Crise do petróleo acelera corrida mundial pela transição elétrica

O choque entre os “petroestados” e os “eletroestados” redefine a geopolítica: escolher como se descarbonizar agora é escolher de que lado do mundo você está

Transição energética
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Enquanto o mundo entra em pânico com a escassez de combustíveis fósseis, os números do setor de energias renováveis na China são impressionantes. As ações da gigante de baterias CATL dispararam 29,5% na bolsa de Hong Kong desde o início do conflito. Por sua vez, a líder em veículos elétricos BYD viu suas vendas no exterior saltarem 65% na comparação anual no mês de março.

Essa onda de compras não é nova, mas se acelerou drasticamente: no ano passado, as exportações chinesas de painéis solares para a África aumentaram 48%, as vendas de veículos elétricos cresceram 27% e as de turbinas eólicas, quase 50%.

A virada global rumo às energias renováveis neste momento crítico não é impulsionada apenas por promessas climáticas, mas por uma necessidade de “segurança energética”. A escassez de combustíveis na Ásia levou países vulneráveis a tomar medidas drásticas: o presidente da Indonésia anunciou a construção de 100 gigawatts de energia solar nos próximos dois anos, enquanto as Filipinas oferecem empréstimos estatais de até 8.300 dólares para a instalação de painéis solares residenciais.

O Ocidente vem há anos prometendo alternativas, mas, na Ásia, a China já está muito à frente, controlando mais de 80% da fabricação mundial. Empresas como CATL e BYD já anunciaram ou construíram 68 fábricas fora da China, investindo mais dinheiro no exterior do que em seu próprio país.

A ascensão dos “eletroestados”

O cenário global está sendo redefinido. Estamos presenciando uma disputa entre os tradicionais “petroestados”, liderados pelos EUA, e os novos “eletroestados”, ancorados pela China, que fornece mais de 70% de todo o hardware verde do mundo.

Excluída dos EUA e da Europa por medidas protecionistas, a indústria solar chinesa encontrou sua salvação no Sul Global. No ano passado, fabricantes chineses enviaram 18,8 gigawatts em painéis solares para a África. Em termos diplomáticos e econômicos, a guerra deve consolidar o status de superpotência da China. A desconexão do petróleo do Oriente Médio pode até enfraquecer o domínio do “petrodólar” e impulsionar o surgimento do “petroyuan”, à medida que países como o Irã negociam a passagem de navios em troca de pagamentos na moeda chinesa.

Apesar desse domínio avassalador, o caminho de Pequim enfrenta obstáculos significativos. Na África, embora a tecnologia barata seja bem-vinda, crescem os alertas sobre a criação de uma nova “síndrome de dependência”. Alguns especialistas lamentam que, enquanto os países africanos veem a China como um salvador, Pequim os considera um “depósito” para se desfazer de sua sobrecapacidade industrial.

No Ocidente, a desconfiança é ainda maior por motivos de segurança nacional. O Reino Unido vetou recentemente os planos da fabricante chinesa Ming Yang de construir uma fábrica de turbinas eólicas na Escócia, alegando riscos de espionagem e sabotagem em infraestruturas críticas. Ao mesmo tempo, a administração estadunidense de Donald Trump decidiu retirar o apoio fiscal à energia verde e priorizar os combustíveis fósseis para evitar dependência de cadeias de suprimento controladas por adversários estrangeiros.

A própria China também não é invulnerável. Apesar de sua liderança em energias renováveis, o país ainda importa 78% do petróleo que consome e o Golfo Pérsico fornece quase metade dessas importações. A alta no preço do barril está causando impactos significativos por meio da inflação de custos em setores vitais como aço, alumínio e petroquímica, reduzindo suas margens de competitividade.

Uma escolha geopolítica

Justamente porque essa dependência dos combustíveis fósseis afeta todos igualmente, a transição verde se tornou uma corrida de pura sobrevivência econômica para proteger as economias nacionais. A crise desencadeada pela guerra no Irã mostra que a resiliência é hoje o principal motor da mudança global. Como destaca Fatih Birol, da Agência Internacional de Energia, as energias limpas vão se acelerar não apenas por causa das emissões, mas porque são uma “fonte de energia nacional”.

No entanto, adotar essa tecnologia implica escolher de que lado da balança se quer estar. A transição energética deixou de ser uma simples escolha entre combustíveis fósseis ou renováveis. Atualmente, o grau em que um país decide (ou não) depender da China definirá sua capacidade de descarbonização, transformando um debate ambiental na decisão geopolítica mais determinante da próxima década.

Imagem | Unsplash

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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