Se há um setor em que o ditado "uma imagem vale mais que mil palavras" se aplica perfeitamente, é o turismo. Dubai sabe disso muito bem. Durante anos, a cidade dos Emirados trabalhou para se consolidar como um destino de luxo e um polo de atração para expatriados — um oásis de tranquilidade que, até 2025, estava prestes a atingir a marca de 19,5 milhões de visitantes internacionais.
Esse cenário mudou em março passado, quando os Emirados Árabes Unidos (EAU) se viram envolvidos no conflito que opõe Israel, EUA e Irã. Imagens de um incêndio em um dos hotéis mais luxuosos de Dubai e o fechamento total do aeroporto da cidade devido à ameaça de drones iranianos lançaram uma sombra sobre a reputação do destino.
Agora, as autoridades querem reverter a situação de uma maneira singular: recompensando os moradores de Dubai com 700 euros (cerca de R$ 4.045) caso tragam turistas nos próximos meses.
Recrutando embaixadores
Na tentativa de atrair novamente os turistas estrangeiros, as autoridades de Dubai chegaram a uma conclusão: seus melhores aliados são os próprios moradores. Por isso, querem transformá-los em embaixadores do turismo — literalmente. Há algumas semanas, o governo dos Emirados lançou o programa "A Dubai Invite", que incentiva os habitantes da cidade (tanto cidadãos nativos quanto residentes estrangeiros) a atrair visitantes de fora dos EAU.
E como pretendem fazer isso?
Abrindo a carteira. O "A Dubai Invite" visa atrair turistas estrangeiros concentrando-se na população que já vive em Dubai. A premissa é simples: se você mora no emirado e consegue atrair visitantes de outras nações — amigos, parentes, colegas —, as autoridades de Dubai o recompensarão com 3.000 dirhams, ou pouco mais de 700 euros.
Não se trata de emitir cheques com esse valor, mas sim de recompensar os "embaixadores" de Dubai com vouchers de 700 euros, que podem ser utilizados em estabelecimentos selecionados. Não há transferências bancárias ou pagamentos em dinheiro envolvidos.
Os participantes do programa obtêm descontos em hotéis, restaurantes e atrações — como 45% de desconto em estadias no Melia Desert Palm ou diárias gratuitas em hotéis da exclusiva rede IHG. Cada morador de Dubai tem direito a três "recompensas" distintas, no valor de 700 euros cada; basta recrutar pelo menos três grupos de turistas.
As letras miúdas
A iniciativa "Dubai Invite" é tão ambiciosa quanto simples. Ela está disponível apenas para cidadãos e expatriados residentes em Dubai, que devem recrutar turistas residentes fora dos Emirados Árabes Unidos (EAU) que possuam visto de entrada no país.
Além disso, a visita a Dubai deve ocorrer dentro de um período específico: entre 20 de julho e 31 de outubro. Residentes de Dubai interessados podem enviar quantos convites quiserem, embora um único convite não possa incluir mais de cinco turistas. Ao viabilizar com sucesso três convites, o residente ganha três vouchers no valor de € 700 cada.
Está funcionando?
Certamente não parece estar indo mal. O Departamento de Economia e Turismo de Dubai (DET) lançou a iniciativa no final de julho e, poucos dias depois, a imprensa dos Emirados relatou que o número de solicitações já havia ultrapassado 10.000.
Noor Al Geziry, uma representante do DET, declarou na estação de rádio Dubai Eye que a resposta foi tão "avassaladora" que as autoridades locais poderiam ter de rever o limite de pacotes de recompensa disponíveis.
De qualquer forma, um exame mais atento dos vouchers revela que eles não são cheques em branco: em muitos casos, oferecem descontos em vez de serviços totalmente gratuitos. Por exemplo, o voucher do "Dubai Invite" permite uma estadia gratuita em hotéis da rede IHG, mas apenas na terceira noite; o usuário deve pagar pelas duas primeiras noites.
No Melia Desert Palm, o desconto é de 45%, embora o programa também ofereça vouchers de 100 AED (€ 23/R$ 132) para serviços de spa, alimentação e bebidas.
Objetivo: reconquistar turistas
Para além dos detalhes ou das letras miúdas, o aspecto realmente interessante do "Dubai Invite" é o contexto por trás dele e o que ele revela: o desejo das autoridades de reconquistar os turistas. Para entender isso, é preciso voltar a março, ao início do conflito envolvendo Israel, os EUA e o Irã.
Assim como outros destinos do Golfo Pérsico, Dubai tornou-se um dano colateral do conflito. Em poucos dias, a ameaça representada por drones de Teerã forçou o fechamento do aeroporto e gerou momentos de tensão — como quando uma aeronave não tripulada iraniana provocou um incêndio no icônico hotel Burj Al Arab.
Esses incidentes afetaram mais do que apenas a logística e a infraestrutura do emirado; Eles também mancharam a imagem do local como um destino seguro e confiável — um refúgio de paz no Oriente Médio onde estrangeiros ricos podiam desfrutar de luxo sem se preocupar com a segurança.
Essa imagem, construída ao longo de anos de esforço e investimentos vultosos, foi destruída em questão de dias, à medida que expatriados pegavam a estrada para viagens de dez horas ou pagavam caro por voos para deixar Dubai e buscar refúgio em cidades mais seguras.
O impacto foi tão grave assim?
Sim — pelo menos inicialmente. Dubai passou de uma situação em que celebrava um número recorde de turistas internacionais para ver o número de companhias aéreas operando em seu aeroporto cair drasticamente. Após a eclosão da guerra, alguns hotéis e empresas do setor viram suas receitas despencar mais de 50%, resultando em prejuízos que chegaram à casa dos milhões.
O icônico hotel Burj Al Arab, afetado por ataques de drones iranianos, optou por fechar totalmente as portas por 18 meses para passar por uma reforma ambiciosa. Agora, a cidade busca reverter a situação concentrando-se naquilo que considera seu maior ativo: seus próprios moradores.
"Em um momento em que a conexão pessoal e a credibilidade são mais importantes do que nunca na tomada de decisões sobre viagens, a campanha 'A Dubai Invite' reflete o que torna esta cidade tão atraente: as pessoas que a chamam de lar e a conhecem melhor — as famílias e os amigos", afirma Al Geziry.
Imagens | Snap Saga (Unsplash) e Katalin Salles (Unsplash)
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