Christopher Nolan passa toda A Odisseia falando-nos sobre os Povos do Mar; os especialistas sabem quais povos puseram fim à Grécia Antiga

Agora que os "Povos do Mar", da obra A Odisseia de Nolan, estão na boca do povo, chegou a hora de descobrir a que isso se refere

Christopher Nolan passa toda a *Odisseia* falando-nos sobre os Povos do Mar. Os especialistas sabem quais povos puseram fim à Grécia Antiga.
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Fabrício Mainenti

Redator

Não sei se isso aconteceu com você, mas saí do cinema me perguntando o que diabos eram, afinal, os "Povos do Mar" mencionados em A Odisseia, de Christopher Nolan. A verdade é que isso não foi uma liberdade criativa tomada pelo diretor para o filme — que resgata a obra épica de Homero —, mas sim o próprio nome utilizado por especialistas desde que o primeiro indício sobre eles foi descoberto, em 1855.

Se falamos sobre eles há tanto tempo, seria de se esperar que já soubéssemos quem realmente eram esses Povos do Mar, certo? Bem, receio que existam duas respostas: uma curta e uma longa. A resposta curta é que ninguém sabe ao certo de onde vieram esses povos — citados em A Odisseia como os responsáveis ​​pelo fim da Idade do Bronze. A resposta longa é que, se seguirmos as pistas, podemos descobrir quem eles realmente eram.

O que sabemos sobre os Povos do Mar em A Odisseia

Em suma, o que se sabe sobre os Povos do Mar em A Odisseia, de Nolan, é que, por volta de 1177 a.C., grupos não identificados de homens começaram a chegar por mar às costas do Mediterrâneo; eles saqueavam os estoques das cidades antes de arrasá-las completamente. Diz-se que alguns desses homens desapareceram enquanto outros permaneceram, mas a devastação que causaram foi tão severa que as cidades jamais se recuperaram.

Esse período é conhecido como o Colapso da Idade do Bronze e, no que diz respeito à datação da queda de impérios como o micênico (grego) e o hitita, os especialistas concordam com essa cronologia aproximada. A chave da questão reside no que descobrimos ao decifrar as inscrições egípcias que descreviam os ataques que eles também tiveram de enfrentar.

Graças aos registros de dois faraós diferentes, sabemos que o Egito Antigo também teve de lutar para repelir ataques de um grupo de inimigos que chegava pelo mar. O aspecto mais surpreendente do registro histórico — ao contrário da versão apresentada em A Odisseia, de Nolan — é que os escritos que celebram o triunfo de Ramsés III, em 1175 a.C., de fato registraram nomes específicos para esses Povos do Mar.

Hoje, nós os conhecemos como Sherden, Shekelesh, Ekwesh, Teresh, Tjekker, Denyen, Lukka, Peleset e Weshesh. No entanto, conhecemo-los por meio de uma língua que não registrava vogais — e cuja pronúncia permanece desconhecida —, o que nos obriga a buscar fonemas de sonoridade semelhante como ponto de referência.

A premissa é que, se conseguirmos determinar como eles se autodenominavam, talvez possamos rastrear suas origens. Como se pode imaginar, esse desafio não fez com que a arqueologia desistisse da busca.

O que Nolan não lhe conta sobre os Povos do Mar

Concentrando-se nesses fonemas, os arqueólogos identificaram várias semelhanças que ajudam a definir quem eram realmente os Povos do Mar. Por exemplo, sugere-se que os Sherden pudessem ser sardos; os Shekelesh, os sículos da Sicília; os Lukka, habitantes da Lícia; e os Teresh, os tirrenos — um grupo que mais tarde evoluiria para os etruscos. De qualquer forma, a parte mais fascinante vem a seguir.

Os Ekwesh, Ahhiyawa e Denyen estão intimamente ligados a Homero e à Odisseia: os Ekwesh podem muito bem ser os aqueus (o mesmo povo que os hititas chamavam de Ahhiyawa), enquanto os Denyen correspondem aos dánaos. Esses são os nomes que Homero utiliza para os vários povos gregos que sitiaram Troia.

Isso conecta todos os pontos, dando forma à teoria de que, em certo sentido, os temidos Povos do Mar eram, na verdade, tripulações de navios que retornavam para casa após a Guerra de Troia — navios que faziam paradas ao longo do caminho para saquear e buscar alimentos.

No entanto, embora essa reviravolta por si só já fosse satisfatória, existe outro elemento que complementa ainda mais a história da conexão de nossa civilização com os eventos narrados por Homero na Odisseia. Entre os nomes encontrados nessas inscrições egípcias, há um que ainda não definimos completamente: os Peleset.

Os especialistas identificam esse nome como uma referência aos filisteuso povo de Golias, conhecido pela Bíblia — e observam que é precisamente devido a esse nome, Peleset, que a região acabou ficando conhecida como Palestina.

De qualquer modo, os especialistas concordam unanimemente que os Povos do Mar foram apenas uma das muitas calamidades que assolaram a Grécia Antiga; juntamente com desastres naturais, doenças e guerras, uma megasseca avassaladora de 300 anos — iniciada em 1200 a.C. — desferiu o golpe final, deixando praticamente nenhuma daquelas civilizações capaz de se recuperar, com apenas algumas raras exceções.

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