"Estamos entrando em uma nova era aterradora" alerta Dr. Bartov, especialista em estudos sobre o Holocausto e genocídio, após a impunidade na guerra de Gaza ditar novas regras geopolíticas que transforma atrocidades em negócios altamente lucrativos

Especialista alerta que a impunidade em Gaza pode abrir caminho para um modelo em que guerras também geram oportunidades econômicas

imagem retratando a guerra produzida por IA
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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No último sábado (18/7), o governo do Irã anunciou oficialmente o fim do acordo de paz com os Estados Unidos após a sétima noite consecutiva de ataques americanos. A decisão ocorre após uma semana de bombardeios americanos que, segundo o governo iraniano, deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos. O episódio reativou a tensão no Oriente Médio e trouxe um questionamento: quando guerras se prolongam e a responsabilização depende de interesses geopolíticos, a destruição causada pela guerra pode acabar criando oportunidades de poder, influência e negócios para governos e investidores. 

Essa é a avaliação do historiador Omer Bartov, professor de estudos sobre o Holocausto e genocídio na Universidade Brown, em artigo publicado pelo The New York Times. Para o especialista, a falta de responsabilização pelas ações cometidas em Gaza pode criar um precedente perigoso para o futuro. Segundo ele, a impunidade não apenas enfraquece as leis criadas após a Segunda Guerra Mundial para prevenir e punir genocídios, como também abre espaço para que a destruição provocada por conflitos seja seguida por interesses políticos e econômicos de lucrar com a reconstrução dos territórios devastados. 

Como a impunidade em Gaza pode transformar a resposta do mundo aos genocídios ?

Desde que grandes impérios começaram a explorar o mundo e expandir seus territórios, a história da humanidade foi marcada por episódios de extermínio em massa. Da morte de milhares de povos indígenas após a colonização das Américas ao Holocausto promovido pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes povos foram perseguidos, expulsos de suas terras e, em muitos casos, quase exterminados. Foi a partir dessas tragédias que surgiu a necessidade de criar proteções internacionais para impedir que crimes dessa dimensão voltassem a acontecer.

Mas foi só depois da Segunda Guerra Mundial que o mundo passou a tratar o genocídio como um crime que deveria ser punido internacionalmente. Com a derrota da Alemanha nazista, os principais responsáveis pelo Holocausto foram julgados no Tribunal de Nuremberg. Esse julgamento serviu de base para a criação da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, aprovada pela ONU em 1948.

julgamento de Nuremberg Os julgamentos de Nuremberg, após a Segunda Guerra Mundial, ajudaram a consolidar o princípio de que crimes contra a humanidade deveriam ser julgados internacionalmente

Outros casos também terminaram com algum tipo de responsabilização após a queda dos regimes responsáveis, como no Camboja, em Ruanda e na Bósnia. Mesmo tardios e incompletos, esses processos estabeleceram uma mensagem central: crimes como esse não deveriam ser tratados como consequências inevitáveis de uma guerra.

O problema, segundo Bartov, aparece quando esse mecanismo deixa de funcionar. No início do século XX, por exemplo, os povos Herero e Nama foram vítimas de uma campanha de extermínio conduzida pelo Exército Imperial Alemão no território que hoje corresponde à Namíbia. Milhares morreram em expulsões forçadas, campos de trabalho e assassinatos. Anos depois, a ausência de uma punição proporcional permitiu que o episódio permanecesse sem o mesmo peso internacional de outros genocídios. Situação bem semelhante ocorreu com os armênios no Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. Milhares foram mortos ou morreram durante deportações forçadas, mas as tentativas de responsabilizar autoridades envolvidas fracassaram, e a Turquia continua rejeitando a classificação dos acontecimentos como genocídio.

É essa diferença histórica que alimenta o alerta sobre Gaza. O conflito atual começou após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas e levou mais de 250 reféns. A resposta israelense desencadeou uma ofensiva militar gigante na Faixa de Gaza, onde organizações humanitárias relatam dezenas de milhares de mortos, destruição da infraestrutura civil, colapso dos serviços médicos e uma crise alimentar extrema.

Para Bartov, a operação israelense atingiu o patamar definido pela Convenção sobre Genocídio de 1948. Israel, porém, rejeita as acusações de genocídio e afirma agir em resposta aos ataques do Hamas para garantir sua segurança. A disputa jurídica continua em tribunais internacionais, mas o debate central levantado pelo especialista é outro: o que acontece quando acusações dessa gravidade não geram consequências aos países envolvidos?

A reconstrução de Gaza e os interesses econômicos por trás do conflito

Cidade de gaza destuidac A guerra destruiu bairros inteiros da Faixa de Gaza e agravou a crise humanitária

A grande preocupação apresentada por Bartov é que a ausência de responsabilização pode permitir uma transformação perversa: conflitos podem acabar movimentando grandes interesses econômicos. No caso de Gaza, após meses de guerra, o país enfrenta um caos nacional, com cidades destruídas, falta de infraestrutura básica e uma população deslocada. Ao mesmo tempo, planos de reconstrução apresentados por lideranças internacionais passaram a discutir uma transformação completa do território, com investimentos bilionários e uma possível remodelação econômica da região.

Na visão crítica do especialista, esse mesmo processo que destruiu uma sociedade pode abrir espaço para novos negócios envolvendo imóveis, infraestrutura e investimentos estrangeiros. A chamada “Nova Gaza”, citada em propostas políticas, representaria uma reconstrução baseada em grandes projetos urbanos e econômicos. O risco apontado por Bartov é que esse modelo ignore a população que já vivia no território, transformando palestinos em trabalhadores de uma nova economia construída sobre a ruína do próprio país.

Além do mercado imobiliário, outro setor que se beneficia diretamente de conflitos é a indústria militar. Segundo dados citados pelo jornal israelense Calcalist, as exportações de armas de Israel cresceram e atingiram valores recordes, calculados em US$19,2 bilhões. O motivo é que equipamentos e sistemas militares utilizados durante as operações em Gaza passaram a ser comercializados com um diferencial: já foram testados em situações reais de combate, característica que aumenta seu apelo para governos interessados em adquirir esse tipo de tecnologia. Nesse caso, a guerra acaba movimentando cadeias econômicas inteiras, envolvendo fabricantes de armas, empresas de infraestrutura, investidores e governos interessados em ampliar influência estratégica.

A guerra em Gaza marca uma nova era de conflitos? Especialista acredita que sim

O que está em debate hoje vai muito além do que está acontecendo em Gaza. Para especialistas, o conflito testa as regras internacionais criadas depois da Segunda Guerra Mundial para impedir que atrocidades como o genocídio se repitam. A questão central é saber se esses mecanismos internacionais conseguem, de fato, responsabilizar os envolvidos quando existem interesses políticos e geopolíticos envolvidos. 

O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por acusações relacionadas a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Paralelamente, a Corte Internacional de Justiça analisa uma ação apresentada pela África do Sul que acusa Israel de violar a Convenção do Genocídio, acusações negadas pelo governo israelense. Apesar disso, a aplicação de decisões internacionais enfrenta obstáculos políticos, especialmente quando países poderosos oferecem apoio diplomático aos envolvidos.

Para Bartov, é justamente aí que está o maior risco. Se alianças estratégicas e interesses econômicos prevalecem sobre a responsabilização, o sistema criado após a Segunda Guerra Mundial para prevenir e punir genocídios perde sua eficiência.  A consequência, nesse caso, não seria apenas sobre Gaza, mas sobre todos os conflitos futuros. 

Se governos perceberem que uma guerra pode terminar com ganhos territoriais, financeiros ou políticos sem punição significativa, a própria ideia de que genocídio é um crime excepcional pode começar a desaparecer. O alerta do historiador é que o mundo pode estar entrando em uma “nova era aterradora”, em que atrocidades deixam de ser vistas como tragédias humanas e passam a ser calculadas dentro de estratégias de poder


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