O deserto mais seco da Terra está coberto de flores silvestres neste momento

Chuvas excepcionais provocadas pelo El Niño fizeram milhões de sementes adormecidas germinarem no Deserto do Atacama, no Chile, criando uma das florações mais intensas das últimas décadas

Desierto Florido
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O Deserto do Atacama, no Chile, é conhecido por ser o deserto não polar mais seco do planeta, mas sua paisagem ganhou cores que parecem improváveis para uma região tão árida. Neste ano, chuvas excepcionalmente intensas permitiram que milhões de sementes e bulbos voltassem à vida, cobrindo cerca de 17 mil km² com flores silvestres. 

O fenômeno, conhecido como Desierto Florido, reúne mais de 200 espécies de plantas e pode ser o mais intenso desde 1997. Por trás desse espetáculo está o El Niño, que contribuiu para volumes de precipitação muito acima do habitual na região. Algumas dessas plantas, inclusive, voltaram a florescer depois de permanecerem adormecidas no solo por décadas.

Chuvas extraordinárias transformaram a paisagem do Atacama

A imagem de um deserto coberto por flores parece contradizer tudo o que sabemos sobre ambientes áridos. No Atacama, porém, esse fenômeno tem uma explicação: embora a região receba pouquíssima chuva na maior parte do tempo, parte de sua vegetação consegue sobreviver em estado de dormência, esperando condições favoráveis para crescer.

Foi o que aconteceu neste ano. Entre julho e agosto, o Chile registrou chuvas recordes em diversas regiões, com volumes que chegaram a 160, 180 e até 190 milímetros em alguns pontos. Segundo especialistas da Corporação Nacional Florestal do Chile (Conaf), esses números estão entre os mais expressivos desde o início dos registros de precipitação, na década de 1950.

O El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial e a mudanças nos padrões de chuva e temperatura, foi apontado como um dos fatores por trás dessa transformação. As precipitações intensas provocaram inundações e estragos em diferentes partes do país, mas também criaram condições para uma transformação incomum envolvendo as flores. Com a água disponível, o chamado germoplasma do deserto foi ativado. O termo abrange o material biológico capaz de dar origem a novas formas de vida, incluindo sementes, bulbos e tubérculos de plantas. 

Algumas sementes permaneceram adormecidas por 30 ou 40 anos, segundo pesquisadores da região. Quando a umidade finalmente atingiu níveis favoráveis, elas puderam germinar e florescer. O resultado foi uma extensa cobertura vegetal em áreas que, durante muitos anos, permaneceram praticamente sem flores.

Mais de 200 espécies formam um espetáculo que atrai turistas

deserto florido

A transformação do Atacama não se resume a algumas flores isoladas em meio às pedras. A floração se espalhou por colinas, planícies e ravinas, formando um mosaico de cores que inclui espécies com pétalas vermelhas, amarelas, roxas, brancas e laranjas. Entre as plantas que podem ser encontradas estão as nanucas, as beldroegas, os suspiros, os terciopelos e a garra de leão, uma das espécies nativas mais emblemáticas do deserto. Ao todo, são mais de 200 espécies de plantas envolvidas no fenômeno, que transforma temporariamente a aparência de uma das regiões mais áridas do mundo.

A extensão da floração também impressiona. A cobertura estimada neste ano chega a aproximadamente 17 mil km², uma área comparável à da Região Metropolitana de Santiago, a maior e mais populosa do Chile. De acordo com as projeções da Conaf, o episódio deve superar outras florações recentes em intensidade e extensão, com o evento de 1997 como principal referência histórica.

A paisagem incomum também virou atração turística. Visitantes chilenos e estrangeiros têm viajado até as áreas mais remotas do Atacama para observar as flores, e a Secretaria Nacional de Turismo do país estima cerca de 300 mil viagens com pernoite na região até novembro, quando o fenômeno deve chegar ao fim. 

O espetáculo, no entanto, depende de condições ambientais específicas e não acontece com a mesma intensidade todos os anos.  A vegetação precisa de chuva suficiente para despertar, mas a maior parte do deserto continua sujeita a um clima extremamente seco. Por isso, a floração atual é uma oportunidade rara de observar a biodiversidade que permanece escondida sob uma paisagem aparentemente sem vida.

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