A Ucrânia voltou a colocar o alarme nuclear no centro do conflito europeu, após denunciar que a Rússia está atacando deliberadamente subestações elétricas que alimentam as usinas nucleares de Khmelnytsky e Rivne. Segundo o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha, os ataques com drones não são incidentes isolados, mas operações planejadas para colocar em risco a segurança nuclear continental.
Acontece que drones estão chegando a usinas europeias.
Ofensiva
No início de novembro, Moscou lançou mais de 450 drones e 45 mísseis contra diversas regiões da Ucrânia, causando pelo menos sete mortes e danos a infraestruturas críticas. Em Dnipro, um drone atingiu um prédio residencial, matando três pessoas, enquanto outros ataques ocorreram em Kharkiv e Zaporizhzhia.
Kiev acusa a Rússia de instrumentalizar o risco atômico como arma psicológica e de tentar provocar um acidente em usinas que ainda dependem de fornecimento externo de energia elétrica para evitar o colapso do sistema de refrigeração.
Paralelamente, Moscou avança com sua própria agenda nuclear: o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, confirmou que o Kremlin está trabalhando em propostas para um possível teste nuclear por ordem direta de Vladimir Putin, uma resposta à recente declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, de que Washington poderia retomar seus próprios testes.
A tensão atômica entre as duas potências, exacerbada pela guerra na Ucrânia, mergulhou a Europa em um cenário de vulnerabilidade sem precedentes desde a Guerra Fria.
O epicentro da ameaça
Enquanto a Ucrânia tenta conter a ofensiva russa em seu próprio território, a Europa Ocidental começa a sentir os ecos de uma guerra híbrida que se expande para além da linha de frente. Na Bélgica, um dos países com maior densidade de infraestrutura crítica do continente, registrou-se uma onda de ataques com drones sobre instalações estratégicas.
O incidente mais alarmante ocorreu na usina nuclear de Doel, localizada próxima ao porto de Antuérpia, quando três drones foram inicialmente detectados ao anoitecer de 9 de novembro, sendo posteriormente confirmados como cinco dispositivos diferentes sobrevoando o complexo por quase uma hora. A empresa de energia Engie, responsável pela gestão da usina, garantiu que as operações não foram afetadas, mas as autoridades acionaram o Centro Nacional de Crise e reforçaram a segurança na área.
Usina nuclear belga perto de Doel
Horas antes, o tráfego aéreo no aeroporto de Liège havia sido brevemente suspenso após múltiplos relatos de drones, e nos dias anteriores, tanto o aeroporto de Bruxelas quanto a base aérea de Kleine Brogel (onde armas nucleares da OTAN são armazenadas) foram alvo de avistamentos semelhantes.
Pesquisas apontam para um padrão coordenado que afeta vários países do norte da Europa, incluindo Alemanha, Dinamarca e Holanda, onde intrusões aéreas não identificadas também foram relatadas.
Suspeitas de espionagem
O Ministro da Defesa belga, Theo Francken, relacionou os avistamentos a possíveis operações de espionagem estrangeira e apontou a Rússia como a suspeita mais plausível, embora sem provas conclusivas. Os serviços de inteligência do país consideram que os drones podem fazer parte de uma estratégia de reconhecimento destinada a avaliar a capacidade de resposta europeia a ataques combinados contra infraestruturas críticas.
O acúmulo de incidentes levou o governo belga a convocar um Conselho de Segurança Nacional, após o qual o Ministro do Interior, Bernard Quintin, assegurou que a situação estava “sob controle”, embora tenha reconhecido a gravidade dos ataques. O Reino Unido, a França e a Alemanha anunciaram o envio de pessoal e equipamentos especializados para auxiliar a Bélgica na detecção e neutralização de drones hostis, um gesto que destaca o medo compartilhado de que a fronteira entre a guerra visível e a guerra secreta esteja se tornando perigosamente tênue.
Ucrânia como teste
Diante dessa nova dimensão do conflito, a Ucrânia se posicionou como peça chave na resposta tecnológica. O presidente Volodymyr Zelensky anunciou a futura abertura de escritórios de produção de defesa em Berlim e Copenhague até o final do ano, com o objetivo de fortalecer a cooperação industrial em drones e armas eletrônicas.
Segundo ele, esses “capitais de exportação” financiarão a produção nacional de equipamentos escassos e ajudarão os aliados europeus a construir seus próprios sistemas de defesa. Kiev, que fez do uso de drones um dos pilares de suas forças armadas, está investindo fortemente nessa área.
A estratégia agora oferece sua experiência a países que começam a sofrer em primeira mão os efeitos da guerra híbrida russa.
Paralelamente, a criatividade ucraniana no campo da defesa improvisada se reflete até mesmo em soluções inusitadas: antigas redes de pesca francesas, feitas de crina de cavalo, estão sendo reutilizadas para criar túneis onde as hélices dos drones russos ficam presas.
Na guerra contemporânea, a tecnologia se cruza com o artesanato, e a engenhosidade se tornou uma forma de sobrevivência nacional.
Vulnerabilidade nuclear
Os incidentes na Bélgica e na Ucrânia revelam a mesma constante: a infraestrutura nuclear europeia (usina, fiação, energia, logística) tornou-se alvo simbólico e estratégico. Ataques a subestações ucranianas que alimentam usinas e drones que sobrevoam reatores belgas expõem a fragilidade de um continente que depende de sistemas complexos, onde qualquer sabotagem pode multiplicar seus efeitos.
A ameaça não vem mais apenas de mísseis, mas de enxames invisíveis de drones, de desinformação, de engenharia política e tecnológica que mina a estabilidade por dentro. A Rússia, confrontada com o isolamento e com uma indústria militar ainda poderosa, parece disposta a usar essa assimetria como instrumento de pressão prolongada. A resposta europeia, ainda fragmentada, começa a articular-se entre cooperação militar, inovação tecnológica e defesa civil.
Além disso, a lição deixada por essa sequência de ataques e suspeitas parece clara. Na Europa de 2025, a fronteira entre segurança energética e segurança militar estará tênue, e o futuro da estabilidade continental poderá depender menos do tamanho dos exércitos do que da rapidez com que um drone é detectado por radar antes de atingir uma usina nuclear.
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