A IA já não se paga sozinha: nem mesmo negócios gigantes, como os da Meta ou do Google, são suficientes para financiá-la

  • Meta busca US$ 95 bilhões no mercado de ações quatro meses depois que a Alphabet levantou US$ 85 mil;

  • Nem mesmo as empresas mais lucrativas do planeta são suficientes para pagar a corrida da IA

A IA já não se paga sozinha: nem mesmo negócios gigantes, como os da Meta ou do Google, são suficientes para financiá-la
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Fabrício Mainenti

Redator

A Meta pretende captar até 95 bilhões de dólares (cerca de R$ 507,4 bilhões) por meio da venda de ações para custear sua infraestrutura de IA. O anúncio foi feito na mesma segunda-feira em que a SpaceX fechou um acordo de US$ 40 bilhões (R$ 213.6 bilhões) com a Apollo para a compra de chips da NVIDIA.

É natural que empresas como a OpenAI ou a Anthropic busquem capital, já que seu modelo de negócios é inteiramente voltado para a IA; elas começaram do zero em termos de receita e precisaram — e continuam precisando — realizar gastos vultosos antes de atingirem um faturamento suficiente. O que chama a atenção é ver gigantes como a Meta e o Google na mesma fila em busca de recursos.

Por que isso é importante?

Durante anos, a vantagem das grandes empresas de tecnologia na corrida pela IA foi bastante simples: elas tinham condições de arcar com os custos por conta própria. Facebook, Instagram e WhatsApp (assim como o Google e o YouTube) geram tanto dinheiro com publicidade que essas companhias conseguiram construir centros de dados sem precisar recorrer a terceiros.

Esse cenário mudou. No último trimestre, a Meta registrou uma receita de US$ 64,6 bilhões (cerca de R$ 345 bilhões) — um aumento de 26% em relação ao ano anterior —, mas, ainda assim, seu fluxo de caixa livre ficou negativo. A empresa gastou mais do que arrecadou e, para este ano, projeta investimentos entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões (entre R$ 721 bilhões e R$ 774,5 bilhões).

O contexto

Como mencionamos há algumas semanas, a Meta não está sozinha nessa busca por capital; é comum que essas empresas destinem à IA praticamente tudo o que arrecadam:

  • A Alphabet captou quase 85 bilhões em ações em junho;
  • A SpaceX financiará a compra de seus chips por meio de uma operação de 40 bilhões, estruturada com a Apollo, a BlackRock e a KKR;
  • A Broadcom obteve mais de 60 bilhões em dívidas, junto à Blackstone e a diversos bancos, para fabricar os chips da Anthropic.

Nas entrelinhas

Fique de olho em quem está investindo na Meta: NVIDIA, AMD e Broadcom pretendem comprar até 5 bilhões de dólares (cerca de R$ 26,7 bilhões) em ações. Quem vende os chips acaba financiando quem os compra.

É como se a concessionária investisse na sua empresa para que você pudesse pagar pela frota de furgonetas. As vendas da concessionária vão muito bem, mas ninguém sabe quantas furgonetas você compraria sem esse empurrãozinho.

O sinal de alerta

O mercado de dívida já está ficando nervoso. O seguro contra um calote da SpaceX — que possui classificação de grau de investimento — atingiu, na sexta-feira, 266 pontos-base, um patamar típico de empresas com títulos de alto risco (junk bonds).

Musk fez questão de se distanciar das "neoclouds" — empresas que "apenas" alugam capacidade computacional. A SpaceX gera receita por meio da Starlink e de seus foguetes. Em termos simples: para quem vende apenas IA, captar recursos emprestados será uma tarefa bem mais difícil.

A grande questão

Estamos diante de uma bolha histórica ou trata-se apenas do ciclo natural da infraestrutura? As ferrovias do século XIX e a fibra óptica do início do século XX — exemplos frequentemente citados por quem não enxerga uma bolha — deixaram redes extremamente úteis, embora ao custo de causar grandes prejuízos a boa parte de quem financiou esses projetos. Desta vez, é fundamental saber quem arcará com a conta:

Se as coisas derem errado — e alguém certamente pagará a conta —, o impacto dependerá de como o capital foi obtido.

  • Quando a Meta emite novas ações, o prejuízo é diluído entre seus acionistas — um grupo que inclui não apenas aqueles que confiaram especificamente em Zuckerberg, mas também qualquer pessoa que possua um fundo indexado ao S&P 500 em seu plano de previdência;
  • Quando o capital é captado junto a empresas como Apollo ou Blackstone, a conta acaba parando em um lugar mais distante e menos visível: nas seguradoras e nos fundos de pensão que confiam seu dinheiro a essas gestoras.

E agora?

Entre esta semana e a próxima, Alphabet, Amazon e Microsoft divulgarão seus resultados. A receita provavelmente será boa — como quase sempre é. O que todos observarão, contudo, é quanto dinheiro sobra após o pagamento da "conta da IA". A Meta apresentou seus números na quinta-feira passada, e o saldo foi negativo.

Em Talavera de la Reina, a Meta planeja construir um data center de 1 bilhão de dólares (cerca de R$ 5,3 bilhões), utilizando água do rio Tejo. Em Aragão, por sua vez, já não há mais espaço para muitos outros empreendimentos do tipo. Esses projetos foram aprovados partindo do pressuposto de que o dinheiro continuaria chegando, e, nesta semana, até a Meta teve que vir a público pedi-lo.

Imagem de capa | Xataka com Magnific

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha

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