"A IA não vai entrar debaixo das casas para instalar canos": nos EUA e na França, as profissões manuais estão em alta

Os jovens estão descobrindo que uma das habilidades mais valiosas do futuro pode ser algo tão antigo quanto saber consertar um cano

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Bárbara Castro

Redatora

Nas últimas décadas, o recado para milhões de jovens foi sempre o mesmo: fazer uma faculdade era o melhor caminho para garantir um bom futuro profissional. O avanço da inteligência artificial está começando a colocar essa promessa em xeque. Nos Estados Unidos, as matrículas no ensino técnico não param de crescer, enquanto na França surgem profissionais com diploma universitário abandonando os escritórios para trabalhar com as próprias mãos. A lógica por trás dessa mudança foi resumida por um estudante de encanamento de Los Angeles: a IA pode até fazer muita coisa, mas ainda não consegue se espremer debaixo de uma casa para instalar canos.

O The Wall Street Journal explicou que o fenômeno já ganhou até nome nos Estados Unidos: toolbelt generation, ou a geração do cinto de ferramentas. Trata-se de jovens que decidiram aprender encanamento, elétrica, marcenaria ou mecânica como uma alternativa real à universidade. De acordo com o National Student Clearinghouse, as matrículas em cursos ligados à construção civil e à mecânica aumentaram 30% entre 2022 e 2024, atingindo patamares recordes.

No Los Angeles Trade-Technical College (LATTC), por exemplo, praticamente todos os cursos técnicos de dois anos enfrentam longas filas de espera. O grande atrativo une mensalidades acessíveis, boas oportunidades no mercado de trabalho e uma blindagem natural contra a automação imposta pela IA.

Victor Velasco, de 26 anos, contou ao jornal Le Monde que estuda encanamento em Los Angeles em busca de estabilidade na carreira. Ele conta que conhece um jovem formado em Humanidades que não conseguiu emprego na própria área e acabou trabalhando no Chipotle. Já Velasco prefere aprender um ofício em alta demanda, com planos de abrir o próprio negócio.

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Perto dali, Brandon, também de 26 anos, trabalha erguendo estruturas de madeira após largar a faculdade de Geologia por causa do mercado incerto. Os dois encontraram uma vantagem que a tecnologia ainda não consegue reproduzir com facilidade: consertar instalações, manusear materiais e resolver imprevistos físicos no mundo real exige um conjunto de habilidades muito difícil de automatizar.

O cenário francês traz uma particularidade curiosa: muitos jovens migram para essas atividades após concluírem a faculdade e passarem anos em frente a uma tela. Apolline Jude, de 24 anos, deixou para trás as áreas de Direito e Comunicação para se tornar confeiteira perto de Paris.

Durante um estágio em um escritório de advocacia, pediram que ela escrevesse artigos usando o ChatGPT — um estalo que acabou afastando a estudante da carreira jurídica. Hoje, ela recebe cerca de € 1.689 líquidos mensais por 39 horas semanais, menos do que esperava ganhar na advocacia. Em troca, afirma ter resgatado o prazer de criar algo palpável e ter orgulho da própria rotina.

Hermine, de 33 anos, explicou ao veículo francês que deixou o design gráfico e a comunicação para virar mosaicista, após ver como os algoritmos estavam descaracterizando seu setor. Já Aina, de 34 anos, trabalhou por dez anos com comércio eletrônico e chegou a chefiar uma unidade de IA antes de abrir uma oficina artesanal em Madagascar, que hoje emprega cinco mulheres.

Jonas, de 29 anos, pediu demissão de uma agência na qual a inteligência artificial resumia relatórios, montava apresentações e inflava a carga horária até atingir 180% do expediente regular. Hoje, ele atua como professor e ganha € 1.800 líquidos por mês, contra quase € 3.000 da época anterior. O movimento desses três profissionais vai muito além do simples medo de perder o emprego: trata-se de recuperar o sentido e o propósito do trabalho diário.

Nos Estados Unidos, o ingresso de calouros nas universidades registrou uma leve queda em 2025, em um cenário em que faculdades privadas mais caras chegam a cobrar cerca de US$ 40.000 por ano. Para piorar a conta, aproximadamente 35% dos alunos abandonam a graduação antes de concluí-la, segundo dados citados em reportagem do Le Monde.

Embora o diploma superior ainda ofereça vantagens financeiras ao longo da carreira, a aposta parece cada vez mais arriscada para quem teme contrair dívidas enormes e não conseguir um emprego qualificado depois. No LATTC, carpinteiros recém-formados conseguem começar recebendo cerca de US$ 45.000 por ano. Os professores da instituição apontam uma nítida mudança geracional: se antes as salas eram dominadas por pessoas na faixa dos trinta ou quarenta anos buscando recolocação, hoje muitos entram direto do ensino médio.

No TikTok e no Instagram, a hashtag TradesVsCollege reúne vídeos virais de jovens mostrando quanto ganham como eletricistas, encanadores ou carpinteiros, comparando esses rendimentos com a dívida da faculdade. A valorização desses ofícios também ganhou força no debate político dos Estados Unidos, sobretudo entre correntes conservadoras mais críticas ao meio acadêmico.

Há, inclusive, uma ironia nesse cenário: em junho de 2026, a Meta anunciou um investimento de US$ 115 milhões para criar a America’s Workforce Academy, projeto voltado para qualificar mão de obra especializada na construção de data centers. No fim das contas, o próprio crescimento da inteligência artificial depende de eletricistas, técnicos e pedreiros capazes de erguer e manter suas instalações de pé.

Uma pesquisa da rede LinkedIn com a Censuswide, divulgada em dezembro de 2025, revelou que cerca de 63% dos jovens de 18 a 28 anos preferem uma profissão prática a um cargo de escritório — índice superior à média geral de 52% dos entrevistados.

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Além disso, 65% responderam que as ocupações técnicas e manuais ofereciam mais propósito, enquanto mais de 67% rejeitavam passar a vida inteira diante de uma tela respondendo a e-mails. A socióloga francesa Anne Jourdain pondera que essas transições de carreira ainda representam um grupo minoritário. Ainda assim, a IA vem funcionando como aceleradora de um descontentamento latente entre os anseios das novas gerações e o cotidiano do mercado corporativo.

As profissões manuais, claro, também trazem seus desafios: esforço físico constante, risco de lesões, jornadas puxadas e rotinas desgastantes. Além disso, elas não são imunes à automação no longo prazo, nem toda graduação acadêmica corre perigo iminente. Mesmo assim, os movimentos na França e nos Estados Unidos revelam uma fissura inédita na hierarquia profissional consolidada ao longo das últimas décadas.

Por muito tempo, o progresso foi associado a trocar o esforço físico por um emprego com ar-condicionado. Hoje, enquanto computadores aprendem a programar, criar imagens e redigir relatórios, parte da juventude descobre que o ativo mais seguro do futuro pode ser algo tão clássico quanto levantar uma parede, fabricar um móvel ou consertar um cano.

Matéria traduzida de Xataka*

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