Durante a Guerra do Afeganistão (1979-1989), em mais de uma ocasião, as forças soviéticas adaptaram helicópteros e aviões de transporte para funções improvisadas em combate, desde apoio aproximado até plataformas de vigilância armada. Naquele momento, deixaram claro que, mesmo em exércitos altamente estruturados, a necessidade no campo de batalha obriga a reinventar máquinas que nunca foram projetadas para lutar.
A Ucrânia está seguindo esse exemplo. Em meio a uma guerra amplamente dominada por drones, o país encontrou uma solução inesperada em uma relíquia da era soviética: o Antonov An-28, um avião de transporte leve que foi transformado ou “tunado” em algo completamente diferente.
Longe de sua função original, esse bimotor agora atua como uma plataforma ofensiva aérea capaz de lançar drones interceptadores a partir de suas asas, tornando-se uma espécie de “porta-drones” improvisado. Essa adaptação não é um experimento isolado, mas parte de uma evolução acelerada na qual sistemas antigos são reinventados para responder a ameaças modernas, dando origem a uma ideia-chave: o combate aéreo já não depende apenas de mísseis, mas de sistemas mais baratos, flexíveis e replicáveis.
Até pouco tempo atrás, as tripulações do Antonov An-28 se dedicavam a derrubar drones inimigos com metralhadoras a partir da própria aeronave, uma tática rudimentar, mas eficaz, que já havia conseguido centenas de abates em batalha.
No entanto, o salto qualitativo vem com a integração de drones interceptadores como o P1-Sun ou o AS-3 Surveyor sob suas asas, aparelhos capazes de perseguir e destruir alvos de forma autônoma ou guiada. Dessa forma, o avião já não é apenas um caçador direto, mas um multiplicador de alcance que lança “mísseis baratos” na forma de drones, capazes de atingir ou detonar perto do alvo, ampliando enormemente as possibilidades de interceptação.
A economia como arma
Um dos fatores mais determinantes dessa inovação é, mais uma vez, o custo. Diante de drones ou mísseis inimigos que podem custar dezenas de milhares de dólares, os interceptadores ucranianos são significativamente mais baratos, especialmente se forem produzidos em grande escala.
Essa diferença muda a lógica do combate, porque já não se trata de gastar mais para se defender, mas de encontrar formas de neutralizar ameaças a um custo menor. E não só isso. O Antonov An-28 também permite aproximar esses interceptadores do alvo, lançando-os de grandes altitudes e em alta velocidade, o que melhora sua eficácia e reduz o tempo de reação, reforçando uma defesa aérea mais sustentável.
Não há dúvida de que o uso do avião como plataforma aérea oferece vantagens operacionais bastante claras. Ele pode patrulhar por longos períodos, posicionar-se rapidamente em zonas de risco e até mesmo operar a partir de pistas improvisadas graças à sua capacidade de decolagem curta.
Além disso, combina múltiplas ferramentas: drones, armas leves e potencialmente outros sistemas, criando uma defesa adaptável diante de diferentes tipos de ameaças. Em um contexto em que a Rússia produz milhares de drones por mês e desenvolve modelos cada vez mais rápidos, essa flexibilidade se torna essencial para manter o equilíbrio no campo de batalha.
O que está acontecendo com o Antonov An-28 não é apenas uma adaptação tática, mas um indício de para onde a guerra moderna está se dirigindo. A ideia de lançar drones a partir de outras plataformas — sejam aviões, helicópteros ou até mesmo sistemas não tripulados — abre caminho para um modelo de combate muito mais distribuído, no qual múltiplas camadas de defesa trabalham de forma coordenada.
Visto dessa forma, o valor no novo cenário não reside apenas na potência ou na sofisticação, mas na capacidade de combinar soluções simples, escaláveis e econômicas para neutralizar ameaças em massa, redefinindo o que se entendia até agora como superioridade aérea.
Imagem | Wild Hornets
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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