Cientistas lançaram uma vaca nas profundezas do mar da China e descobriram oito convidados inesperados no banquete

A ideia de simular o afundamento de uma baleia com uma vaca não só se mostrou eficaz, como também demonstrou ser um poderoso atrativo ecológico

Vaca no mar
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Tudo começou com um experimento inusitado. Para entender como grandes carcaças influenciam os ecossistemas das profundezas, pesquisadores afundaram uma vaca a 1.629 metros no Mar da China Meridional, próximo à ilha chinesa de Hainan. A ideia era reproduzir artificialmente o chamado whale fall, quando o corpo de uma baleia afunda e se transforma em fonte de alimento para dezenas de espécies marinhas.

O resultado surpreendeu até os cientistas mais experientes. Pouco tempo depois no mar, oito tubarões-dorminhocos-do-Pacífico (Somniosus pacificus) apareceram para disputar a carcaça. Foi o primeiro registro documentado dessa espécie na região, ampliando significativamente sua área conhecida de distribuição e levantando novas dúvidas sobre a biodiversidade das profundezas do Mar da China Meridional.

Além dos tubarões, as câmeras registraram peixes-caracol, anfípodes e diversos outros organismos atraídos pela enorme quantidade de matéria orgânica. O experimento também reforçou a hipótese de que as águas profundas tropicais podem ser muito mais biodiversas do que os cientistas imaginavam.

Os tubarões surpreenderam ao criar uma "fila" para se alimentar

Se a presença dos tubarões já chamou atenção, o comportamento deles intrigou ainda mais os pesquisadores. Em vez de disputar a carcaça de forma caótica, os animais pareciam respeitar uma espécie de revezamento. Enquanto um indivíduo se alimentava, outro aguardava logo atrás, assumindo seu lugar quando o primeiro se afastava.

As gravações também mostraram diferenças de comportamento conforme o tamanho dos animais. Os exemplares maiores, com mais de 2,7 metros, eram muito mais agressivos durante a alimentação. Já os menores permaneciam circulando a carcaça antes de se aproximarem, indicando uma possível hierarquia que reduz conflitos diretos entre indivíduos da mesma espécie.

Outro detalhe chamou atenção: durante as mordidas, os tubarões retraíam completamente os olhos. Como essa espécie não possui membrana nictitante, uma espécie de terceira pálpebra presente em diversos outros vertebrados, os pesquisadores acreditam que esse movimento seja uma adaptação evolutiva para proteger os globos oculares durante a alimentação. As imagens também revelaram que vários indivíduos apresentavam parasitas nos olhos, provavelmente copépodes, uma característica já conhecida em parentes próximos, como o tubarão-da-Groenlândia.

A descoberta pode mudar o que sabemos sobre os oceanos profundos

A principal dúvida agora não é apenas por que esses tubarões apareceram, mas se eles sempre estiveram ali. Os pesquisadores avaliam duas possibilidades. A primeira é que o aquecimento dos oceanos esteja permitindo que a espécie expanda sua distribuição para regiões onde antes não era encontrada. A segunda, considerada bastante plausível, é que esses animais sempre tenham habitado o Mar da China Meridional, mas nunca tenham sido registrados por causa da dificuldade de explorar ambientes a mais de 1.600 metros de profundidade.

Essa hipótese ganhou força após outro registro histórico. Em fevereiro de 2026, um tubarão da mesma família foi filmado pela primeira vez nas águas da Antártida, próximo às Ilhas Shetland do Sul, ampliando ainda mais a discussão sobre a distribuição desses predadores. Todo o experimento demonstrou como estudos relativamente simples podem ajudar a desvendar ecossistemas ainda pouco conhecidos. Ao transformar uma carcaça de vaca em uma simulação do afundamento de uma baleia, os pesquisadores criaram um laboratório natural que revelou comportamentos inéditos e mostrou que o oceano profundo continua guardando segredos que a ciência apenas começou a descobrir.

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