EUA acreditam que a guerra no Golfo Pérsico acabou; Irã acredita que essa será sua decisão quando julgar necessário

Alguém está mentindo

Imagem | USN, Mostafa Tehrani
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PH Mota

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Durante a chamada "Guerra dos Tanques" entre o Irã e o Iraque, várias empresas de navegação chegaram ao ponto de pintar bandeiras de outros países em seus navios e mudar nomes e registros quase da noite para o dia, numa tentativa de atravessar o Golfo Pérsico sem serem atacadas. Mesmo assim, muitas tripulações continuaram navegando, convencidas de que qualquer erro, falha de radar ou movimento incomum poderia transformar uma viagem comercial de rotina em uma zona de combate improvisada.

Guerra mais incerta

A situação em torno do Irã e do Estreito de Ormuz tornou-se um paradoxo difícil de sustentar. A Casa Branca chegou a insistir que a guerra havia terminado semanas atrás. De fato, Marco Rubio afirma que a Operação "Fúria Épica" já foi concluída, enquanto Trump agora se refere ao conflito como uma espécie de "mini-guerra" ou um episódio temporário onde as últimas pequenas disputas estão sendo resolvidas.

No entanto, drones e mísseis continuam a sobrevoar o país, navios americanos continuam a interceptar ataques iranianos e forças de ambos os países continuam a trocar tiros por todo o Golfo. Em outras palavras, Washington tenta vender a ideia de que o conflito agora está numa fase diplomática, enquanto, em terra, as ações militares continuam quase diariamente, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, onde os bombardeios são praticamente uma ocorrência diária.

Como bloquear o Estreito de Ormuz sem fechá-lo

A principal estratégia do Irã não tem sido destruir as frotas americanas, mas sim tornar o estreito perigoso demais para o comércio normal. Embora alguns navios cruzem a área quase diariamente, escoltados pelos EUA, o tráfego permanece bem abaixo dos níveis pré-guerra, porque as companhias de navegação e as seguradoras continuam a considerar a passagem uma aposta arriscada.

Dessa forma, o Irã mantém uma enorme pressão sobre a economia global sem impor um bloqueio completo, utilizando ataques limitados, ameaças constantes e a persistente sensação de que qualquer trânsito pode terminar em um incidente militar.

O fracasso do plano americano

Trump apresentou o "Projeto Liberdade" como a operação que demonstraria que Washington poderia reabrir o Estreito de Ormuz pela força e restaurar a liberdade de navegação. No entanto, o plano mal conseguiu movimentar alguns navios antes de ser suspenso menos de dois dias após o seu início.

A decisão do presidente americano reflete o principal dilema de Washington: proteger o estreito exige assumir riscos militares constantes, mas abandonar a operação deixa o Irã com a capacidade de continuar influenciando o comércio global de energia. Os Estados Unidos se viram presos entre evitar outra grande guerra no Oriente Médio e parecer incapazes de impor sua própria estratégia.

Míssil

Trégua funciona como guerra limitada e controlada

A verdade é que, no papel, há um cessar-fogo, mas, na prática, ambos os países continuam agindo como se o conflito ainda estivesse em curso. O Pentágono descreve os ataques iranianos como "assédio" abaixo do limiar de uma nova guerra total, permitindo que Trump evite uma escalada significativa.

Enquanto isso, o Irã continua lançando ataques limitados e testando até onde pode levar a situação sem provocar uma resposta maciça dos EUA. O resultado é uma espécie de guerra híbrida onde, oficialmente, não há guerra... mas também não há paz.

Aliados árabes começam a desconfiar dos EUA

Os ataques iranianos aos Emirados Árabes Unidos têm provocado crescente inquietação entre as monarquias do Golfo. Muitos governos da região percebem que Trump está mais focado em sair do conflito do que em responder com firmeza a Teerã, mesmo após novos lançamentos de mísseis e drones.

A sensação é de que a presença de bases americanas pode tornar esses países alvos prioritários, sem necessariamente garantir proteção total. Essa dúvida também começa a se espalhar entre os aliados europeus e asiáticos, que observam Washington redefinir continuamente o que considera uma guerra de verdade.

China se torna principal ator diplomático

Em meio ao bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, Pequim tenta manter um equilíbrio entre seu relacionamento com o Irã e a necessidade de estabilizar os mercados de energia. Os Estados Unidos pressionam a China para convencer Teerã a reabrir totalmente o estreito, especialmente antes do próximo encontro entre Trump e Xi Jinping.

O problema é que a China continua comprando petróleo iraniano e rejeita algumas das sanções americanas, mesmo sabendo que o aumento dos preços da energia está prejudicando seriamente sua economia. Isso torna Pequim um ator indispensável para qualquer solução negociada.

Irã acredita que tempo está a seu favor

A liderança iraniana parece convencida de que os Estados Unidos querem evitar outra guerra prolongada no Oriente Médio a todo custo e possivelmente está usando essa percepção para aumentar gradualmente a pressão. Teerã mantém seus ataques limitados, mantém o Estreito de Ormuz parcialmente fechado e continua demonstrando que ainda pode perturbar os mercados globais sem cruzar uma linha vermelha definitiva.

O resultado é uma situação sem precedentes, na qual Washington tenta declarar vitória e seguir em frente, enquanto o Irã continua a usar ameaças militares como ferramenta diária de negociação.

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