Em meados do século 20 aprendemos como as asas deveriam ser feitas — agora pesquisadores descobrem que estávamos errados há 80 anos

Cientistas acabam de colocar dogma à prova

Reprodução
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
barbara-castro

Bárbara Castro

Redatora

Comerciais de lâminas de barbear e as convicções de engenheiros aeronáuticos têm surpreendentemente muito em comum. Ambos compartilham o mesmo dogma: quanto mais liso, melhor.

Enquanto o primeiro faz todo o sentido, os cientistas começam agora a questionar o segundo. Durante décadas, asas e fuselagens perfeitamente lisas foram consideradas o padrão de excelência na aviação. De acordo com o consenso científico, essa seria a única forma de minimizar o arrasto aerodinâmico — o que, no fim das contas, economiza combustível.

Agora, uma equipe no Japão derrubou esse princípio de 80 anos da dinâmica dos fluidos: as asas, na verdade, deveriam ser rugosas.

As asas precisam de mais imperfeições

O princípio por trás da descoberta parece simples, mas exigiu tecnologia de ponta. Quando os pesquisadores dizem que é "melhor não ser liso, mas sim rugoso", eles estão falando de algo essencialmente liso, mas com microasperezas em uma escala milimetricamente calculada.

As imperfeições na superfície que reduzem o arrasto aerodinâmico em até 43,6% são minúsculas. Trata-se do conceito de "Distributed Micro-Roughness" (DMR), ou microrrugosidade distribuída.

Imagine uma camada ultrafina repleta de desfiladeiros microscópicos. Essa textura irregular é aleatória e existe apenas em escala microscópica — a olho nu, seria impossível notar qualquer diferença. Para você, a superfície pareceria perfeitamente polida.

Como foram os testes em detalhes

Os pesquisadores testaram duas abordagens: padrões salientes criados com microesferas de vidro sobre uma superfície perfeitamente uniforme e pequenas concavidades esculpidas por jateamento de areia. Em ambos os casos, os sulcos e orifícios nunca ultrapassavam 50 micrômetros de profundidade — na maioria das vezes, eram ainda menores. Isso equivale, a grosso modo, à espessura de um fio de cabelo humano.

Do ponto de vista físico, o ar que atinge a asa simulada em alta velocidade é obrigado a acompanhar o contorno do material. Quando o fluxo de ar encontra um corpo sólido, ele adere à superfície, formando a chamada camada-limite. É dentro dessa camada que o ar reage diretamente à textura por onde passa. Acima dela, o ar continua se movendo sem ser perturbado pelo contato com a aeronave.

Inicialmente, a direção do fluxo na camada-limite permanece estável, mas logo surgem vórtices e redemoinhos. Eles geram a resistência que o avião precisa vencer com seus motores. A microrrugosidade distribuída (DMR) atua suprimindo o avanço das chamadas ondas de Tollmien-Schlichting — oscilações instáveis que, sem interferência, se transformariam em pura turbulência. Graças à superfície microscopicamente irregular, pequenos impulsos atuam sobre o ar e fazem com que esses grandes vórtices entrem em colapso antes mesmo de ganharem força.

Dessa forma, a DMR acalma o fluxo de ar diretamente acima dela por tempo suficiente para fazer toda a diferença. Na aerodinâmica, esse efeito é conhecido como o atraso na transição do fluxo laminar (suave) para o fluxo turbulento (agitado).

Além dos resultados promissores, o próprio experimento foi um espetáculo à parte. Os pesquisadores japoneses utilizaram um método inovador de sustentação de maquetes em túneis de vento: o sistema de balança por levitação magnética de 1 metro da Universidade de Tohoku.

Nesse sistema, o modelo de teste flutua em um campo magnético em pleno fluxo de ar. Isso elimina completamente as hastes de suporte obrigatórias nos testes tradicionais, que costumam perturbar o fluxo. Foi essa ausência de interferências mecânicas que permitiu medir com extrema precisão as sutis variações de arrasto geradas pela técnica.

Da teoria ao túnel de vento... e quando chega à prática?

Apesar dos resultados animadores, é preciso manter os pés no chão. Embora os cálculos teóricos tenham sido comprovados nos testes práticos, todos os dados obtidos até agora se aplicam exclusivamente a um modelo aerodinâmico simplificado e em escala reduzida dentro do túnel de vento.

Além da incerteza sobre se o revestimento funcionará em tamanho real na asa de uma aeronave comercial, resta um grande desafio: como manter essa superfície limpa? Afinal, essas microcavidades correm o risco de se tornarem verdadeiros ímãs de sujeira e resíduos, o que acabaria gerando o efeito oposto e freando o avião.

No entanto, se os cientistas conseguirem aperfeiçoar a tecnologia e resolver a questão do acúmulo de sujeira, a DMR poderá se tornar um novo padrão não apenas na aviação. Em tese, esse efeito aerodinâmico passivo também poderá ser adaptado para carros, caminhões e trens de alta velocidade no futuro.

Matéria traduzida de GameStar*

Inicio