Mais uma história do Japão: o segredo comovente por trás do trem que viajava todos os dias para buscar uma única pessoa

Uma estação ferroviária sem viabilidade econômica foi mantida em funcionamento para uma aluna

Estação ferroviária  Kami-Shirataki. Créditos: Wikimedia Commons
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

603 publicaciones de Laura Vieira

O Japão possui uma cultura profundamente enraizada na preocupação com o coletivo, na harmonia social e no respeito ao próximo. Esses valores, presentes no cotidiano e nas políticas públicas do país, ajudam a explicar uma decisão que parece contrariar a lógica econômica atual. Embora a história seja antiga, ela segue surpreendendo pelo caráter empático.

O episódio ocorreu na ilha de Hokkaido, em 2016, quando veio à tona que trens continuavam parando diariamente em uma estação quase abandonada apenas para garantir que uma estudante do ensino médio pudesse ir e voltar da escola. A escolha não se baseava em demanda, lucro ou eficiência operacional, mas em uma decisão deliberada de política pública e infraestrutura: preservar o acesso à educação de quem dependia daquele serviço.

Uma estação sem passageiros é mantida aberta para garantir acesso à educação a uma única aluna

No início da década de 2010, a Japan Railways, principal grupo ferroviário do Japão, já havia decidido encerrar as atividades de pequenas estações rurais no norte do país. O número de passageiros diminuiu drasticamente e os serviços de carga haviam sido suspensos, por isso, manter estações isoladas parecia economicamente injustificável. Entre essas estações estavam Kami-Shirataki, Kyu-Shirataki e Shimo-Shirataki, localizadas em áreas remotas de Hokkaido, a cerca de 1.300 quilômetros de Tóquio. 

A decisão mudou quando a operadora identificou que estudantes ainda dependiam da linha. Em especial uma adolescente do ensino médio, Kana Harada. Para ela, a estação era fundamental para que chegasse até a escola. Sem o trem, o trajeto envolveria caminhar por mais de uma hora até uma outra estação que a levasse até a escola.  

Diante disso, a empresa decidiu manter a estação em funcionamento, ajustando os horários dos trens aos horários escolares. Em alguns dias, apenas dois trens paravam ali: um pela manhã, para levá-la às aulas, e outro à tarde, para trazê-la de volta. A estação seguia aberta não por demanda, mas por necessidade.

Estação seguiu em funcionamento por anos para garantir o acesso de uma aluna à escola

Mesmo com a estação ativa, a logística era restritiva. Poucos trens circulavam por dia, o que impedia a estudante de participar de atividades extracurriculares e exigia uma rotina rígida. Em algumas ocasiões, ela precisava sair correndo da sala de aula para não perder o último trem da noite.

Ainda assim, a alternativa seria pior. A estação representava acesso à educação, algo que o governo japonês optou por preservar até o fim do ciclo escolar da jovem. Em março de 2016, com a conclusão do ano letivo e a formatura da estudante, a estação foi finalmente fechada.

Na época, a história acabou se destacando nas redes sociais e foi celebrada como exemplo de governança sensível e centrada nas pessoas. Mas também houve controvérsias na história. Relatos posteriores indicaram que a estudante não era, necessariamente, a única jovem a usar a linha ferroviária da região e que outros alunos embarcavam em estações próximas, com horários semelhantes. Mesmo assim, uma estação pouco utilizada foi mantida em funcionamento para evitar que estudantes tivessem o acesso à escola interrompido.

Inicio