Em Helsinque, um pai pode levar a filha para pular em um trampolim e, de repente, a poucos metros de distância, encontrar uma porta de aço pesando várias toneladas esperando para ser selada em caso de ataque nuclear. A Finlândia está geograficamente localizada em um ponto crítico no meio de guerras. Mas, como o The Times aponta, eles não estão despreparados para o caso de um cenário nuclear, já que seus centros de defesa incorporam tudo, incluindo atividades de entretenimento.
A Finlândia divide com a Rússia a fronteira mais longa de todo o território da OTAN, mais de 1.300 quilômetros, e, desde que ingressou na Aliança em 2023, passou da neutralidade que historicamente possuía para se tornar um dos objetivos declarados de Moscou. Nas últimas semanas, um deputado russo chegou a afirmar que o país tem capacidade militar para "explodir metade da Finlândia", segundo o Kyiv Independent.
O lado oposto dessa ameaça é um país que se prepara para a guerra desde antes da existência da Guerra Fria, e que hoje não tem vergonha em exibir naturalmente uma infraestrutura de defesa civil que poucos países europeus conseguem igualar.
Sob as ruas de Helsinque há uma cidade paralela com 5.500 abrigos capazes de acomodar quase um milhão de pessoas, disse Jukka-Pekka Schroderus, chefe do Departamento de Resgate da cidade, ao The Times. A lei finlandesa exige que qualquer novo edifício de certo tamanho inclua um bunker, e o maior de todos, no bairro Merihaka, ocupa 15.000 metros quadrados, vinte metros de profundidade e pode acomodar 6.000 pessoas.
Embora não haja guerra, esses espaços funcionam como áreas de piscina olímpica com toboáguas, saunas, skateparks, campos de futsal, paredes de escalada e até salas de ensaio para grupos de heavy metal. Schroderus diz que os bunkers são alugados para uso diário justamente para que, se um dia precisarem ser fechados, as pessoas já saibam como se mover ao redor deles.
Segundo a mídia, cada abrigo possui seu próprio gerador, tanques de água, kits de descontaminação e camas para apenas um terço de sua capacidade, pois o sistema foi projetado para que, em todos os momentos, um terço dos ocupantes descanse, outro terço trabalhe e outro terço realize tarefas de manutenção, como explica Schröderus. Cada pessoa receberia 50 litros de água, mas nada de comida, já que, segundo a mídia, todo finlandês é recomendado manter uma mochila de sobrevivência em casa por 72 horas. Animais de estimação, com exceção, ficam de fora.
Vale ressaltar que a Finlândia mantém serviço militar obrigatório para homens a partir dos 18 anos, organiza cursos de defesa para jornalistas e executivos, e treina a população civil em tarefas tão específicas quanto montar cozinhas de campanha ou detectar drones.
A tensão com Moscou se intensificou nos últimos meses. Em março, a Finlândia anunciou que suspenderia sua histórica proibição de abrigar armas nucleares em seu território, a fim de integrar-se ao planejamento nuclear da OTAN, segundo o presidente finlandês Alexander Stubb. O Kremlin respondeu imediatamente, com seu porta-voz, Dmitry Peskov, alertando que essa decisão "adiciona vulnerabilidade" à Finlândia e que a Rússia "tomará as medidas adequadas" caso o país nórdico implante armas nucleares em seu território, segundo a Reuters. Essa regra na Finlândia entrou em vigor em 1º de julho.
Em junho, o país deu mais um passo ao anunciar um acordo com a empresa americana Lockheed Martin para construir o primeiro centro de manutenção da Europa para sistemas de lançamento múltiplo de foguetes em Tampere. Como esperado, a Rússia não gostou nem um pouco disso. O deputado Alexei Zhuravlov acusou Helsinque de se tornar "uma segunda Ucrânia" e disse que a Rússia já concentra equipamentos militares suficientes na fronteira para causar danos massivos ao país, segundo o Kyiv Independent.
A ex-assessora da Casa Branca, Fiona Hill, coautora da revisão estratégica de defesa do Reino Unido, descreveu a Finlândia como a nação "prepper" definitiva e reconheceu que outros países ocidentais, começando pelo seu próprio, estão muito atrás em preparação real para a sociedade civil, segundo o The Times. Portanto, não é surpreendente que líderes de países como Ucrânia, Reino Unido, Israel e vários países do Golfo tenham viajado a Helsinque nos últimos meses para estudar seu modelo de preparação.
Matéria traduzida de Xataka*
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