Psicólogos concordam: quem cresceu brincando na rua até escurecer não vê essa infância como descuido, mas como um treinamento precoce

Depois de décadas tentando eliminar qualquer risco da infância, talvez seja hora de repensar essa ideia

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Em 1971, um estudo pioneiro do psicólogo Roger Hart pediu a dezenas de crianças que desenhassem um mapa dos lugares por onde podiam circular sozinhas. O que ele descobriu foi surpreendente: algumas percorriam vários quilômetros sem supervisão de adultos e conheciam o bairro como a palma da mão. Décadas depois, Hart repetiu o exercício e constatou que esse "território de liberdade" havia diminuído drasticamente, uma tendência que, desde então, tem sido observada em diversos países.

Por muitos anos, brincar na rua até escurecer foi lembrado principalmente como uma imagem carregada de nostalgia. No entanto, um número crescente de estudos vem chegando a uma conclusão muito mais interessante: aquela liberdade cotidiana também funcionava como um treinamento psicológico sem igual.

Resolver conflitos sem a intervenção de adultos, explorar o bairro, assumir pequenos riscos e até inventar brincadeiras por causa do "tédio" ajudava a desenvolver habilidades como autonomia, autoconfiança, regulação emocional e capacidade de lidar com a incerteza — competências que, hoje, muitos especialistas consideram cada vez menos comuns entre as crianças.

Os pesquisadores usam um conceito bastante ilustrativo para medir essa transformação: o home range, ou seja, a área que uma criança consegue percorrer sem supervisão de um adulto. Como lembra o jornal The Washington Post, apenas algumas gerações atrás, esse território podia se estender por vários quilômetros. Hoje, em muitos casos, ele mal vai além da porta de casa.

De fato, estudos realizados em diferentes países mostram que cada vez menos crianças podem ir sozinhas à escola, atravessar uma avenida ou visitar um amigo do bairro sem autorização ou supervisão constante de um adulto. Essa redução da independência reflete o quanto a infância mudou.

A autonomia que educa

Quando um grupo de crianças discutia as regras de uma partida, decidia quem começaria o jogo ou encontrava uma solução para recuperar uma bola perdida, fazia muito mais do que apenas se divertir. Segundo os pesquisadores, sem perceber, elas estavam exercitando negociação, cooperação, criatividade, tolerância à frustração e tomada de decisões.

É justamente por isso que um estudo recente da Universidade de Aarhus concluiu que as próprias crianças consideram essencial que as brincadeiras pertençam a elas, não aos adultos. Um dos autores resumiu essa ideia com uma frase provocativa: "Às vezes, um adulto deveria ficar calado e ir embora".

Pequenos riscos, como cair da bicicleta, subir em uma árvore ou voltar para casa com os joelhos ralados fazem parte das lembranças de várias gerações. Hoje, esses episódios costumam ser vistos como situações que devem ser evitadas. No entanto, muitos psicólogos defendem que esses riscos controlados ensinam algo difícil de aprender de outra forma: avaliar perigos, superar o medo e perceber que os problemas geralmente têm solução. Diversos estudos científicos indicam, inclusive, que essa exposição gradual à incerteza pode fortalecer a autoconfiança e reduzir o risco de ansiedade no longo prazo.

Os dados dão razão a essa visão. Um estudo da Universidade de Exeter realizado com mais de 4.000 crianças concluiu que aquelas que brincavam ao ar livre com mais frequência entre os dois e os quatro anos tinham maior probabilidade de manter um bom perfil de saúde mental até os oito anos de idade.

Outra pesquisa, realizada com 2.500 crianças, descobriu que as brincadeiras ao ar livre estavam associadas a melhores habilidades sociais e emocionais, reforçando a ideia de que esses benefícios vão muito além do exercício físico.

Não são as telas, mas aquilo que elas substituíram

O que os especialistas ressaltam é que a redução das brincadeiras ao ar livre não pode ser explicada apenas pela tecnologia. Também influenciam fatores como o trânsito, o desaparecimento de espaços seguros, a redução do tempo de recreio, o medo dos pais e uma cultura que tende a supervisionar qualquer atividade infantil.

O resultado é uma infância muito mais organizada, com mais atividades dirigidas e menos oportunidades para experimentar, cometer erros e aprender por conta própria.

É claro que nenhum pesquisador defende voltar a uma época com menos medidas de segurança ou permitir que crianças façam qualquer coisa. O debate gira em torno de outra questão: encontrar o equilíbrio entre proteger e permitir que elas desenvolvam a própria autonomia.

Depois de décadas tentando eliminar qualquer risco da infância, a psicologia começa a lembrar uma ideia que muitas gerações aprenderam brincando na rua até escurecer: a confiança raramente surge quando tudo está sob controle, mas quando alguém descobre que é capaz de seguir em frente por conta própria.

Imagem | Joe Shlabotnik (Flickr), Brittany Grater (Flickr)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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