Guillermo del Toro, diretor, cai no choro ao falar sobre o futuro que os jovens herdam: "há uma sensação de que talvez o mundo vá acabar"

Pode soar polêmico, mas Guillermo del Toro não tem dúvidas: três gerações seguidas falharam com a juventude

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Bárbara Castro

Redatora

No último domingo, durante o Festival Internacional de Cinema de Morelia, Guillermo del Toro celebrou os 20 anos de O Labirinto do Fauno ao lado da protagonista Ivana Baquero. Apesar do clima comemorativo, o cineasta mexicano não evitou temas complexos e ficou com a voz embargada ao falar sobre a juventude. Conforme relatou a crônica da AP, ele afirmou que sente uma dor imensa ao ver que "uma, duas ou três gerações falharam completamente com esta geração". No vídeo publicado pelo Milenio, o realizador chega a parar a fala para enxugar as lágrimas: "Acho que, se pudermos dizer aos jovens 'sinto muito', com amor, isso pode funcionar".

Gostar de Del Toro vai muito além dos seus filmes

A forte emoção do diretor encontra raízes fora das telas, no cenário social atual que impacta o cotidiano de todos. Naquela mesma manhã, ele havia cedido o microfone a jovens de Guadalajara, sua cidade natal, onde uma passeata por água potável terminou em 11 de outubro com bombas de gás lacrimogêneo e 39 manifestantes detidos. "Estou com eles 100%", garantiu logo depois. É quase impossível não admirar Guillermo del Toro, apreciando ou não toda a sua filmografia (e eu, pessoalmente, gosto bastante). Há mais de 30 anos ele mostra que os monstros são aqueles que não se enquadram, e que o horror autêntico costuma ser o que tomamos como garantido: a pura normalidade, a aceitação passiva e a complacência.

Em seus desabafos mais recentes, o cineasta lamentou que a juventude tenha herdado um cenário marcado por crise climática, polarização e escassez de referências, apontando a solidariedade e a empatia como instrumentos indispensáveis de reconstrução. O comprometimento, contudo, não fica restrito ao discurso. Projetos como El Taller del Chucho e a Bolsa Jenkins-Del Toro abrem caminhos para novos criadores, enquanto o suporte a estudantes e profissionais da cultura defende a necessidade de investir no futuro da sociedade.

Del Toro defende a empatia e a solidariedade como ferramentas essenciais para reconstruir o mundo.

Um dos pontos em que o diretor é mais contundente envolve a inteligência artificial generativa, cujo avanço ele questiona abertamente pela ausência de sensibilidade e pela ameaça aos postos de trabalho criativo humano. Diante de figuras concebidas por algoritmos, ele resgata o trabalho manual, os efeitos práticos e o valor insubstituível das vivências individuais que respiram em uma obra artística. Esse posicionamento conversa diretamente com sua rejeição histórica ao fascismo, ao ódio e à submissão cega, marcas evidentes em clássicos como O Labirinto do Fauno e Pinóquio. Para Del Toro, a arte atua como trincheira contra a desumanização: uma maneira de resguardar a memória, incentivar a compaixão e lembrar que máquinas jamais devem superar pessoas.

Guillermo del Toro passa anos falando sobre seus videogames favoritos em todos os seus filmes; basta saber onde olhar.

Quatro capitais cobrando o essencial

O alerta de Del Toro ressoa com precisão nos acontecimentos recentes. Em Paris, acostumada com mobilizações estudantis há quase sete décadas, colégios e universidades vêm organizando paralisações contra a falta de docentes e estrutura, somadas ao descontentamento geral com o custo de vida que, segundo a CNN, reuniu centenas de milhares nas ruas. Em Madri, o acampamento por habitação digna na praça Puerta del Sol desembocou em uma passeata em 3 de outubro, convocando uma greve geral com 70 mil pessoas, segundo as autoridades locais — ou meio milhão, de acordo com organizadores ouvidos pela Euronews.

Para o cineasta, a arte precisa se transformar em uma forma de resistência contra a desumanização.

Em Buenos Aires, a Marcha Federal Universitária de 15 de outubro exigiu o cumprimento das leis de verba pública para o ensino superior e foi dispersada com bombas de gás em frente ao Congresso Nacional, deixando dezenas de presos e versões contraditórias sobre as agressões policiais. Moradia digna, sala de aula com professores e água potável: parece evidente que qualquer perspectiva de futuro começa por garantir esses direitos elementares.

O aviso que Del Toro deu há duas décadas

Vale resgatar uma história de quando o filme estreou, em 2006. Naquela ocasião, um repórter questionou se ainda havia relevância em retratar um fascismo já derrotado na história, ao que o diretor rebateu recomendando atenção, pois a ideologia voltaria a ser tendência. Passados 20 anos, ao lado da mulher que deu vida à garota Ofélia nas telas, ele reforçou que as estruturas autoritárias continuam usando o mesmo roteiro: criar divisões, alimentar o ódio e convencer o cidadão de que seu inimigo é o semelhante ao lado, nunca quem ocupa o poder no topo. Afinal, faz todo sentido que a palavra "monstro" derive de um verbo em latim cujo significado é justamente "advertir".

Matéria traduzida de 3DJuegos*

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