: 42 dos 47 estão na bacia do Koshi, três na do Gandaki e dois na do Karnali.

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É aqui que um risco geológico vira um impasse internacional: apenas 21 desses 47 lagos ficam dentro do Nepal. Outros 25 estão na Região Autônoma do Tibete, sob controle chinês, e um na Índia. Isso significa que mais da metade dos lagos que ameaçam essas bacias está fora do território nepalês.

Muitos desses lagos ficam nas cabeceiras de rios que descem em direção ao Nepal no meio de desfiladeiros íngremes. Dessa forma, um rompimento em solo chinês pode enviar uma enxurrada letal contra vilarejos, estradas, postos de fronteira e hidrelétricas nepalesas antes mesmo que as autoridades locais consigam soar o alarme.

As autoridades nepalesas e o PNUD definiram quatro lagos (Thulagi, Lower Barun, Lumding Tsho e Hongu 2) como prioritários para intervenções que envolvem o escoamento artificial controlado de suas águas e a instalação de sistemas avançados de monitoramento e alerta precoce, após experiências parecidas em Tsho Rolpa e Imja Tsho. No entanto, neutralizar a ameaça dos 26 lagos situados além das fronteiras depende de outro instrumento: intercâmbio de dados e cooperação transfronteiriça, principalmente com a China, para identificar a tempo qualquer anomalia montanha acima.

E se a tragédia no vale do Bhote Koshi provou alguma coisa, é que  esses minutos fazem toda a diferença: no Himalaia, não é necessário um terremoto ou tempestades violentas para criar uma catástrofe; basta que uma imensa massa de gelo a cinco mil metros de altitude deixe o lugar onde repousou durante décadas.

Matéria traduzida de Xataka*

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