Parece contraditório, mas o país que mais exporta carros para o resto do mundo e que possui o maior mercado automotivo está projetando bairros onde o automóvel perde o protagonismo em favor do transporte público.
As cidades chinesas já não crescem em torno do uso do automóvel: agora, são concebidas segundo um modelo urbanístico denominado Transit-Oriented Development (TOD).
O automóvel deixa de ser imprescindível, sem, contudo, deixar de existir
Quando o automóvel surgiu, ele não apenas transformou nossas vidas, mas também nossas cidades. À medida que os carros se popularizaram, as cidades de quase todo o mundo foram se adaptando ao uso desses veículos. O planejamento urbano, ao longo de todo o século XX e até o momento no século XXI, desenvolveu-se em torno do automóvel — grandes avenidas, vagas de estacionamento, vias de contorno e muito mais.
No entanto, esse cenário está mudando em algumas partes do mundo, como na China. Cada vez mais cidades no país asiático estão adotando um modelo urbanístico conhecido como Transit-Oriented Development (TOD) — ou, em português, desenvolvimento orientado ao transporte público.
O objetivo deste modelo de planejamento urbano é, em essência, reduzir o uso do carro para diminuir os níveis de tráfego e as emissões. Além disso, busca frear a expansão urbana dispersa e facilitar o acesso de mais pessoas a empregos e serviços.
Este modelo de planejamento consiste em concentrar residências, escritórios, comércios, escolas e todo tipo de serviço no entorno de estações de metrô ou trem. Quanto mais próximos esses locais estiverem das estações, menos necessário se torna o uso do carro no dia a dia: basta pegar o metrô ou o trem para chegar a um lugar que oferece de tudo.
É o oposto do que foi feito durante décadas na maioria das grandes cidades, onde se construíam moradias cada vez mais distantes do centro, além de centros comerciais nos arredores com milhares de vagas de estacionamento. Isso nos obriga a usar o carro para quase tudo e a realizar longos deslocamentos diários para trabalhar, estudar ou até mesmo fazer compras.
É nesse contexto que surgem, cada vez mais, estações intermodais, vias com prioridade para pedestres e ciclovias.
Não é algo que tenha sido inventado pela China, já que vem sendo aplicado há muitos anos em cidades de outros países, como Curitiba (Brasil), Copenhague (Dinamarca) ou Tóquio (Japão); no entanto, chegou agora à China e está sendo implementado com grande intensidade. Como ocorre com muitas outras coisas, a China está aplicando esse conceito em uma escala sem precedentes.
A estratégia alinha-se perfeitamente à expansão do transporte ferroviário na China — tanto o interurbano, por meio de milhares de quilômetros de linhas de alta velocidade construídas nos últimos anos, quanto o urbano, com extensas linhas de metrô em dezenas de cidades.
Isso faz parte do crescimento que a China vivenciou desde a década de 1980, com milhões de chineses deixando as áreas rurais para viver nas cidades e contribuir para que o país se tornasse a grande fábrica do mundo.
O Transit-Oriented Development (Desenvolvimento Orientado ao Transporte) tem sido fundamental para o crescimento de cidades como Shenzhen, onde novos bairros estão sendo construídos seguindo esse planejamento. Outras cidades, criadas praticamente do zero — a exemplo de Xiong’an —, adotaram essa estratégia desde o início.
Atenção: não é que a China queira eliminar o automóvel — na verdade, a produção de carros é crucial para sua economia, e o país possui o maior mercado automotivo do mundo. No entanto, o papel dos carros dentro das cidades está mudando: em vez de serem protagonistas, como ocorre em quase todas as cidades do planeta, eles estão se tornando apenas mais uma opção em um sistema no qual o transporte público ganha cada vez mais relevância.
Não deixa de ser paradoxal que o país que mais exporta carros para o resto do mundo esteja tornando o automóvel cada vez menos necessário em suas próprias cidades; trata-se, contudo, de uma aposta voltada para o futuro, visando tornar a vida nas grandes metrópoles mais eficiente e sustentável.
Imagens | Unsplash
Este texto foi traduzido/adaptado do site Motorpasión
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