Por que a Kawasaki continua ignorando a MotoGP e agora nem sequer demonstra interesse nas Superbikes?

A Kawasaki abandonou a MotoGP depois de gastar milhões e descobrir que isso não estava ajudando nas vendas nem nas vitórias

Imagens | Kawasaki
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Fabrício Mainenti

Redator

Dizer Honda, Yamaha ou mesmo Ducati evoca imagens da MotoGP há anos. Mas... Kawasaki? Ela tem uma certa ligação com o campeonato mundial, pois participou e fracassou espetacularmente. Superbikes é uma história diferente, onde dominou com mão de ferro, conquistando títulos e até mesmo estabelecendo recordes.

Mas há uma pergunta que continua a rondar a mente de todos os fãs: como é possível que uma marca como essa não esteja na MotoGP? A resposta não é simples, mas é lógica.

A história de um fracasso: Kawasaki e MotoGP

Embora muitos se esqueçam ou simplesmente desconheçam, a Kawasaki de fato esteve na MotoGP. Não foi uma participação isolada, mas um projeto sério que durou cinco temporadas completas, entre 2003 e 2008, após uma entrada inicial como convidada em 2002. O problema é que sua trajetória na categoria principal nunca decolou... ou funcionou.

Para entender isso, precisamos olhar para o passado: a Kawasaki já competia há décadas e, desde o final dos anos 1960, estava presente no Campeonato Mundial. Nos anos 1970, conseguiu se consolidar como uma marca competitiva nas categorias intermediárias.

Sua filosofia era a de motocicletas potentes e agressivas, capazes de dominar, mesmo que nem sempre fossem as mais refinadas. Qualquer pessoa que teve uma Ninja homologada para as ruas naquela época sabe disso.

Esse DNA os impulsionou a dar o salto para a MotoGP quando o campeonato entrou em uma nova era. A transição das 500cc dois tempos para as 990cc quatro tempos no início dos anos 2000 abriu as portas para novos fabricantes, e a Kawasaki decidiu que aquele era o momento perfeito.

O problema era que simplesmente chegar não bastava. Sua moto de MotoGP, a ZX-RR, tinha potência de sobra, mas sofria com problemas estruturais significativos. O chassi não estava à altura, a eletrônica estava defasada e o conjunto todo era difícil de pilotar. Num campeonato onde cada detalhe conta, isso se traduziu em resultados modestos e presença constante no fundo do grid.

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Houve alguns lampejos de esperança, especialmente em 2006 com Shinya Nakano, que conseguiu algumas performances excepcionais e uma pole position em Assen. Mas foi mais uma exceção do que uma tendência, porque assim que a MotoGP mudou o regulamento novamente em 2007 (passando para 800cc), a Kawasaki ficou para trás mais uma vez. E em 2008, tudo desmoronou.

A temporada de 2008 foi o golpe final. Nenhum pódio, uma moto difícil de pilotar e resultados muito aquém dos das equipes de ponta; o projeto estava mortalmente ferido, e o que o selou de vez foi o contexto global: a crise financeira.

E, claro, com tudo isso em jogo, a questão era se valia a pena gastar 50-60 milhões de euros (entre R$ 300,5 milhões e R$ 360,6 milhões) por ano. Se eles ainda estivessem vencendo, como a Honda ou a Yamaha... Mas se não estivessem vencendo, não, não valia a pena.

Parte do problema era técnico

A ZX-RR nunca foi uma moto completa, simples assim. Tinha velocidade em linha reta, mas era difícil de controlar nas curvas; o chassi não inspirava a confiança necessária e a eletrônica, fundamental na MotoGP moderna, não estava à altura das rivais. E sem tudo isso combinado, uma motocicleta não vale nada.

Mesmo assim, não foi um projeto inútil. Muitas das soluções que a Kawasaki testou na MotoGP acabaram sendo transferidas para suas motos de produção e, principalmente, para o programa de Superbike. De certa forma, a MotoGP foi um laboratório caro… mas útil.

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Então surgiu a oportunidade nas Superbikes, uma reviravolta radical para a empresa de Akashi. Enquanto na MotoGP a Kawasaki lutava para justificar o investimento, nas Superbikes encontrou justamente o oposto: resultados, visibilidade e, acima de tudo, um impacto direto nas vendas, que é, em última análise, o que todo fabricante busca.

A ZX-10R venceu, e de forma bastante expressiva. Mas o mais importante é que essa imagem se traduziu em algo tangível: dinheiro, motos vendidas. A diferença é estrutural. No MotoGP, competem protótipos que não têm equivalente nas ruas. São máquinas extremas, tecnologicamente fascinantes, mas desconectadas do produto que o cliente compra.

Não em Superbikes. Lá, as motos são derivadas diretamente de modelos de produção; o que vence no domingo é muito semelhante ao que você pode ter na sua garagem na segunda-feira. E isso, do ponto de vista do marketing, valeu ouro para eles.

Por que a Kawasaki continua ignorando o MotoGP… E agora nem sequer compete mais como equipe no WSBK

A Kawasaki deixou claro há anos que o MotoGP não faz mais parte de seus planos, mesmo quando a Dorna pede que voltem. O motivo continua o mesmo: um investimento gigantesco sem retorno claro. Em um campeonato onde dezenas de milhões são gastos no desenvolvimento de protótipos que não têm equivalente nas ruas, a marca japonesa nunca viu sentido em retornar.

Mas o que é realmente interessante é que essa forma de pensar não se limita ao MotoGP. Ela também chegou ao Superbike, o campeonato onde a Kawasaki dominou por anos e onde encontrou uma conexão direta com suas motos de produção… Bem, agora não encontra mais.

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A partir de 2025, a Kawasaki Racing Team deixará de existir como tal. A equipe oficial passará a competir sob o nome Bimota by Kawasaki Racing Team, como parte de uma estratégia na qual a marca japonesa se afasta da linha de frente como fabricante de destaque, o que é surpreendente considerando que é a marca com o maior número de campeonatos mundiais na categoria.

Isso não significa que eles estão indo embora… Mais ou menos. A Kawasaki ainda está presente, contribuindo com motores, tecnologia e toda a sua experiência (que, como vimos, é considerável), mas seu papel está mudando: de protagonista absoluta a parceira técnica, cedendo os holofotes para a Bimota, uma marca que agora faz parte de sua própria estrutura industrial desde que a empresa japonesa adquiriu uma participação majoritária em 2019.

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Em última análise, isso se encaixa na mesma ideia que os distanciou da MotoGP: competir, sim, mas apenas quando fizer sentido. E agora, para a Kawasaki, isso significa estar presente… Mas sem a exposição que tinha antes, porque não ganha mais campeonatos mundiais como antigamente, nem vende motos como antes. Isso é causa ou consequência? Talvez um pouco de ambos.

Há outra maneira de ver isso: as motos esportivas não são mais o que eram; nem vendem como antes. Numa era de regulamentação máxima, tanto em termos de segurança rodoviária como de impacto ambiental, as motos esportivas deixaram de ser o foco das vendas, nem a principal atração onde podem ser exibidas, a ponto de o marketing simplesmente não ser tão eficaz.

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