Se há algo que guerras como a do Irã (ou da Ucrânia) têm em comum, é que elas nos lembram da enorme fragilidade de alguns dos pilares que sustentam a economia global. E isso é algo que começa a preocupar os agricultores. Além de ser um canal fundamental para o tráfego de petróleo, o Estreito de Ormuz é um centro estratégico no comércio global de fertilizantes nitrogenados. A ONU estima que, antes da guerra, um terço do tráfego marítimo global desse insumo, que por sua vez influencia a produtividade agrícola, passava por ali.
Após mais de dois meses com o tráfego marítimo bloqueado ou pelo menos restringido, um número crescente de vozes alerta que as interrupções no fornecimento de fertilizantes podem levar a uma grande crise alimentar.
Alerta
Os avisos sobre como a guerra com o Irã poderia afetar o tráfego de fertilizantes podem não ter sido tão imediatos quanto os referentes ao mercado de petróleo, mas isso não significa que a questão não tenha causado preocupação quase desde o início. No começo de março, logo após os EUA e Israel atacarem Teerã, alguns analistas já expressavam preocupação com os riscos de o conflito interromper a distribuição global de ureia, um fertilizante nitrogenado no qual o Golfo Pérsico desempenha um papel crucial.
Gráfico: Statista
Quão crucial?
O Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares (IFPRI) estima que cerca de 36% das exportações globais de ureia entre 2023 e 2025 tenham se originado nos países do Golfo Pérsico, principalmente Irã, Catar e Arábia Saudita. Isso é significativo considerando dois pontos-chave destacados pelo próprio instituto. Primeiro, a ureia é o fertilizante nitrogenado mais utilizado, o que ressalta sua importância para as culturas agrícolas. Segundo, o fluxo de ureia é bastante disperso. Seus principais importadores são Índia, Brasil, Austrália, Tailândia, Estados Unidos e Turquia.
Teerã desempenha um papel crucial nesse cenário, tanto por sua dimensão como produtor e exportador quanto por seu controle sobre o Estreito de Ormuz, que canaliza grande parte do comércio global de fertilizantes. A ONU estima que aproximadamente um terço de todas as mercadorias marítimas passem por esse estreito, o equivalente a 16 milhões de toneladas.
Isso é compreensível, considerando que uma das maiores fábricas de ureia do mundo (QAFCO) está localizada no Catar, uma instalação cuja produção, aliás, foi interrompida no início da guerra devido a cortes no fornecimento de gás natural. O motivo? Mais uma vez, a interconexão da economia global. O GNL é um insumo essencial na produção de fertilizantes como ureia e amônia.
Comércio em colapso
O problema é que, após vários meses de guerra no Oriente Médio, a cadeia de suprimentos global de fertilizantes começa a mostrar sinais de fragilidade. O sinal mais recente veio da OCDE, de forma bastante clara. De acordo com suas observações (reportadas pela agência de notícias EFE), a organização detectou que, em abril, o tráfego de carga marítima despencou para o nível mais baixo desde janeiro de 2019. Isso é o mínimo, já que as estatísticas da OCDE não permitem dados retroativos maiores.
A OCDE também detectou uma queda no fluxo de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) pelo Estreito de Ormuz, mas os dados sobre a ureia são particularmente alarmantes. Para começar, a organização confirmou o papel significativo do Golfo nesse comércio, com 18 docas especializadas.
O alerta da OCDE surge justamente quando alguns países começam a sentir a interrupção de suas cadeias de suprimentos. Um exemplo claro é o Nepal: seu volume de reservas está muito abaixo do necessário (171 mil toneladas em comparação com 250 mil), o que já levou o governo a comprar 80 mil toneladas de fertilizantes químicos emergenciais por meio de um acordo com a Índia.
Este é o único indicador?
Não. O alerta da OCDE é apenas mais um detalhe em um quadro muito mais amplo, onde não apenas o fluxo de mercadorias está sendo afetado. Outro indicador-chave são os preços dos fertilizantes. No final de abril, a Reuters já noticiava o aumento dos preços da ureia. Embora o preço tenha caído nas últimas semanas, permanece bem acima do nível registrado em 27 de fevereiro, antes do início da guerra. Não são apenas as interrupções no tráfego no Estreito de Ormuz que estão afetando o custo do fertilizante. O GNL (Gás Natural Liquefeito) também é um fator.
A situação chegou a tal ponto que a Fertiglobe, uma grande empresa de fertilizantes, começou a operar suas fábricas nos Emirados Árabes Unidos a plena capacidade e, em seguida, transportar o fertilizante por caminhão para outros portos distantes de Ormuz, sua rota de exportação habitual. Essa operação aumenta tanto os custos que não seria lucrativa em circunstâncias normais. Após a alta dos preços, isso mudou. "Contanto que consigamos superar os obstáculos logísticos, o preço mais do que compensa", explicou um executivo da empresa ao Financial Times. "O mercado está desesperado."
Sinais de alerta
A grande questão é o que esperar daqui para frente. Embora a ONU reconheça que nem todos os países estão igualmente expostos a interrupções no fornecimento de fertilizantes e que as colheitas não seguem o mesmo cronograma em todas as regiões do mundo, algumas organizações já se manifestaram para alertar sobre o impacto potencial da guerra.
Diversos fatores estão em jogo: os problemas de transporte de fertilizantes e a possibilidade de seu custo disparar a ponto de os agricultores desistirem de usá-los ou buscarem alternativas, o que poderia afetar a produtividade das lavouras. Outra questão é se isso se refletirá nos preços dos alimentos.
Déjà vu nos campos
A cena lembra um pouco a do início da guerra na Ucrânia, embora com algumas diferenças. "Em 2022, grande parte do fertilizante foi finalmente distribuída", explicou Shwan Arita, do Centro de Políticas de Risco Agrícola da Universidade Estadual de Dakota do Norte, à Reuters. "A escassez de oferta que estamos vendo agora é muito mais grave." Outro inconveniente é que, ao contrário de alguns anos atrás, os preços dos grãos, após várias temporadas de colheitas abundantes, deixam os agricultores sem margem para compensar o aumento do custo da ureia.
Milhões de refeições
Há alguns dias, Svein Tore Holsether, executivo da Yara, uma empresa norueguesa de distribuição de fertilizantes, alertou à BBC que os problemas na cadeia de suprimentos decorrentes da guerra poderiam custar ao mundo até 10 bilhões de refeições por semana, um número que seria sentido com mais intensidade nos países mais pobres.
"Neste momento, há meio milhão de toneladas de fertilizantes nitrogenados que não estão sendo produzidas globalmente devido à situação atual", reflete ele. O problema, insiste ele, é que sem essa ajuda, estima que algumas culturas poderão ter suas colheitas reduzidas em até 50% na primeira safra.
Este é o único alerta?
A empresa britânica Grosvenor Group também alertou para as consequências da escassez de fertilizantes. Mesmo dentro da ONU, vozes se apressaram em enfatizar a importância do assunto, como a de Jorge Moreira da Silva, diretor executivo do UNOPS, que emitiu um alerta esta semana em entrevista à Agence France-Presse (AFP): "Temos algumas semanas para evitar o que provavelmente será uma enorme crise humanitária. Poderíamos presenciar uma crise que condenaria mais 45 milhões de pessoas à fome e à inanição."
O fornecimento de fertilizantes tem até implicações geopolíticas. O ex-presidente do Banco Mundial, David Malpass, pediu à China que pare de estocar alimentos e fertilizantes: "Ela possui as maiores reservas do mundo. Pode parar de acumular." Seu apelo surge na véspera da cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping e após Pequim ter reforçado os controles de fronteira especificamente para monitorar as exportações de fertilizantes, numa tentativa de proteger seus agricultores. Apesar dessas restrições, as exportações aumentaram 27,6% em abril.
Imagem | Darla Hueske (Unsplash)
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