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Os trens mais importantes da China não viajam a 300 km/h: viajam a 40 km/h, ligam aldeias e transportam galinhas como passageiros

  • O país mantém uma rede de cerca de 81 linhas ferroviárias com um propósito social: garantir que aldeias remotas não fiquem isoladas do resto do país;

  • A passagem de trem mais barata custa o equivalente a 25 cêntimos de euro, e as tarifas não sofreram reajustes há décadas

Imagem de capa | Wikimedia Commons e People's Daily
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Fabrício Mainenti

Redator

Já falamos inúmeras vezes sobre a enorme infraestrutura ferroviária da China, com sua vasta rede de trens de alta velocidade servindo este país colossal. Mas, além dessa demonstração tecnológica, a China também opera outra rede de trens que viajam a menos de 40 km/h, custam menos que uma xícara de café e não tiveram aumento de preço em décadas.

E não, eles não são relíquias do passado que ninguém se preocupou em desmontar. Eles são perfeitamente funcionais e prestam um serviço vital ao país.

O que são exatamente?

São oficialmente conhecidos como trens de assistência social, embora muitas pessoas se refiram a eles como "trens lentos para os pobres". O governo chinês mantém 81 dessas rotas em todo o país, todas herdadas da era Mao (Mao Tsé-Tung, que governou a República Popular da China de 1949 até sua morte em 1976) e preservadas como um serviço social.

Imagem de capa | Wikimedia Commons e People's Daily

As cores

Segundo o Marketplace, esses trens, pintados de verde militar com uma faixa amarela (a imagem clássica das ferrovias chinesas pré-modernização), param em todas as estações ao longo do percurso, incluindo pequenas aldeias remotas que não têm ligação com o mundo exterior por nenhum outro meio de transporte. Os preços são tão baixos que o próprio trem tem uma placa pintada na lateral que o identifica como um "trem lento para o combate à pobreza".

Quão baratos eles são?

Por exemplo, a tarifa mínima para o trem que percorre 376 quilômetros entre as províncias de Sichuan e Yunnan é de 2 yuans, o equivalente a cerca de R$ 1,4. A tarifa máxima, para toda a viagem de mais de 11 horas, é de 25,5 yuans (menos de R$ 20). De acordo com o People's Daily, esse preço não mudou em mais de 30 anos.

Para que eles servem realmente

O fato é que esses trens não transportam apenas passageiros; eles representam uma infraestrutura econômica, de saúde e educacional para comunidades que, de outra forma, estariam isoladas. O People's Daily relata como alguns vagões de trem incorporam painéis com preços de produtos agrícolas para facilitar o comércio entre agricultores e compradores urbanos.

Em vários trens, fileiras de assentos foram removidas para que os agricultores possam embarcar com seus produtos (verduras, galinhas, materiais de construção, etc.) sem restrições.

Como relata a agência de notícias Xinhua, esses trens são como uma artéria móvel que leva os moradores das aldeias ao mercado, transporta animais e permite que as crianças frequentem a escola em cidades próximas.

Um barômetro social

Axi Aga trabalha no trem 5633 desde 1996. Ela começou como atendente de bordo quando os passageiros embarcavam carregando batatas, fubá e nabos, e mal tinham dinheiro para comprar macarrão instantâneo durante a viagem. Em 2020, ela explicou ao site do Conselho de Estado da China (SCIO) que agora vê passageiros embarcando preocupados com suas roupas, usando trajes tradicionais em feriados e gravando vídeos para as redes sociais.

"O trem é como uma vila móvel, onde testemunhei as mudanças que ele trouxe para as pessoas nos últimos 25 anos", disse ela à publicação.

Segundo Aga, antes, as meninas eram raras entre os estudantes. Hoje, elas representam dois terços do corpo discente que utiliza o trem.

Imagem de capa | Wikimedia Commons e People's Daily

Além do transporte

Nas últimas décadas, essas rotas evoluíram para algo mais parecido com uma plataforma de serviços. De acordo com People's Daily, alguns trens no norte do país agora possuem estantes de livros, mesas de estudo com tomadas e material escolar para as crianças que fazem a lição de casa durante a viagem, com condutores para ajudá-las durante os intervalos.

Eles também oferecem garrafas de água quente, bolsas térmicas e carregadores portáteis. No inverno, os vagões são mantidos a 20 graus Celsius para proteger os passageiros do frio intenso. Além disso, ao longo do tempo, incorporaram ar-condicionado e melhorias progressivas, sem abandonar sua missão de serviço público.

Por que o governo os mantém em operação com prejuízo?

Eles são mais uma estratégia de política social do que comercial. Essas rotas dão prejuízo porque as tarifas não cobrem os custos operacionais, e o Estado as subsidia diretamente. A decisão de mantê-las é simplesmente uma questão de coesão territorial — garantindo que as áreas mais remotas e empobrecidas do país não fiquem isoladas do resto da China.

O Global Times destaca que essas rotas operam há mais de 60 anos e que a companhia ferroviária nacional as considera uma medida estrutural de combate à pobreza, e não um serviço residual.

Imagem de capa | Wikimedia Commons e People's Daily


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