Estamos testemunhando uma grande transformação na indústria automotiva, impulsionada principalmente pela crescente presença da China em mercados cada vez mais globais e por uma transição para veículos elétricos que ainda parece estar enfrentando dificuldades.
A indústria automotiva tradicional está em uma encruzilhada crítica, e o presidente da Honda percebeu isso claramente durante uma visita a uma fábrica de fornecedores em Xangai.
A surpresa
No final de fevereiro, Toshihiro Mibe, presidente da Honda, visitou as instalações de um importante fabricante chinês de componentes em Xangai. O que ele encontrou foi uma fábrica totalmente automatizada, sem operadores na linha de produção, capaz de fornecer peças tanto para a Tesla quanto para fabricantes locais, minimizando custos de mão de obra e operando continuamente.
"Não temos chance contra isso", disse Mibe ao sair, segundo declarações divulgadas pelo Nikkei Asia. Certamente, não é o tipo de declaração que se esperaria do chefe de uma das marcas automotivas mais tradicionais do mundo.
Por que isso importa
A Honda não é um caso isolado. É o sintoma mais recente de uma indústria que observa a China com preocupação há anos. Os fabricantes chineses conseguiram reduzir o tempo de desenvolvimento de um novo modelo para entre 18 e 24 meses, aproximadamente metade do tempo necessário para os japoneses ou europeus.
E não se trata apenas de velocidade: trata-se também de custo, automação e software. Essa mudança está impactando a indústria automotiva tradicional e não é fácil de replicar.
Números
Em 2020, a Honda vendeu 1,62 milhão de veículos na China. Em 2025, esse número caiu para 640 mil unidades, uma queda de 24% apenas no último ano e o quinto ano consecutivo de declínio, segundo dados publicados pelo veículo de comunicação. Suas fábricas no país estão operando com 50% a 60% da capacidade, bem abaixo dos 70% a 80% necessários para serem lucrativas.
A projeção para 2026 é de uma produção inferior a 600 mil unidades. "É um plano extremamente decepcionante", disse um executivo de um fornecedor chinês ao Nikkei Asia. “Mas isso também não me surpreende”, continuou ele.
A Honda não está sozinha nessa situação
Jim Farley, CEO da Ford, alertou em uma entrevista ao programa CBS Sunday Morning em outubro passado que a China tem capacidade de produção suficiente para “abastecer todo o mercado norte-americano e nos tirar do mercado”. “A menos que as coisas mudem, não sobreviveremos”, disse Koji Sato, então presidente da Toyota. E vindo da Toyota, que é essencialmente a maior montadora do mundo, isso diz muito.
Voltando ao passado para avançar rumo ao futuro
A resposta da Honda envolve ressuscitar sua divisão de P&D como uma entidade autônoma, algo que existia desde 1960 e foi desmantelado em 2020 em favor de uma gestão centralizada. Essa estrutura independente foi a que, em 1972, desenvolveu o motor CVCC de baixa emissão (o primeiro a atender às regulamentações dos EUA) e transformou o Civic original em um sucesso global.
Agora, milhares de engenheiros estão retornando a uma subsidiária com maior liberdade operacional. “Há cinco ou seis anos, era aceitável que a sede assumisse o controle”, disse um executivo da Honda ao Nikkei Asia. “Mas agora o mundo mudou drasticamente”, continuou.
Persistem as dúvidas
A mudança não convenceu a todos. Takaki Nakanishi, analista-chefe do Nakanishi Research Institute, disse à publicação que “é duvidoso que a simples restauração da estrutura organizacional vá mudar alguma coisa”. A própria equipe de gestão da Honda admite que restaurar a estrutura não garante a vitória contra a China. “Mas isso não significa que vamos hastear a bandeira branca”, acrescentou um executivo da empresa, segundo o Nikkei Asia.
Enquanto isso, a Honda está cancelando dois de seus veículos elétricos planejados para o mercado americano, o SUV 0 e o sedã 0, e admite prejuízos de até US$ 15,8 bilhões (cerca de R$ 81,5 bilhões). Os dois veículos da marca Afeela, projeto conjunto com a Sony, também estão em situação incerta.
A aposta alternativa: Índia
Enquanto a Toyota e a Nissan optam por fazer parcerias com empresas chinesas para aprender com a sua velocidade e lançar carros elétricos acessíveis, a Honda adota uma abordagem diferente. A marca aposta na Índia como base de produção para a sua próxima geração de veículos elétricos.
O Alpha, o seu modelo global estratégico de veículo elétrico, previsto para 2027, será produzido lá. Em meados de março, a subsidiária indiana partilhou imagens do Alpha em testes de estrada, descrevendo o momento como “um novo marco na jornada de eletrificação da Honda”.
Desequilíbrio
O setor automóvel está a passar por uma das suas transformações mais profundas. A China deixou de ser apenas um mercado e tornou-se o principal concorrente global, com marcas como a BYD a atingirem já uma quota de mercado de 1,8% na Europa nos dois primeiros meses de 2026, de acordo com dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA). A Honda, com apenas 0,5% no mesmo período, ilustra perfeitamente este desequilíbrio.
Imagem de capa | Honda
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