Descobertas inusitadas: o lúpulo que sobra da produção de cerveja é um excelente protetor solar

Onde você vê um resíduo, o Brasil encontrou um ótimo cosmético

Lúpulo e protetor solar
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Nos protetores solares, a maioria dos ingredientes que bloqueiam o Sol é sintética. O problema é que os filtros UV químicos que tornam os protetores eficazes são desreguladores endócrinos, podem penetrar na pele e são tóxicos para os recifes de coral. Por isso, a indústria vem há anos buscando alternativas sustentáveis que ofereçam essa proteção minimizando o impacto ambiental.

Uma equipe de pesquisa da Universidade de São Paulo encontrou uma alternativa natural que, de outra forma, acabaria no lixo: os restos de lúpulo descartados após a fabricação de cerveja.

A equipe partiu de restos de lúpulo de uma cervejaria artesanal, mergulhou-os em álcool etílico para extrair seus compostos, secou o resultado e o incorporou a 10% em um protetor solar padrão que já continha dois filtros UV convencionais. Em seguida, mediram quanta radiação ultravioleta essa formulação conseguia bloquear usando equipamentos de referência internacional — os mesmos utilizados por autoridades sanitárias para certificar protetores solares.

Os cientistas observaram que o protetor solar resultante multiplicou seu fator de proteção por mais de três: passou de 53 para 178 nos testes de laboratório. Curiosamente, esse lúpulo usado funcionou melhor do que o lúpulo não utilizado, embora os autores admitam que o mecanismo exato por trás disso ainda não esteja claro.

Esse resíduo  de lúpulo, gerado em grande escala, pode servir para melhorar significativamente a proteção solar. 

A parte química

Aproximadamente 85% dos compostos bioativos do lúpulo permanecem intactos no material descartado após o dry-hopping (lupulagem a frio), o que transforma esse resíduo em uma matéria-prima funcional que hoje, em grande parte, é descartada ou usada como ração. Reutilizá-lo como ingrediente cosmético reduz o impacto ambiental da indústria cervejeira, abre caminho para protetores solares mais sustentáveis (e potencialmente mais baratos) e se encaixa diretamente nos princípios da economia circular.

O lúpulo contém uma família de compostos com propriedades comprovadas para a pele: reduzem a inflamação, neutralizam radicais livres e até inibem enzimas que degradam o colágeno. Especialmente relevante é o xanthohumol, um polifenol com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e inibidoras de metaloproteinases em fibroblastos dérmicos. A chave está em como o lúpulo é processado: quando é adicionado a frio após a fermentação, sem fervura, o xanthohumol não se degrada termicamente e permanece intacto no resíduo, o que explica em parte por que o material reutilizado é mais ativo do que o lúpulo fresco.

Não é conclusivo

Como o próprio grupo de pesquisa reconhece, todos os resultados são exclusivamente in vitro, já que utilizaram placas e não pele humana. Além disso, não há ensaios clínicos que avaliem se o produto se mantém estável ao longo do tempo nem se pode causar irritações. Também não está claro por que ele funciona tão bem.

Como destaca o próprio coordenador André Rolim Baby em nota da Agência FAPESP, antes de qualquer aplicação comercial, serão necessários estudos de estabilidade, padronização dos ativos e avaliação clínica de segurança e eficácia. Por outro lado, a variabilidade na composição do lúpulo reutilizado (que depende da variedade, do processo de dry-hopping e de sua origem) dificulta a padronização: para que um filtro seja aprovado por autoridades como a Comissão Europeia (Regulamento CE 1223/2009) ou a FDA nos Estados Unidos, é necessário haver consistência química entre os lotes.

Imagem | Onela Ymeri e Urban Gyllström (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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