"É como ter um aspirador de pó ligado na sala": centro de dados nos EUA transformou a vida de um bairro em um pesadelo

A cidade multou a operadora e o caso já está na Justiça

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Durante anos, os centros de dados permaneceram fora do nosso campo de visão, embora boa parte do que fazemos na internet dependa deles. Em Dowagiac, cidade no sudoeste de Michigan, nos EUA, essa infraestrutura se tornou impossível de ignorar: vários moradores afirmam que uma instalação dedicada à mineração de criptomoedas, atualmente em processo de conversão, emite desde 2024 um zumbido agudo durante as 24 horas do dia. Agora, enquanto a empresa se prepara para migrar para a computação voltada à inteligência artificial e à robótica avançada, o conflito mostra até que ponto uma infraestrutura digital pode transformar a vida cotidiana de quem mora ao seu redor.

A história se concentra na Louise Avenue, uma rua sem saída onde Lindy Valenzuela e o casal Marjorie e Billy Finn vivem exatamente em frente à instalação, de propriedade da Alliance Cloud Services LLC, subsidiária da Hyperscale Data. Segundo relataram à emissora estadunidense WXYZ, durante décadas existiu do outro lado da rua um prédio industrial escondido atrás de uma fileira de pinheiros, integrado à paisagem cotidiana do bairro.

Os moradores afirmam que a mudança começou em 2018, quando as árvores foram removidas e uma doca de carga foi instalada. Por volta de 2021, o local passou a abrigar uma operação de mineração de criptomoedas e, três anos depois, o funcionamento da instalação começou a ser percebido de outra forma.

Valenzuela descreveu o som com uma comparação bastante específica: "É como ter um aspirador de pó ligado na sala [...] quando o filtro está entupido e ele começa a emitir um apito agudo. E alguém o deixou ligado e foi embora". As consequências aparecem em atividades cotidianas que antes eram comuns. Os Finn afirmam que já não conseguem abrir as janelas como faziam antes, enquanto Valenzuela conta que permanecer alguns minutos do lado de fora nos dias mais quentes pode acabar provocando dores de cabeça.

Das reclamações aos tribunais

O conflito deixou de ser apenas uma questão de vizinhança em março de 2026, quando Dowagiac aprovou sua primeira regulamentação sobre ruído industrial. A norma estabelece um limite máximo de 65 dB durante o dia e 55 dB à noite, e um representante da prefeitura afirmou que a cidade já multou a Hyperscale Data por descumpri-la. A empresa, no entanto, contesta tanto as medições quanto o método utilizado. Paralelamente, Valenzuela figura como autora de uma ação coletiva que acusa a operadora de negligência e de interferir de forma significativa no uso e no desfrute das residências.

A Hyperscale Data apresentou números para a transformação planejada da instalação. Seu CEO, William Horne, explicou durante uma reunião extraordinária do conselho municipal que a empresa pretende investir US$ 100 milhões para ampliar a capacidade de computação destinada à inteligência artificial e à robótica avançada, enquanto abandona a mineração de criptomoedas.

A empresa também adquiriu terrenos vizinhos, que pretende usar como uma faixa natural de isolamento para reduzir o ruído que chega às residências. Por enquanto, no entanto, as autoridades locais afirmam que ainda não receberam nenhum pedido de licença para essa expansão.

Entre as medidas anunciadas pela Hyperscale Data está o desligamento gradual dos equipamentos de mineração, processo que a empresa espera concluir nos três meses seguintes. O CEO foi além e afirmou que compraria as casas das pessoas que continuassem sem conseguir usufruir delas.

Para os moradores afetados, porém, essa alternativa não resolve o que essas residências representam. A casa dos Finn, por exemplo, pertence à família há quase 100 anos e é ali que eles mantêm suas amizades e uma rede de apoio que também ajuda Marjorie, diagnosticada com Parkinson.

O que está acontecendo em Dowagiac mostra como uma infraestrutura de computação pode afetar a comunidade quando é instalada ao lado de residências e funciona de forma contínua. Os centros de dados sustentam serviços que usamos diariamente. Essa expansão pode trazer investimentos e empregos, mas também pode aumentar a demanda por eletricidade e água, a ocupação do solo e, em determinados casos, o nível de ruído suportado pela vizinhança.

Imagens | Brett Sayles (Pexels)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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