Se a pergunta é "o que vamos comer no espaço?", a Agência Espacial Europeia (ESA) é clara em sua aposta: grilos

  • Insetos vêm demonstrando capacidade de suportar microgravidade há décadas.

  • ESA está estudando se espécies como grilos e larvas de tenébrio podem servir de alimento em órbita

Imagem | ESA, NASA
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PH Mota

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Por anos, muitos de nós consideramos os insetos algo estranho à nossa mesa, mas eles fazem parte da história espacial há muito mais tempo do que imaginamos. Mesmo antes dos primeiros astronautas serem colocados em órbita, essas pequenas espécies já haviam demonstrado que podiam suportar as condições do voo. Hoje, com missões de longa duração no horizonte, a conversa mudou.

A Europa questiona se esses animais, tão nutritivos e fáceis de criar, poderiam se tornar uma opção real para alimentar aqueles que vivem longe da Terra.

Embora ainda sejam uma raridade culinária no Brasil e vários outros países, os insetos fazem parte da dieta regular de bilhões de pessoas. A FAO estima que mais de 2 mil espécies sejam consumidas em diferentes continentes, valorizadas por sua contribuição de proteínas, ferro, zinco e gorduras benéficas. Sua capacidade de se desenvolver com poucos recursos e transformar resíduos em biomassa útil os torna candidatos atraentes para sistemas alimentares controlados. É por isso que diversas equipes europeias analisam seu potencial nutricional e viabilidade em ambientes onde cada grama conta.

O que sabemos em microgravidade?

A pesquisa com insetos no espaço acumulou décadas de dados, desde os primeiros voos suborbitais até testes em estações orbitais. Nessa jornada, diferentes espécies foram testadas, com resultados muito diversos: algumas conseguiram completar fases essenciais do ciclo de vida em microgravidade, enquanto outras mostraram sensibilidade a fatores como movimento ou radiação. Esse contraste tem sido útil para entender quais mecanismos biológicos permanecem estáveis ​​fora da Terra e quais processos são alterados mesmo em organismos altamente resistentes.

A equipe europeia trabalha com uma ideia específica: conhecer em detalhes como esses organismos se comportam em fases-chave de seu desenvolvimento quando passam longos períodos em órbita. A agência reuniu diversos perfis para estudar sua capacidade de reciclar nutrientes e produzir proteínas em condições controladas, uma linha de pesquisa que já conta com espécies candidatas como o grilo comum e o tenébrio. Essa pesquisa visa esclarecer quais requisitos biológicos devem ser atendidos antes de se considerar sua produção em missões de longa duração.

Habitat para a mosca-da-fruta usada em pesquisas científicas no espaço Habitat para a mosca-da-fruta usada em pesquisas científicas no espaço

Não é novidade

Embora haja um longo histórico de testes com insetos, muitos desses resultados são dispersos e provêm de missões curtas. A maioria dos experimentos não alcançou tempos que permitam acompanhar o ciclo de vida completo de uma espécie, um requisito essencial para avaliar seu uso em missões prolongadas. Além disso, grande parte dessa pesquisa é antiga e utilizou metodologias diferentes, o que dificulta a comparação entre elas. É por isso que a ESA está preparando novos estudos especificamente voltados para medir as mudanças na reprodução, desenvolvimento e comportamento em órbita.

A experiência da NASA com a Drosophila melanogaster provou ser útil como organismo modelo para a compreensão das mudanças fisiológicas no espaço. A agência destaca que ela compartilha boa parte dos genes relacionados a doenças humanas e que sua reprodução acelerada facilita a análise de várias gerações. O Laboratório da Mosca-da-Fruta, instalado na Estação Espacial Internacional, permite acompanhar seu comportamento e congelar amostras para estudo em solo. Ele também incorpora uma centrífuga que ajuda a distinguir quais efeitos dependem da gravidade e quais estão ligados à radiação espacial.

Astronauta James D. “Ox” Van Hoften examina um experimento com abelhas Astronauta James D. “Ox” Van Hoften examina um experimento com abelhas

Do laboratório ao cardápio

Por enquanto, o uso de insetos como alimento em missões espaciais continua sendo uma linha de estudo e não uma aplicação imediata. Os pesquisadores precisam verificar como eles se comportam em fases prolongadas e o que significaria criá-los de forma estável em módulos habitados. Soma-se a isso o desafio de transformar essa biomassa em produtos seguros, gerenciáveis ​​e aceitáveis ​​do ponto de vista nutricional e sensorial. Tudo caminha na direção de explorar opções, e não de incorporá-las automaticamente ao cardápio dos astronautas.

Imagens | ESA, NASA

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