Imagens de satélite não deixam dúvidas: China concentrou milhares de barcos de pesca na costa do Japão, e sua intenção não é pescar

Analistas interpretam concentrações como exercícios de mobilização e coordenação dentro do plano de fusão civil-militar promovido por Pequim

Imagens | Planet Labs, Marine Traffic, Anna Frodesiak, Micromesistius
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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O Mar da China Oriental tem sido um dos cenários mais sensíveis de equilíbrio estratégico na Ásia há décadas. Disputas territoriais, rivalidades históricas e o crescente peso de novas potências transformaram essas águas num espaço onde cada movimento é observado com atenção. Ali, gestos aparentemente insignificantes tendem a se encaixar em dinâmicas muito mais profundas, e a China acaba de fazer um movimento.

Pavio diplomático

A detenção, pelo Japão, de um barco de pesca chinês dentro de sua zona econômica exclusiva, a cerca de 170 quilômetros de Nagasaki, reacendeu uma relação já deteriorada entre Tóquio e Pequim, tendo uma certa ilha como pano de fundo.

A prisão do capitão, após se recusar a ser inspecionado, ocorre num contexto de crescente disputa, marcada por declarações japonesas sobre Taiwan e subsequentes alertas chineses a seus cidadãos para que evitem viagens ao Japão. Portanto, não se trata de um episódio isolado, mas sim da faísca visível de uma tensão marítima que vinha se acumulando há semanas.

Imagens do espaço

Dados do AIS e imagens de satélite mostram concentrações sem precedentes de até 2 mil barcos de pesca chineses alinhados perto da linha mediana entre os dois países no Mar da China Oriental.

As formações, com centenas de quilômetros de extensão e barcos separados por menos de 500 metros, permaneceram em posições estáticas por mais de 24 horas, apesar das condições climáticas adversas. Em outras palavras, a China estava concentrando milhares de barcos de pesca na costa do Japão, e sua intenção não era exatamente pescar.

China

Milícia marítima e "zona cinzenta"

A grande maioria desses barcos de pesca faz parte da chamada milícia marítima chinesa, uma rede civil que coopera com o Estado e o exército em operações que não chegam ao limiar de um conflito armado.

A priori, essa estratégia permite exercer pressão sem o uso formal de forças navais, dificultando, assim, uma resposta direta. Ou seja, o que é apresentado como atividade econômica pode se tornar um teste de controle marítimo ou mesmo a interrupção de rotas comerciais na primeira cadeia de ilhas.

Taiwan como pano de fundo

As manobras coincidem com declarações do governo japonês alertando que uma crise no Estreito de Taiwan representaria uma ameaça existencial para o Japão.

Pequim, por sua vez, considera a ilha parte de seu território e não descarta o uso da força, enquanto Tóquio reforça sua postura de dissuasão. Nesse contexto, cada movimento no Mar da China Oriental assume um significado que vai além da pesca e se integra ao cálculo estratégico regional.

Padrão de pressão constante

Além disso, a atividade não se limita a frotas civis. O jornal The Guardian lembrou que a guarda costeira chinesa bateu recordes de presença ao redor das Ilhas Senkaku, também conhecidas como Diaoyu na China, e divulgou, pela primeira vez, imagens de patrulhas em águas disputadas.

O porta-aviões Liaoning ainda expandiu seu raio de operações próximo a Okinawa, enquanto Pequim avança com infraestrutura em seu lado da linha mediana marítima.

Mais do que barcos, um ensaio

Analistas interpretam esses movimentos como exercícios de mobilização e coordenação dentro do plano de fusão civil-militar promovido por Pequim. Não há dúvida de que a capacidade de reunir milhares de embarcações civis em um ponto estratégico em pouco tempo envia uma mensagem bastante clara sobre a possibilidade de, por exemplo, saturar os espaços marítimos sem recorrer abertamente à força.

Dessa forma, a mensagem não é mais apenas bilateral, mas sim um alerta para toda a região: a China está aprimorando ferramentas para moldar o equilíbrio do Indo-Pacífico, e está fazendo isso sem disparar um único tiro.

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