Quando a Synology me enviou o DS725+ para teste, minha primeira reação foi de estranhamento. A caixa chegou com um equipamento pequeno, quase do tamanho de uma impressora doméstica compacta. Difícil acreditar que aquele aparelho poderia substituir toda a infraestrutura de nuvem de uma pequena empresa, ou centralizar o armazenamento, o backup e até as câmeras de segurança de um grande escritório.
Fiquei algumas semanas com o DS725+ no meu setup, testando no dia a dia, e o resultado me surpreendeu mais do que eu esperava.
O que é um NAS e por que isso importa para você
Antes de falar do produto em si, vale entender o que é um NAS: a sigla vem de Network Attached Storage, que é basicamente um servidor de armazenamento conectado à sua rede local. Pense nele como um HD externo que qualquer dispositivo da sua casa ou do seu escritório pode acessar ao mesmo tempo, de qualquer lugar, sem depender de uma assinatura de nuvem.
A Synology é a líder mundial em NAS. Não em armazenamento em geral, mas especificamente nessa categoria. Mais da metade das empresas listadas na Fortune 500, a lista das maiores corporações do mundo, usam soluções da marca. No Brasil, a empresa está em fase de expansão e acaba de lançar o canal oficial no YouTube (youtube.com/@SynologyBrasil) focado em educação e suporte em português.
O DS725+ é o lançamento mais recente da linha Plus para uso doméstico e PMEs (Pequenas e Médias Empresas), como parte da nova série 25 da marca, que se refere ao ano de fabricação de 2025.
Hardware: compacto, mas capaz
O DS725+ tem apenas duas baias, que são os compartimentos onde você instala os discos rígidos. Para quem não está familiarizado: baia é o espaço físico dentro do NAS onde o HD ou SSD fica encaixado.
No modelo que testei, vieram dois discos HAT3300 de 4TB da própria Synology. A instalação foi totalmente sem parafuso para os discos de 3.5 polegadas: basta deslizar, encaixar e fechar. Em menos de 15 minutos o equipamento já estava ligado e configurado.
Por dentro, o processador é um AMD Ryzen R1600 de dois núcleos, com frequência base de 2.6 GHz e turbo de 3.1 GHz, acompanhado de 4 GB de memória RAM DDR4 ECC. A sigla ECC significa Error Correcting Code, ou seja, a memória consegue detectar e corrigir erros de dados automaticamente, o que é importante em servidores que ficam ligados 24 horas por dia. A memória é expansível até 32 GB.
A novidade mais importante: rede mais rápida
A principal mudança em relação ao modelo anterior é a inclusão de uma porta de rede 2.5GbE. Para comparar: a maioria dos roteadores e equipamentos domésticos usa portas de 1GbE. Com 2.5GbE, a largura de banda disponível para transferência de arquivos é 2,5 vezes maior, sem precisar trocar nada na sua rede.
Tem mais: o DS725+ vem com duas portas de rede, e as duas podem ser combinadas em uma só conexão, num recurso chamado Link Aggregation (agregação de links). Na prática, isso significa chegar a 5GbE de velocidade sem placa de rede adicional.
Os resultados de transferência que medi ficaram em até 276 MB/s de leitura sequencial e 224 MB/s de gravação. Em termos práticos: copiar um arquivo de 10 GB levou menos de 1 minuto (impressionante, né?!).
Dois slots M.2 que você vai querer usar
O DS725+ tem dois slots M.2 NVMe integrados, que ficam na parte de baixo do equipamento e são acessados sem parafusos. NVMe é um tipo de SSD muito mais rápido que um HD tradicional.
Esses slots servem para criar uma camada de cache, que funciona como uma espécie de memória intermediária entre o processador e os HDs mecânicos. Os arquivos mais acessados ficam no SSD e são entregues muito mais rápido do que se fossem lidos direto do HD. O resultado é uma resposta mais ágil do sistema, especialmente para quem trabalha com muitos arquivos pequenos ou múltiplos usuários ao mesmo tempo.
Crescer sem trocar o equipamento
Uma das características que mais me chamou atenção é a escalabilidade. O DS725+ começa com duas baias, mas pode ser expandido para até sete com a unidade de expansão DX525, que adiciona mais cinco baias.
O detalhe importante: essa expansão não é apenas "espaço extra". Você consegue migrar um array RAID existente para incluir os novos discos, mudando de RAID 1 para RAID 5, 6 ou 10 conforme o volume de dados cresce. RAID é um sistema de redundância que distribui e replica os dados entre vários discos para proteger contra falha. Isso significa que uma empresa pode começar pequena e crescer sem precisar comprar um equipamento novo do zero.
O software é onde tudo se diferencia
Por dentro do sistema do NAS DS725+ da Synology
O coração do DS725+ é o DSM, o DiskStation Manager. É o sistema operacional proprietário da Synology, acessado por qualquer navegador, de qualquer dispositivo, de qualquer lugar do mundo. A versão atual é o DSM 7.3, lançada em outubro de 2025.
A interface é limpa, intuitiva e organizada como um desktop web. Do lado de fora parece simples. Por dentro, é onde mora o diferencial real da marca.
Quase 95% dos aplicativos disponíveis não têm custo de licença mensal. Isso inclui soluções que normalmente cobram assinaturas:
Synology Drive: equivalente funcional ao Google Drive, com sincronização de pastas, acesso remoto, compartilhamento de links com data de validade e controle de permissão por usuário ou grupo.
Synology Office: edição de planilhas, documentos de texto e apresentações diretamente no navegador, com colaboração em tempo real.
Synology Photos: backup automático e gerenciamento de fotos e vídeos, com reconhecimento de faces e objetos por IA nativa. Funciona como substituto direto do Google Fotos ou iCloud.
Synology MailPlus: servidor de e-mail próprio com cinco contas gratuitas prontas para uso, com endereços no domínio da empresa.
Para uma PME que paga R$ 100 por usuário no Google Workspace ou Microsoft 365, o custo de um NAS se amortiza em meses.
IA embutida no NAS
A atualização mais recente do sistema trouxe o Synology AI Console, que permite usar modelos de linguagem (LLMs) diretamente no dispositivo ou via APIs de nuvem como OpenAI e Anthropic. LLM é o tipo de inteligência artificial por trás de ferramentas como o ChatGPT: modelos que entendem e geram texto.
Na prática, isso significa que você pode gerar resumos, traduções e textos dentro das ferramentas de produtividade da Synology sem enviar os dados para fora do seu servidor. Para empresas com dados sensíveis, isso é relevante.
O DSM 7.3 também trouxe tiering inteligente de armazenamento: o sistema move dados menos acessados automaticamente para discos mais lentos ou baratos, liberando espaço nos SSDs para o que importa no dia a dia.
Backup: a regra 3-2-1 que todo mundo deveria seguir
A Synology é uma das empresas que mais defende a regra 3-2-1 de backup, padrão recomendado globalmente por especialistas em segurança de dados. A lógica é simples: três cópias do arquivo, em dois suportes diferentes, com uma cópia fora do local físico, seja em outra NAS, seja na nuvem.
A regra 3-2-1 é o padrão global de proteção de dados: três cópias, dois suportes diferentes, uma fora do local físico
O DS725+ tem três ferramentas principais para isso. O Hyper Backup faz backups automáticos e versionados para outra NAS, disco externo ou nuvem. O Snapshot Replication tira uma "foto" exata do estado do sistema em momentos específicos, o que permite recuperar arquivos minutos após um ataque de ransomware. O Active Backup for Business centraliza a proteção de servidores Windows, Linux, máquinas virtuais e até o conteúdo do Microsoft 365 e Google Workspace.
Vigilância: 8.700 câmeras compatíveis
O DS725+ funciona também como central de câmeras IP, pelo software Surveillance Station. IP é o protocolo de rede padrão, e câmeras IP são as câmeras modernas que transmitem vídeo pela internet ou pela rede local, sem fio ou cabo.
O sistema é compatível com mais de 8.700 modelos de câmeras de 180 fabricantes diferentes. As duas primeiras câmeras de marcas terceiras têm licença gratuita. A partir da terceira, a licença é paga uma única vez, sem mensalidade.
O armazenamento das gravações fica no próprio NAS, o que elimina o custo de planos de nuvem para câmeras de segurança. Para um escritório com quatro ou cinco câmeras, a economia acumulada em dois anos já paga o equipamento.
Virtualização: servidores dentro do servidor
Um ponto que muita gente ignora é a capacidade de virtualização do DS725+. Virtualização é a criação de computadores inteiros funcionando dentro do NAS, usando software. O equipamento é compatível com VMware, Windows Server e outras plataformas de virtualização.
O exemplo mais direto: um call center poderia usar apenas monitores, teclados e mouses conectados à rede, com os "computadores" rodando virtualmente dentro da NAS. Se um equipamento quebrar, o trabalho continua automaticamente em outro ponto da rede. Para pequenas e médias empresas, isso representa redução de custo de hardware e de manutenção.
Quem usa no mundo real
A Synology tem alguns casos de uso que ajudam a colocar em perspectiva o que a tecnologia entrega.
O Clube Atlético Mineiro usa três unidades de servidor Synology para digitalizar e proteger seu acervo histórico de imagens e vídeos, com capacidade expandida para até 1,4 petabytes por unidade. A Toyota Motor Vietnam substituiu licenças caras de backup pela infraestrutura Synology e cortou seus custos de proteção de dados em 75%. A UNESCO instalou sistemas da marca em 70 países para rodar máquinas virtuais locais com baixa largura de banda.
A UNESCO usa soluções com NAS para fazer backup de arquivos em vários lugares do mundo
Não são casos de uso hipotéticos. São empresas reais usando o ecossistema que o DS725+ representa em escala menor.
O que pode melhorar
Nenhum equipamento é perfeito, e o DS725+ tem um ponto que merece ser mencionado.
A versão anterior do mesmo equipamento, o DS723+, tinha um slot PCIe que permitia adicionar uma placa de rede 10GbE, o que significa dez vezes mais velocidade que a rede padrão. O DS725+ não tem mais esse slot. Para a maioria dos usuários domésticos e pequenas empresas, isso não faz a menor diferença. Para quem precisa de conexão de altíssima velocidade e já tem infraestrutura 10GbE instalada, vale avaliar outros modelos da linha Synology antes de decidir.
Sobre compatibilidade de discos: a Synology implementou no início de 2025 uma política de compatibilidade mais restrita, exigindo drives certificados pela marca. A empresa respondeu às críticas da comunidade e no DSM 7.3 reabriu o suporte a drives SATA de terceiros. A questão está praticamente resolvida, mas é algo a monitorar nas futuras atualizações do sistema.
A Synology chegando ao Brasil
A marca está em um momento de expansão clara no mercado brasileiro. O canal Synology Brasil no YouTube foi lançado recentemente com foco em educação e suporte em português, algo que fazia falta para quem quer se aprofundar no ecossistema sem precisar de conteúdo em inglês.
Em junho de 2026, a Synology estará na Computex, a maior feira de tecnologia da Ásia, realizada em Taiwan. A edição promete novidades no portfólio da marca, e o Xataka Brasil vai acompanhar de perto.
Vale a pena o DS725+?
Para quem está começando com NAS ou quer uma solução compacta, capaz e escalável para um escritório pequeno, o DS725+ entrega muito mais do que o hardware sugere à primeira vista.
O maior argumento não é a velocidade de transferência, nem os slots M.2. É o ecossistema. Um servidor que substitui Google Drive, faz backup automático, protege câmeras e roda máquinas virtuais, tudo sem mensalidade, é proposta difícil de ignorar.
Se você gasta R$ 300 por mês em assinaturas de nuvem para uma equipe de cinco pessoas, o DS725+ começa a se pagar antes do primeiro ano.
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