Uma comunidade indígena na fronteira entre Peru e Bolívia vive em ilhas flutuantes feitas à mão com palha que desafiam a engenharia moderna

Sem concreto, fundações e solo firme, povos Uros construíram uma cidade flutuante que desafia a lógica da engenharia moderna no Lago Titicaca

Titicaca
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Natália P. Martins

Redatora

Entre o Peru e a Bolívia está o Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo, a cerca de 3.800 metros acima do nível do mar. Em meio às águas desse gigantesco lago existe um dos lugares mais incomuns da América do Sulilhas flutuantes artificiais que servem de casa para uma comunidade indígena há séculos.

Construídas inteiramente com uma planta aquática chamada totora, essas ilhas não possuem fundações de concreto nem contato com o solo. Elas precisam de manutenção constante para continuar flutuando e sustentam casas, escolas, barcos e a rotina de centenas de moradores do povo Uros.

Ilhas flutuantes foram construídas como estratégia de sobrevivência

As Ilhas Flutuantes de Uros ficam na porção peruana do Lago Titicaca, próximo à cidade de Puno. Atualmente, existem cerca de uma centena de ilhas artificiais habitadas por aproximadamente 1.800 pessoas.

Os Uros são considerados um dos povos mais antigos do Altiplano Andino. Pesquisadores estimam que eles habitam na região há cerca de 3 mil anos, muito antes da expansão do Império Inca.

Segundo a tradição local, a construção das ilhas surgiu como uma estratégia de sobrevivência. Em períodos de conflitos e disputas territoriais, a comunidade abandonou as margens do lago e passou a viver sobre plataformas flutuantes, que podiam ser deslocadas quando necessário para escapar de invasores.

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Elas são construídas com uma planta que cresce no próprio lago

Toda a estrutura das ilhas depende da totora, uma planta aquática abundante no Titicaca. A construção começa pela retirada de grandes blocos naturais formados pelas raízes entrelaçadas da planta. Esses blocos funcionam como uma espécie de fundação flutuante.

Sobre essa base, os moradores empilham várias camadas de totora seca, formando plataformas com aproximadamente dois metros de espessura.

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Depois disso, toda a ilha é presa ao fundo do lago por cordas e estacas, impedindo que seja levada pelo vento ou pelas correntes.

A mesma planta também serve para praticamente tudo na comunidade. Com ela são construídas casas, barcos tradicionais, móveis, artesanato e até parte da alimentação dos moradores.

Manutenção nunca termina e acontece praticamente o ano inteiro

Como a parte inferior das ilhas permanece em contato com a água, a totora apodrece lentamente. Para evitar que a estrutura afunde, os moradores continuam a adicionar novas camadas da planta constantemente.

Durante a estação das chuvas, a manutenção costuma ocorrer toda semana. Nos períodos mais secos, normalmente é realizada uma vez por mês.

Com esses cuidados permanentes, uma ilha pode durar cerca de 30 anos antes de precisar ser completamente reconstruída.

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Casas pequenas, tradição preservada e um modo de vida único

Cada ilha abriga normalmente entre três e dez famílias que residem em casas simples também construídas com totora.  

Ao longo dos séculos, o idioma original dos Uros acabou desaparecendo. Atualmente, a maioria da população fala aimará, quéchua e espanhol.

Além disso, ao longo dos anos, a movimentação da economia nas ilhas também mudou. Antigamente, a sobrevivência dependia principalmente da pesca, da caça de aves e da coleta da totora. Hoje em dia, o turismo se tornou a principal fonte de renda da comunidade.

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Os visitantes podem conhecer as ilhas, navegar nos barcos feitos de junco e comprar artesanato produzido pelos próprios moradores, atividade que ajuda a financiar a preservação desse patrimônio cultural.

Imagens: Shutterstock

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