Novo episódio de terror na Ucrânia não envolve mísseis ou drones, mas uma cidade sem celulares

Caso dos telefones celulares na Ucrânia ilustra como a guerra moderna se infiltrou em todas as camadas da vida civil

Imagem | Ministério da Defesa da Ucrânia
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Na frente ucraniana, a batalha pelas redes tem se intensificado em importância nos últimos meses. A Ucrânia deixou isso claro desde a data de homenagem às suas tropas. Isso aconteceu com a Operação Spiderweb, quando o Serviço de Segurança Ucraniano contrabandeou pequenos drones FPV para cerca de cinco bases aéreas russas em caminhões. Os drones foram lançados e controlados através do sistema telefônico russo, destruindo pelo menos dez bombardeiros estratégicos.

Isso ficou gravado em Moscou e agora eles estão usando isso.

A transformação do telefone

A guerra na Ucrânia transformou algo tão cotidiano quanto a telefonia móvel em um sistema de combate decisivo, revelando uma profunda mudança na natureza dos conflitos modernos: as redes civis tornaram-se infraestruturas militares de fato, e cada sinal, cada chip SIM, cada torre e cada pacote de dados pode ser uma ferramenta ofensiva ou um ponto fraco.

A tensão escalou a tal ponto que a Rússia, incapaz de controlar totalmente como a Ucrânia explora sua rede celular para direcionar drones de precisão a longas distâncias, começou a cortar o serviço móvel à noite em regiões inteiras. A situação ilustra um paradoxo perturbador: sem telefones celulares, a ameaça aérea é limitada, mas com eles a vida civil, as emergências, o comércio e a própria governança continuam funcionando. Pela primeira vez, uma grande potência assume abertamente um custo social e econômico em troca de deter o avanço da guerra conectada.

Revolução tática

A capacidade dos drones ucranianos de usar a infraestrutura russa como se fosse sua tem sido um dos desenvolvimentos mais marcantes do conflito. Dispositivos baratos, como os dongles celulares da DJI, transformam um drone FPV em uma plataforma capaz de operar a centenas ou até milhares de quilômetros do piloto, desde que haja cobertura 4G. Como dissemos, essa mesma tecnologia possibilitou a famosa Operação Spiderweb.

O padrão agora se repete: drones Shahed iranianos modificados com modems 4G que transmitem vídeo em tempo real, drones FP-1/2 ucranianos que driblam defesas graças a conexões celulares, ou os russos Molniya que atuam como naves-mãe aéreas para transportar drones FPV sobre cinturas de interferência eletrônica. O drone não depende mais do alcance de sua antena – ele depende da infraestrutura telefônica, transformando cada torre em um nó militar involuntário.

Resposta russa

Diante dessa nova frente, a Rússia tentou fechar as lacunas sem interromper todo o ecossistema digital, mas as soluções intermediárias estão falhando. Seu primeiro passo foi bloquear por 24 horas qualquer SIM que tivesse estado em roaming, uma medida destinada a detectar cartões russos enviados clandestinamente para a Ucrânia.

Em seguida, o bloqueio foi estendido a cartões SIM inativos por 72 horas, um sinal do crescente temor de que milhares de SIMs russos participem de ataques sem que seus usuários sequer saibam. Finalmente, em diversas regiões fronteiriças, a medida mais extrema foi adotada: o corte de dados móveis durante a noite, quando os ataques normalmente ocorrem. Essa dinâmica não apenas prejudica a população civil, como também ilustra a perda de controle de um Estado que vê sua infraestrutura comercial se voltar contra ele com uma facilidade desconcertante.

Rússia

Precedente histórico

O Ocidente já conhecia o problema da telefonia como arma, embora nunca nessa escala. No Iraque, um simples Nokia 105 podia detonar dispositivos explosivos improvisados ​​com uma confiabilidade e um alcance que pareceriam ficção científica na década de 1990. Para contrariar isso, foram implantados sistemas de interferência como o Warlock, capazes de bloquear sinais nas proximidades de comboios e colunas militares.

Hoje, essa mesma lógica reaparece com mais complexidade: qualquer drone que utilize uma rede celular pode ser neutralizado bloqueando-se o sinal, mas isso implica cegar ambulâncias, bombeiros, forças de segurança e milhões de usuários simultaneamente. O que antes era um dilema tático tornou-se estratégico: o que pode ser bloqueado sem deixar um país inteiro em silêncio operacional?

Um futuro ainda mais difícil

O próximo salto tecnológico torna essa equação ainda mais frágil. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia já operam drones equipados com receptores Starlink ou outros serviços de conectividade direta via satélite. Isso marca o fim do domínio absoluto do território eletromagnético: um drone que recebe ordens da órbita é imune a torres de celular e aos padrões clássicos de interferência terrestre. À medida que os terminais de comunicação direta via satélite para uso civil proliferam, será quase impossível distinguir entre comunicações benignas e comunicações sinais de comando e controle para drones hostis.

Nesse cenário, um operador localizado em outro continente poderia direcionar um ataque com precisão cirúrgica sem depender de qualquer rede nacional ou se expor a contramedidas previsíveis. O campo de batalha deixa de ser geográfico e se torna um espaço digital global, onde as fronteiras físicas importam menos do que a disponibilidade de constelações orbitais.

Controle do espectro

O caso da telefonia móvel na Ucrânia ilustra como a guerra moderna se infiltrou em todas as camadas da vida civil, borrando as linhas entre infraestrutura pública e capacidade militar. A decisão da Rússia de desligar a rede à noite não é apenas um sintoma de vulnerabilidade tecnológica, mas também um prenúncio do tipo de conflitos que estão por vir: guerras onde cada dispositivo inteligente é uma antena, cada usuário um vetor em potencial e cada rede um campo de batalha.

Nesse novo paradigma, a questão não é mais como defender um país, mas sim como defender uma infraestrutura projetada para conectar milhões de pessoas sem transformá-la em uma arma involuntária.

Imagens | Ministério da Defesa da Ucrânia, Ministério da Defesa da Ucrânia

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