Nós passamos cerca de um terço da nossa vida dormindo. Mesmo assim, a reclamação mais comum no mundo moderno é a falta de descanso e o cansaço constante. É muito normal culpar as telas do celular, o estresse do trabalho ou a luz artificial por nos roubar o sono. Porém, a antropologia evolutiva traz uma resposta bem diferente: o ser humano foi geneticamente desenhado para dormir menos do que qualquer um de nossos parentes na natureza.
Uma anomalia biológica
Essa afirmação não é apenas um palpite, mas sim o resultado das pesquisas do cientista David R. Samson, professor de Antropologia Evolutiva. Após conviver e estudar tribos de caçadores-coletores que vivem sem tecnologia — como os Hadza na Tanzânia e os BaYaka no Congo —, ele confirmou que os humanos são uma verdadeira esquisitice biológica quando o assunto é cama.
Se fôssemos seguir a regra da biologia baseada no tamanho do nosso corpo, no peso do cérebro e na nossa dieta, nós deveríamos dormir cerca de 9,5 horas por dia. Mas a realidade é que o ser humano dorme, em média, 2,5 horas a menos do que a biologia prevê. Somos os grandes madrugadores do reino dos primatas.
Veja o tempo médio de sono de outras espécies para comparar:
- Chimpancé: entre 9,5 e 11,5 horas por dia.
- Gorila: de 10 a 12 horas.
- Macaco-de-cauda-de-porco: 14 horas.
- Macaco-da-noite: impressionantes 17 horas.
Menos tempo, mais intensidade
Como é possível que o dono do cérebro mais complexo e que mais gasta energia no planeta consiga funcionar dormindo tão pouco? A explicação está na teoria do "sono intenso".
A evolução nos forçou a ter um sono muito mais profundo e de alta qualidade, o que nos permite descansar mais rápido. Por exemplo, nós passamos 25% do nosso tempo de descanso na fase REM (a fase dos sonhos e da fixação da memória). Enquanto isso, outras espécies, como os macacos-verdes-africanos, dedicam apenas 5% do sono a essa fase. O sono humano tem menos estágios "leves" e foca direto no sono profundo e eficiente.
Dormir pouco era questão de vida ou morte
Essa mudança drástica na rotina não foi um capricho, mas pura necessidade de sobrevivência. Quando os nossos ancestrais decidiram descer das árvores (onde dormiam protegidos) para viver e dormir no chão, o risco de serem atacados por predadores aumentou drasticamente.
Para não virar janta de grandes animais, os humanos criaram defesas: começaram a dormir em grupos grandes e perto do fogo. Além disso, um estudo de 2017 provou que a nossa própria biologia ajuda a manter a segurança: as pessoas do grupo têm relógios biológicos naturalmente diferentes. Enquanto uns sentem sono cedo, outros têm hábitos noturnos, garantindo que sempre houvesse alguém acordado fazendo a guarda da tribo.
Não culpe apenas o seu smartphone
É muito fácil colocar a culpa das nossas poucas horas de sono nos celulares e na luz elétrica de casa. Só que a ciência mostrou que isso é um mito.
Ao monitorar o sono dos Hadza na Tanzânia — uma comunidade que vive sem qualquer acesso à eletricidade ou tecnologia —, os cientistas descobriram que eles dormem exatamente as mesmas horas que nós: cerca de 6,25 horas por noite. O padrão de sono deles é idêntico ao de quem vive no meio de uma grande metrópole moderna.
No fim das contas, se você dorme por volta de 6 ou 7 horas por noite, não se sinta mal. Você não está quebrado pelo mundo digital; está apenas operando no modo padrão que a evolução humana escolheu para a nossa espécie.
Texto traduzido e adaptado do site Xataka Espanha.
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