O mapa definitivo da jornada de Ulisses em 'A Odisseia': o filme de Christopher Nolan, explicado de forma interativa

Tentamos realizar a tarefa mais difícil: simplificar o vai e vem desconcertante da jornada de Odisseu por um Mediterrâneo aparentemente infinito

O mapa definitivo da jornada de Ulisses em 'A Odisseia': o filme de Christopher Nolan, explicado de forma interativa.
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Fabrício Mainenti

Redator

Chegou o grande dia: a estreia de 'A Odisseia'. Exatamente três anos se passaram desde o último grande sucesso de Nolan que redefiniu o cinema tradicional — 'Oppenheimer' — e esta façanha homérica mira tão alto quanto.

]A nova aposta da Universal Pictures, que utiliza tecnologia IMAX de ponta, já se consolida como um marco na carreira do diretor Christopher Nolan — criador de obras-primas como 'Batman: O Cavaleiro das Trevas', 'Amnésia' e 'Interestelar' — um cineasta que jamais cedeu a nada que não fosse a sua própria visão pessoal.

Pois, para além das críticas sobre o uso de mármore branco em vez da policromia clássica, ou da tendência de deixar os atores incrivelmente sensuais em trajes de couro com tachas e capacetes estilizados, existe a questão da reconstituição histórica. Seria ela possível? Talvez.

Nós fizemos a nossa própria tentativa e temos algo historicamente mais preciso: um mapa. Mas não um mapa qualquer — uma rota dinâmica que percorre toda a jornada, ponto a ponto, traçando conexões entre fato e ficção.

Vamos embarcar juntos nesta grande epopeia mediterrânea. Deixamos o debate acadêmico para autoridades como Vinzenz Brinkmann, Barry Strauss e Robin Lane Fox.

Quando Homero escreveu 'A Odisseia' — provavelmente entre 750 e 700 a.C. — o mapa do Mediterrâneo terminava muito antes das fronteiras atuais da Europa. Além dali, havia monstros, deuses caprichosos, ilhas impossíveis e um oceano que ninguém ousava descrever.

Dois mil e setecentos anos depois, a grande questão permanece a mesma: por onde Ulisses realmente viajou? E — por que não perguntar? — será que ele chegou ao que hoje conhecemos como Espanha?

A resposta curta é não. A resposta longa é muito mais fascinante. Temos os relatos históricos de Estrabão, Heródoto, Avieno, Píndaro, Apolônio de Rodes, Diodoro Sículo e Plínio, o Velho. Suas referências explicam como Gibraltar, Tartessos e o sul da Hispânia passaram a integrar o imaginário homérico, embora o próprio Homero nunca os tenha mencionado.

Esse aspecto é frequentemente ignorado, mas queremos examiná-lo a fundo. Vamos voltar àquele momento decisivo.

Tudo começou com uma guerra que (talvez) tenha realmente acontecido

A 'Odisseia' tem início após o fim da Guerra de Troia. Ulisses — ou Odisseu, como preferir — tenta retornar a Ítaca após dez anos de combates. Eis uma cronologia histórica aproximada para situar o cenário:

  • c. 1250–1180 a.C.: possível Guerra de Troia;
  • c. 1170 a.C.: a jornada de Odisseu;
  • c. 750–700 a.C.: Homero escreve a Odisseia;
  • Séculos VII–VI a.C.: chegada dos gregos à Península Ibérica.

Arqueólogos modernos acreditam que um conflito real de fato ocorreu. Escavações em Hisarlik, na Turquia, comprovaram a existência de Troia e que uma de suas cidades foi destruída por volta de 1200–1180 a.C., bem no final da Idade do Bronze. É difícil saber se Aquiles, Heitor ou Ulisses realmente existiram, mas o contexto histórico é compatível com uma grande guerra entre reinos do Egeu.

Se essa guerra inspirou o poema, a jornada de Ulisses teria ocorrido por volta de 1170 a.C. No entanto, a história que conhecemos hoje foi escrita cerca de quatro séculos mais tarde; nessa época, muitas daquelas memórias já haviam se entrelaçado com a lenda.

Dez anos vagando pelo Mediterrâneo

Como qualquer leitor se lembra, a jornada de Ulisses começa nas ruínas de Troia: "Conta-me, Musa, a história do homem de muitos caminhos que, após destruir a cidade sagrada de Troia..." — assim começa o primeiro verso do Livro I. 

Destruída violentamente por volta de 1180 a.C., Troia VIIa é a principal candidata a ser a cidade que inspirou o conflito, segundo o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann, que partiu em busca do local real em 1871. De lá, ele navega até Ismaro, a cidade dos Cícones, na costa da atual Trácia.

Em seguida, vêm os Lotófagos, cujo fruto faz esquecer o desejo de voltar para casa; a ilha do ciclope Polifemo; o reino de Éolo, guardião dos ventos; os Lestrigões, gigantes devoradores de homens; a ilha de Circe; a descida ao Hades; a passagem pelas Sereias; o estreito guardado por Cila e Caríbdis; a Ilha do Sol, onde seus homens sacrificam o gado sagrado de Hélio; a ilha de Calipso, onde ele permanece cativo por sete anos; a terra dos feácios; e, finalmente, Ítaca — aquela pequena ilha do Mar Jônico que alguns autores insistem não dever ser identificada com a Ítaca da epopeia.

Seria, talvez, Lêucade, Cefalônia, Dulíquio ou Corfu? Isso não importa. A realidade é que a rota de Odisseu tem uma extensão estimada entre 3.800 quilômetros (dos 40° Leste — Troia — aos 6° Oeste — o Hades de Gibraltar) e 4.650 quilômetros, cobrindo uma área de mais de cinco milhões de quilômetros quadrados — perfeitamente navegável em um mar tão vasto.

É claro que existem teorias de localização que sugerem lugares tão distantes quanto a Irlanda, o Mar Negro ou os Açores — ou até mesmo que a ninfa Calipso manteve Ulisses cativo por sete anos na Ilha de Perejil. O que é certo — pois o livro assim o afirma — é que a jornada durou dez anos (vinte, se contarmos da partida ao retorno): quando ele finalmente volta, seu filho Telêmaco já é adulto e quase não guarda lembranças do pai. Vou listá-los novamente, pois isso facilita o acompanhamento:

  • Troia;
  • Ismaro (Cícones);
  • Terra dos Lotófagos;
  • Ciclopes;
  • Éolo;
  • Lestrigões;
  • Circe;
  • Hades;
  • Sereias;
  • Cila e Caríbdis;
  • Trinácia;
  • Ogígia;
  • Esquéria;
  • Ítaca

Muitos desses lugares podem ser associados a locais reais. As Sereias são frequentemente situadas ao largo da costa da Campânia. Cila e Caríbdis remetem ao Estreito de Messina, entre a Sicília e a Calábria. A ilha de Circe foi identificada com o Monte Circeo, ao sul de Roma.

Outros episódios permanecem abertos a interpretações, pois Homero nunca fornece coordenadas precisas; quem aponta um local específico em seu mapa narrativo é, com demasiada frequência, influenciado por um viés de proximidade. O Mediterrâneo de Homero assemelha-se menos a um atlas e mais a um espaço de livre exploração.

Gibraltar era o verdadeiro fim do mundo

Até mesmo a Espanha faz parte desse cenário. Quando Homero escreveu a 'Odisseia', os gregos conheciam a extremidade ocidental do Mediterrâneo, mas pouco além disso. No entanto, entre os séculos VII e VI a.C., começaram a navegar para mais longe e fundaram colônias como Empórion (a atual Empúries), comercializando com os fenícios e descobrindo um território extraordinariamente rico em metais: Tartessos.

Prata, cobre e estanho abundavam em Tartessos — o que não surpreende, dada a sua localização entre as fozes dos rios Guadalquivir e Guadiana, servindo tanto como porta de entrada natural quanto como polo econômico.

Contudo, nenhum lugar simboliza melhor essa transformação mítico-histórica do que o Estreito de Gibraltar (Gadir). Ali, o Mediterrâneo — o Mediterrâneo de Serrat — desaparecia, dando lugar a um oceano imenso; era o fim da linha. A separação entre os dois continentes, África e Europa, era marcada pelas Colunas de Hércules.

O Rochedo de Gibraltar e o Monte Jebel Musa, na costa marroquina, já formaram uma única ponte terrestre contínua. Esse portal, que separava o mundo civilizado do desconhecido além-mar, representa o primeiro elo entre a Odisseia e a Península Ibérica.

E indo mais longe: o Jardim das Hespérides — onde árvores que produziam maçãs de ouro eram guardadas por um dragão — situa-se na costa atlântica do Norte da África ou até mesmo nas Ilhas Afortunadas, identificadas séculos mais tarde como as Ilhas Canárias.

A jornada de Ulisses que ainda não chegou ao fim

Imagens | Tomás Fernández e Elena Tamaro em "Resumo da Odisseia de Homero" / *A Odisseia* (2026, Universal Pictures)

Visto da perspectiva do século XXI, Ulisses parece navegar com um GPS quebrado. Ele estava irremediavelmente perdido, vagando pelo mar sem rumo, como um capitão embriagado. A culpa não era dele, é claro: depois de cegar o ciclope Polifemo, Poseidon transformou cada tentativa de retornar a Ítaca em uma nova derrota.

Tempestades, correntes, ventos e naufrágios obrigaram o herói a percorrer milhares de quilômetros extras. A Odisseia é a maior "trollagem" épica de todos os tempos. Esperamos que este mapa ajude a ilustrar isso.

E parece que Nolan optou por uma perspectiva épica — uma releitura autoral que prefere abordar o pecado original e a subjetividade dentro de um universo de filmes de aventura épica clássica ("espada e sandália"), em vez de buscar o máximo rigor histórico. Ou a comédia — que é sempre bem-vinda.

Há dois mil anos, os navegadores gregos já sabiam como criar grandes Telemáquias. Nolan descarta grande parte do texto original para concentrar a força da obra na poesia visual. As piadas, nós mesmos faremos.

Imagens | Tomás Fernández e Elena Tamaro em "Resumo da Odisseia de Homero" / A Odisseia (2026, Universal Pictures)

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