Em 2001, a Nokia conquistou nossas vidas com o 3310; em 2026, ela está se tornando uma gigante da IA

  • Suas ações acumulam uma alta de 70% em relação ao ano passado;

  • Sua tecnologia para conectar centros de dados é a sua aposta para que a Nokia volte a ganhar destaque

Em 2001, a Nokia conquistou nossas vidas com o 3310; em 2026, ela está se tornando uma gigante da IA
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Fabrício Mainenti

Redator

Este ano, a Nokia está entre as empresas "tocadas" pela febre da IA ​​e pelos gastos em infraestrutura para data centers. A cotação de suas ações acumula uma forte alta, algo que não tem relação com sua marca de celulares — que a HMD Global vem retirando do mercado aos poucos. A empresa passa por um processo de reestruturação no qual seus equipamentos de telecomunicações pretendem desempenhar um papel importante no desenvolvimento da IA.

Por que isso importa

A maioria dos vencedores do boom da IA ​​são fabricantes de chips e gigantes da computação em nuvem. Isso é evidente. Mas a Nokia demonstra que a infraestrutura de base que sustenta tudo isso também pode ser um negócio lucrativo. Em maio, a Bloomberg apontou que as ações haviam subido mais de 140% no ano, tornando a Nokia um dos ativos com melhor desempenho no índice Stoxx Europe 600 e levando-a a patamares de preço não vistos desde 2008.

Em detalhes

O negócio de redes ópticas da Nokia conecta data centers entre si e à nuvem, sendo o motor de sua recuperação. Segundo o WSJ, as atividades relacionadas a data centers já representam cerca de 30% da receita, e as vendas totais cresceram 8% no segundo trimestre. Dois movimentos impulsionaram esse cenário:

  • A aquisição da Infinera. A especialista em redes ópticas conferiu à Nokia maior peso no segmento;
  • Um novo CEO. Justin Hotard, que anteriormente liderava a unidade de data centers e IA da Intel, assumiu o cargo no ano passado.

O apoio da Nvidia também acelerou o processo; em outubro de 2025, a empresa anunciou um investimento de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,2 bilhões) para adquirir uma participação de aproximadamente 3%. O acordo incluía o trabalho em "AI-RAN", um projeto de rede móvel que incorpora o processamento de IA à própria rede. Na prática, a rede pode decidir por conta própria como compartilhar a capacidade entre os usuários, buscando maior velocidade sem a necessidade de construir novas antenas.

A Microsoft também entrou na jogada: a Nokia anunciou uma oferta de dados para operadoras de telecomunicações, criada com base no Microsoft Fabric para dar suporte à IA de agentes (agentic AI), conforme noticiado pelo Wall Street Journal.

Nas entrelinhas

A Nokia também está saindo da China. Já em agosto, relatamos que sua receita no país caiu de 2,2 bilhões de euros (cerca de R$ 13 bilhões) em 2018 para 913 milhões de euros (cerca de R$ 5,4 bilhões) em 2025; além disso, a empresa adquiriu a participação de seu sócio chinês na Nokia Shanghai Bell. Também fechou seu centro de P&D em Hangzhou, afetando cerca de 1.600 empregos.

Embora os custos impactem negativamente os números trimestrais, eles se encaixam em uma estratégia de focar nos mercados ocidentais e na cadeia de suprimentos de IA, além de competir com a Huawei e a ZTE pela próxima geração de redes (6G).

O porém

Não é que a Nokia tenha abandonado as redes móveis. Na verdade, esse negócio ainda gera pouco mais da metade da receita da empresa, como aponta o WSJ, enquanto o segmento de IA e nuvem representava apenas 8% das vendas do primeiro trimestre, segundo relatório da Bloomberg de maio. O mercado está precificando a direção que a Nokia está tomando. E essa trajetória envolve algumas incertezas:

  • Avaliação. A Bloomberg situava o índice P/L projetado (forward P/E — um indicador que determina se a ação está cara ou barata no mercado de ações com base em seu potencial de crescimento econômico) em torno de 36, mais do que o dobro dos cerca de 17 registrados no início do ano. O UBS também sustenta, em seu relatório mais recente citado pelo jornal CincoDías, que o crescimento esperado já está precificado;
  • Volatilidade. Após atingir uma máxima de 14,8 euros (cerca de R$ 87) em junho, a ação caiu cerca de 37%. Atualmente, é negociada perto dos 9 euros (cerca de R$ 53), mas o WSJ aponta que ela ainda acumula uma alta de cerca de 70% neste ano;
  • Demanda. A divisão de redes ópticas da Nokia depende da velocidade com que os data centers são construídos. O UBS alerta que propostas de regulamentação de data centers nos EUA e na Espanha, bem como os apelos para frear o desenvolvimento da IA, poderiam esfriar os gastos das grandes empresas de tecnologia;
  • Concorrência. A Ciena lidera o mercado global de redes ópticas, com a Nokia logo atrás. Conforme noticiado pelo CincoDías, o Deutsche Bank indicou aos seus clientes que os fornecedores capazes de atender hiperescaladores como Amazon, Microsoft e Google estão ganhando participação de mercado, e avalia que a Nokia está mais bem posicionada do que a Ciena.

Há certa divergência entre os analistas sobre quanto potencial de crescimento ainda resta para a Nokia. Por enquanto, a empresa recuperou a atenção dos investidores, mas agora é preciso que sua tecnologia inovadora para conectar data centers se traduza efetivamente em receitas.

Imagem de capa | Nokia

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